Arquivo mensal: março 2016

Ahhhh!!! A Cerveja!!!!

20151210_234731A cerveja é uma bebida alcoólica carbonatada, produzida através da fermentação de materiais com amido, principalmente cereais maltados, como a cevada e o trigo. Estima-se que seja a quinta bebida mais consumida no mundo, perdendo apenas para a água, o café, o chá e o leite (nesta ordem).

Não existe uma data precisa de quando ela tenha surgido na história, mas os primeiros registros de fabricação de cerveja têm aproximadamente 6 mil anos e remetem aos Sumérios. Em seguida os Egípicios aprenderam a fazer a cerveja e o Império Romano, após o contato com a bebida no Egito foi o responsável pela expansão do produto (apesar dos Romanos tratarem a bebida como de “segunda categoria” em relação ao vinho!).

Inicialmente, a cerveja era um produto caseiro, como o pão e outros alimentos e as mulheres eram as principais responsáveis pela produção. Porém, na idade média, os conventos tomaram para sí o monopólio da fabricação da cerveja. Os monges também foram responsáveis pelo aperfeiçoamento da bebida: como eles eram os poucos que detinham a capacidade da comunicação escrita, eles puderam relatar, conservar e aperfeiçoar, ao longo de gerações, as técnicas de fabricação.

Os ingredientes
A cerveja tem como base 4 ingredientes: água, malte, lúpulo e levedura. Porém, ela pode receber outros ingredientes de acordo com a criatividade do fabricante ou das características do local onde foi produzida.

  • Água: constitui entre 90% e 95% de uma cerveja, sendo assim um elemento essencial na produção e que têm forte influência na qualidade final do produto. Nas ditas cervejas artesanais, as diferenças da água utilizada em diferentes lotes de uma mesma receita podem gerar pequenas alterações no resultado final. No caso das grandes produtoras, estas conseguem, através de processos químicos, fazer com que a água utilizada em determinada receita tenha exatamente as mesmas propriedades (acidez, quantidade de sais minerais, etc) independente da origem da água ou local de produção. Portanto, aquela história de que a cerveja de Agudos é melhor do que a de Jacareí ou Guarulhos não passa de lenda (existem outras razões para as diferenças, mas com certeza não será a água, vide curiosidades abaixo).
  • Cevada

    Cevada

    Maltes e adjuntos: o malte é obtido através do processo de geminação de cereais maltados. Este processo é controlado: estimula-se a geminação (através da água) para que o cereal produza algumas enzimas e depois interrompe-se o processo (atraves de secagem e/ou torragem). O malte mais comumente utilizado na produção de cerveja é o proveniente de cevada, seguido pelo do trigo. Através da adição de cereais não maltados, chamados de adjuntos, é possível baratear o processo de fabricação, já que estes cereais em geral são mais baratos que os maltados. Os cereais não maltados mais comumente utilizados são o arroz e o milho. Durante o processo de brassagem (fervura da água com o malte) estes cereais, que devem conter amido, liberam o açúcar, que será transformado em álcool durante o processo de fermentação. Os maltes e adjuntos também são responsáveis por boa parte do sabor da cerveja.

  • Lúpulo

    Lúpulo

    Lúpulo: as cervejas, assim como outras bebidas fermentadas, tendem a ter no sabor uma mistura de ácido com adocicado. Em alguns casos o ácido era tão intenso que alguns produtores começaram a utilizar-se de ervas e especiarias afim de temperar e aromatizar a cerveja. O rosmaninho, o gengibre e o anis foram alguns dos vários aromatizantes utilizados ao longo do tempo. Porém o lúpulo foi ganhando popularidade, pois além de dar um amargor e aroma característicos, também é um ótimo antiséptico e conservante, que acaba por aumentar a qualidade e a vida útil da cerveja.

  • Leveduras

    Leveduras

    Levedura: são microorganismos unicelulares, biologicamente classificados como fungos. São eles os responsáveis por transformarem o açúcar em álcool durante o processo de fermentação. Como resultado deste processo, além do álcool, também é gerado o gás carbônico.

  • Outros ingredientes: as cervejas podem receber diversos outros ingredientes, como frutas, legumes, ervas, madeiras, condimentos ou mesmo outras bebidas (como vinho e whisky), afim de garantir características específicas de sabor, aroma e aparência à cerveja.

Famílias
Existem duas famílias principais de cervejas, as Lagers e as Ales.

As Lagers, também conhecidas como cervejas de baixa fermentação, são fermentadas à temperaturas mais baixas, e por isto levam este rótulo. Outro motivo para serem consideradas como “cervejas de baixa” é o fato das leveduras usadas neste tipo executarem o processo de fermentação mais lentamente e o fazerem no fundo do recipiente usado para o processo. As Lagers são relativamente novas (cerca de 600 anos), já que os processos para manter as temperaturas mais baixas durante a fermentação e maturação também são relativamente novos: antes do advento da refrigeração elas eram produzidas em locais específicos, apenas em determinadas épocas do ano, geralmente dentro de cavernas, afim de manter a temperatura baixa constante durante todo o processo.

Nas Ales, conhecidas como cervejas de alta fermentação, o processo acontece a temperaturas mais altas, o que faz com que a levedura aja com mais rapidez e fique concentrada no topo do líquido.

Além das Lagers e das Ales, ainda existem as Lambics, que são cervejas de fermentação espontânea, pois não são adicionadas leveduras específicas e o processo ocorre naturalmente, com “leveduras selvagens” presentes no ar.

Existem ainda vários estilos menores (em quantidade e opções, não em qualidade, que fique claro) que não se encaixam em nenhuma das grandes famílias, tais como Rauchbier (literalmente “cerveja defumada” em Alemão, pois os grãos são defumados, e não torrados como normalmente acontece), Gruitbier / Gruitale (cervejas sem adição de lúpulo), Trapistas / Abadias (estilos que podem ter cervejas tanto entre Ales quanto em Lagers), Fruitbiers (cervejas com adição de suco de frutas), entre outras.

Escolas cervejeiras
Podemos definir como “escola cervejeira” aquela região (lembrando que há séculos atrás as fronteiras eram bem diferentes de hoje) e/ou cultura que desenvolveu estilos próprios de cervejas, estilos estes que são seguidos por outras regiões / culturas. Existem três principais escolas já estabelecidas e uma ainda em processo de desenvolvimento:

  • Alemã: talvez a escola mais famosa do mundo, por produzir a família Lager, a mais consumida no mundo e um dos tipos (Pilsen) mais consumidos. São eles os inventores/descobridores do processo de baixa fermentação e um dos grandes divulgadores das cervejas de trigo. Também fazem parte desta escola a parte norte e oeste da Holanda, a República Tcheca (onde foi inventado o estilo Pilsen), a Polônia e partes dos países nórdicos (geralmente o sul).
  • Belga: a escola Belga, que também engloba geograficamente o norte da França e o Sul da Holanda talvez seja a escola mais cultuada entre os apreciadores de cervejas. Há séculos suas Abadias e Mosteiros desenvolvem diversos estilos muito diferentes entre si, como trapistas, abadias, witbiers, etc. Via de regra são cervejas mais “densas”, com uma gradação alcólica mais elevada e um sabor mais adocicado.
  • Inglesa: como fica separado da parte continental da Europa, aqui é mais fácil restringir geograficamente a escola para o Reino Unido (incluindo as ilhas ao redor e a Irlanda do Norte) e República da Irlanda. Ale lá é sinônimo de cerveja (você pede uma Ale num bar!) e notadamente existe uma preferência por cervejas com grãos mais torrados (red, brown, stout, etc), o que confere um sabor de amargor proveniente também da torra destes grãos, e não somente do lúpulo, além de uma cerveja um pouco mais “seca”.
  • Americana: esta é a escola que ainda está se desenvolvendo, até porque, por conta da Lei Seca americana que proibiu a produção e comercialização de bebidas alcóolicas, ela começou a se desenvolver há pouco mais de meio século. Porém, a lei seca acabou por ser benéfica, pois deu um “reset” na indústria americana, que apenas copiava as escolas Inglesa (no norte do país) e Alemã (no sul). Ela se caracteriza pelas experiências com os mais diversos ingredientes (frutas, ervas, temperos, etc) e pelo “exagero”: muito malte e muito lúpulo é sempre bem vindo. Poderiamos classificar o inscipiente mercado brasileiro, por conta de suas características, dentro da escola americana.

Além das principais escolas, temos países / culturas que não criaram uma escola própria, mas têm características bem peculiares, tais como o Japão, com as suas rice beers (sim, aqui o ingrediente principal é o arroz, tão mal afamado) ou a Rússia (e alguns outros países da antiga URSS) com suas Imperials. A Escócia, apesar de fazer parte da escola Inglesa, também se destaca por suas cervejas altamente alcólicas, licorosas e maturadas em barris de madeira (muitos deles utilizados anteriormente para maturar whisky).

Degustando e apreciando
Não existe uma regra para apreciar uma cerveja, até porque a cerveja seja talvez a bebida mais descontraida que exista. Mas para que a experiência da degustação seja melhor aproveitada, existem algumas sugestões:

  • Aparência: é com certeza a primeira característica a ser notada e que pode enriquecer ou empobrecer a experiência. Alguns pontos a serem notados:
    • Embalagem: qual o tipo (lata? long neck? garrafa mais gordinha? garrafa de 600?), o rótulo (existem verdadeiras obras de arte nos rótulos, especialmente das cervejarias artesanais), o tamanho, o tipo de lacração (tampa de metal, tampa de pressão), etc
    • Cor: a cor da cerveja é determinada principalmente pelo tipo do malte e seu nível de torrefação. Porém, alguns dos aditivos podem influir na coloração. Existe uma medida chamada SRM (Standard Reference Method, ou método de referência padrão, em português), que vai do amarelo palha, quase branco, até o negro, e é utilizado internacionalmente por cervejeiros e aficcionados.
    • Translucidez: a translucidez da cerveja é determinada pela filtragem. Uma cerveja filtrada geralmente é translucida (se ela não for muito escura, obviamente), enquanto as não filtradas, pelo fato das partículas de malte, lúpulo e outros ingredientes ainda estarem presentes no líquido podem ser turvas (em diversos níveis) ou totalmente opacas.
    • Formação dos gases: como o gás se forma e se dissipa. Fazem muitas bolhas? Fazem poucas? Elas demoram a se dissipar? São bolhas maiores? Menores?
    • Formação da espuma: a espuma que se forma é de grande volume? E a persistência? Ela fica bastante tempo ou some rapidamente? Deixa aquele “véu de noiva” no copo?
    • Cor da espuma: qual a cor da espuma? Branca, bege, marrom?
  • Aroma: boa parte do gosto que nossas papilas gustativas detectam são complementados ou modificados pelo olfato. Lembra daquela história de ficar gripado e a comida perder o gosto? Por isto é interessante tentar sentir quais os aromas que aquela cerveja traz antes de levá-la à boca. Entre os aromais mais típicos estão:
    • Álcool: o volume de álcool em uma cerveja é determinado pelo tipo e quantidade do malte utilizado (consequentemente, quanto amido virou açúcar) e pelo tempo de fermentação e tipo de levedura utilizada (quanto deste açúcar foi transformado em álcool). Assim como para o a cor, existe uma medida internacional, esta para todas as bebidas alcólicas, chamada ABV (Alcohol by Volume, álcool por volume) que representa a porcentagem de álcool contida a cada 100mls da bebida. Importante destacar que não necessariamente uma bebida com alto teor alcólico terá álcool no aroma, já que este aroma poderá ser suprimido pelos outros componentes.
    • Frutas: mesmo quando não se usa fruta na composição da bebida as reações químicas ocorridas durante todo o processo podem gerar aromas similares. As Witbiers são famosas pelo aroma cítrico (mesmo uma parte delas não levando nenhuma fruta) e as German Weizen, além dos cítricos, costumam ter banana e cravo no aroma, mesmo não usando destes ingredientes. Por sua vez, as Stouts apresentam notas de café e/ou chocolate, devido à torrefação dos seus grãos.
    • Especiarias: cravo, pimenta, ervas, etc. Assim como acontece com as frutas, mesmo a receita não contendo alguns destes ingredientes, aromas deles podem aparecer em uma cerveja.
    • Outros: pão/fermento, capim, chá, chocolate, baunilha. Muitos deles por conta de aditivos para dar as determinadas características e outros tantos por conta das reações e transformações químicas dos ingredientes básicos.
  • Sabor: com certeza o ponto mais importante da cerveja é o seu sabor e as reações que ele provoca (vide curiosidades). Podemos dizer que devido às variadas combinações das principais característiscas, a variedade de sabores e sensações proporcionadas pela cerveja são infinitas. Mas dentre as principais características e nuances do sabor, podemos destacar:
    • Álcool: independente da quantidade de álcool presente na cerveja, pode-se notá-lo ou não no sabor. Mesmo que às vezes ele não seja notado no aroma, ele pode aparecer no sabor, ou vice-versa.
    • Amargor: uma das principais características da maioria das cervejas é o seu nível de amargor e, além do efeito inebriante da bebida, o amargor é uma das principais fontes de prazer (vide curiosidades). Além do lúpulo, o nível de torrefação, bem como algum produto adicional (cravo-da-índia, por exemplo), contribuem para esta característica. À exemplo da cor e do volume de álcool, o IBU (International Bitterness Unit, Unidade Internacional de Amargor) estabelece uma gradação do nível de amargor de uma cerveja. Estima-se que à partir de 150 IBUs, o amargor é tão forte que a diferença é imperceptível para os seres humanos.
    • Dulçor: como já explicado, o amido dos grãos utilizados como malte é o gerador de açucar, que se transformará em álcool durante a fermentação, e invariávelmente a cerveja contará com algum nível de açucar (por isto também é que ela é calórica). Dependendo do nível de fermentação e dos outros ingredientes, este dulçor pode ser perceptível ou não, mas com certeza ele estará lá!
    • Notas: entende-se como notas outros sabores que possam estar presente na cerveja, mas que não provém diretamente dos ingredientes principais, e podem ser adicionados propositalmente ou então serem, assim como o aroma, resultado dos processos químicos. Uma cerveja pode ter uma infinidade de notas de sabor não relacionadas aos ingredientes principais, tais como: chocolate, café, frutas, madeiras, ervas, temperos, e vou para por aqui pois a lista é, literalmente infinita.
    • Retrogosto: a língua do ser humano tem pontos específicos onde cada tipo de sabor é detectado: o doce é melhor absorvido na ponta da língua, o ácido (ou azedo), nas laterais dianteiras da língua, o salgado bem no meio e o amargo no fundo da parte da língua que está na boca. Recentemente separaram o sabor adstringente (que também é um resultado do ácido) em uma categoria distinta, que é sentida na parte inferior da língua. O retrogosto é o sabor que uma bebida deixa na boca após ser ingerida. Como a língua se estende até a garganta, normalmente o retrogosto da cerveja leva o amargor (detectado no final da língua) como nota principal, que forma o conjunto com o restante dos sabores sentidos anteriormente.

Harmonização
Eu detesto esta palavra, mas vou usá-la: harmonização é o ato (ou arte, segundo alguns) de combinar a bebida com a comida. A regra básica de harmonização é que as características de um (aroma, sabor, e até características visuais) não devem se sobressair à do outro, mas sim se complementarem e, quando possível, realçarem as características um do outro. Então uma Witbier (com características mais leves) não combinaria bem com algum prato apimentado, ou com comida Indiana, por exemplo, que é “carregada” de especiarias, enquanto uma IPA, que tem notas de lúpulo muito marcantes, iria acabar por suprimir o sabor suave de uma mussarela de búfala.

Mas no final a regra geral é: desceu bem? Então manda bala!!!!

Curiosidades

  • Nas prisões européias era comum o preso ter, além da alimentação, uma ração diária de cerveja que variava entre um e dois pints (um pint equivale a 473 mililitros)
  • O lúpulo pertence a mesma família das canabidáceas, ou seja, é prima da maconha, porém não contem os efeitos entorpecentes desta. Quer dizer, o lúpulo sozinho, já que junto com o álcool, além de prazer (ver abaixo), proporciona uma sensação inebriante.
  • Diferentemente do vinho, a maioria das cervejas perde qualidade com o tempo (talvez esta seja a causa da alegada diferença de cervejas de um lugar para outro). Existe até um ditado que diz que “a melhor cerveja é aquela tomada na fábrica”. Portanto, para apreciar o melhor da cerveja, quanto mais perto da data de fabricação, melhor.
  • Um outro fator de deterioração da cerveja é a exposição à luminosidade. Por conta disto a imensa maioria das cervejas é embalada em garrafas de vidro escuro.
  • É por isto também que se adiciona limão nas cervejas conhecidas como “draft beers” (Corona, El Caguama e Müller, por exemplo, apesar do termo draft ser incorretamente utilizado): o limão disfarça o “ranço” provocado pela exposição da cerveja à luz, causado pelas garrafas transparentes.
  • Uma das explicações para o prazer em se beber cerveja (além da sensação de embriaguez) seja a endorfina, “componente com característica dos opiatos que são produzidos no cérebro como resposta natural do corpo à dor” (Le Couteur, Penny e Burreson, Jay em os Botões de Napoleão): ao sentir o amargor, que é uma sensação inicialmente desagradável para o ser humano, o nosso corpo produz esta substância, que gera uma sensação de prazer. É o mesmo princípio da pimenta e de outras especiarias “picantes”.
  • Apesar da grande maioria de cervejas populares vendidas no Brasil ostentarem o título “Pilsen”, elas na verdade são do tipo “American Lager”. Mesmo não sendo Pilsen ao pé da letra, ambas pertencem à mesma família, a das Lagers.
  • A Reinheitsgebot (Lei da Pureza da Cerveja, em português) é uma das regulamentações de produção de alimentos mais antigas do mundo, sendo promulgada pelo duque Guilherme IV da Baviera em 23 de Abril de 1516 e que determinava que a cerveja deveria conter apenas água, malte de cevada e lúpulo (não se sabia, à época, da influência das leveduras e o processo de fermentação era espontâneo). Mais tarde a lei foi modificada para permitir a levedura e o trigo. Mas o intuito principal da lei foi mais econômico e político do que afim de garantir a qualidade das cervejas: na época da promulgação da lei o monopólio das cervejas de trigo pertencia à casa nobre de Degenberg, rivais de Guilherme IV. A promulgação da Lei foi um golpe fatal na saúde financeira dos rivais.
  • A Reinheitsgebot foi considerada uma lei protecionista quando da formação da União Européia e por isto, hoje, ela é mais uma tradição do que uma lei realmente, já que os cervejeiros alemães hoje já podem utilizar qualquer ingrediente para produzir cervejas (e os cervejeiros Berlinenses têm sido os mais “criativos” ao desenvolverem novas receitas).
  • Santa Hildegard von Bingen, uma abadessa alemã que viveu entre 1098 e 1179, é considerada por muitos dos “cervejólogos” como a padroeira da cerveja. Pesquisadora do uso de ervas em tratamentos medicinais, inclusive do nosso amigo lúpulo, é dela a primeira citação por escrito do lúpulo na fabricação de cerveja de que se tem notícia.
  • A cerveja já foi conhecida como “Pão Líquido”, isto por três motivos principais: o processo de produção é parecido, pelo fato de utilizar, antigamente, o mesmo ingrediente que o pão (ao invés de cevada, usava-se o grão de centeio para produzir a cerveja, que também era usado no lugar do trigo para produzir o pão) e pelo fato dela alimentar.

Be happy 🙂 (and have a beer!!!!)

397 - Liverpool

Pais para a Paz – Yumbad Baguun Parral (06/2016)

Pais Para A PazEste já é o terceiro livro do Parral que eu leio (veja as outras resenhas aqui e aqui) e cada vez mais fico impressionado com sua capacidade de perceber o mundo, organizar idéias e, principalmente, colocá-las no papel. Você pode até discordar de suas posições ou teorias, mas nunca negará que elas podem fazer sentido e que são muito bem explicadas e fundamentadas.

Neste livro, que foge dos outros dois por não ser um romance filosófico, ele discorre um pouco (bastante!) sobre os motivos que levaram o ser humano, o único dos seres vivos capaz de ter consciência da sua existência, de sua perenidade e de ser capaz de modificar o meio em que vive para adaptá-lo conscientemente às suas necessidades, ao invés de usar todas estas faculdades para viver de uma forma plena, em perfeito convívio com seus pares, com outros seres e com o meio, prefere subjugar os pares, exterminando no processo os demais seres e destruindo o meio. Nota: “viver plenamente” é o nome que eu dou para “aproveitar nossa efêmera passagem neste mundo da melhor maneira possível, sem interferir negativamente na vida dos outros”.

Partindo do princípio dos conceitos Darwinianos (A Origem das Espécies é o próximo da lista!) da manutenção e evolução da espécie, de que todos os seres estão aqui para perpetuar sua espécie, transmitindo o seu gene e, no conjunto de toda espécie, melhorando sua genética para que as próximas gerações da espécie sejam melhores (mais adaptadas ao meio) do que a atual, ele faz uma análise do que poderia ter acontecido no meio do caminho que fizesse com que, apesar da clara evolução biológica, nossa evolução como individuos racionais se deu por vias tortas, através do que ele chama de “perfil degenerado”, que se multiplica através da memética (a repetição de padrões comportamentais).

Inicialmente, este perfil degenerado conseguiu se propagar através da violência (vários “machos” rejeitados pelas fêmeas se juntaram para, em conjunto, eliminarem o macho alfa e assim dividirem o “butim” do grupo entre si). Com o passar do tempo, não bastava mais à este ser ter a melhor comida e as melhores fêmeas para passar seu gene adiante e quando o homem deixou de ser nômade, ter mais posses era o “diferencial”. Nesta época a maioria dos machos já era composta deste perfil e os mais inteligentes/ardilosos sabiam que já não seria mais possível convencer os demais a atacar o “macho alfa virtuoso”, que já estava em extinção, e então começou a criar formas de subjugar os demais através de artimanhas intelectuais, sendo as religiões e as ideologias políticas as mais comuns (mas não podemos esquecer também os nacionalismos extremos, afinal de contas, “Deus” e a Pátria são responsáveis pelos maiores massacres que ocorreram ao longo da história).

Parral prega no livro que, se queremos que no futuro a humanidade consiga conviver em paz com seus pares, com os outros seres e sem esgotar os recursos do nosso planeta, alguma coisa deve ser feita agora (e já estamos atrasados, na verdade) para que mudemos este perfil. Para tanto os pais (genitores) devem ser preparados para criar melhores pais (suas proles), que criarão melhores pais, reproduzindo também memeticamente, um bom perfil de ser humano.

O problema é que as próprias instituições criadas para subjulgar o perfil degenerado lutam contra. É só ver como as religiões pregam contra a implementação de educação científica, pensamento cético, além de lutar contra meios contraceptivos, de interrupção de gestações indesejadas ou qualquer tipo de planejamento familiar.

Achei muito interessante também, aproveitando este gancho das religiões, a teoria dele que diz que o ser humano pouco se preocupa com o meio ambiente (nosso planeta, nossa casa), em muito por conta das religiões, pois, se aqui deve ser um local para expiarmos nossos pecados para que possamos, enfim, merecer um paraíso em outro mundo (outra vida), além dele ser provisório e não precisarmos nos preocupar com o planeta, ele também deve ser (ou parecer) um “inferno”.

Mas voltando ao assunto principal, em seus pensamentos, Parral diz até que é dever de uma sociedade eventualmente impedir que alguns indivíduos sejam responsáveis por criar seus filhos, já que eles não teriam condições de criarem seres melhores para que tenhamos um mundo melhor.

Para concluir, achei bem interessante o conceito de que, o sucesso de um ser humano (homem ou mulher), é ver sua prole ser melhor do que ele, tanto no sentido físico, quanto intelectual, de caráter, etc. Significa que sua missão de perpetuar e melhorar a espécie foi cumprida com êxito!

É por meio do raciocínio que avaliamos o mundo, a vida e a realidade, e tomamos decisões sobre o que fazer ou deixar de fazer para obtermos o desempenho satisfatório nessa efêmera jornada que é nossa vidinha nessa vastidão de tempo e espaço a que temos o privilégio único em toda a eternidade de perceber e conceber para desfrutar a experiência única de se saber parte de tão extraordinário fenômeno, mesmo por tão pouco tempo e em tão pouco espaço. Por mais que exploremos a dimensão do nosso planeta e experimentemos o máximo de sensações que a vida nele possibilita, será sempre uma experiência efêmera e pobre em relação ao que fica por viver – dentro e fora dos seus limites, aos quais, intuímos poder transcender, e muito nos superamos para efetivar desta perspectiva. Mesmo assim, somos retirados de cena no melhor da festa, e muitas vezes, ainda a caminho da festa…

Be happy 🙂

Botecando #83 – São Paulo Tap House – São Paulo – SP

SPTH01

Desta vez fui conhecer a atual recordista em número de torneiras em São Paulo, a São Paulo Tap House, aberta recentemente na Rua Girassol, na Vila Madalena.

No ambiente, a decoração segue a onda “clean” para as recentes casas de cervejas artesanais/especiais (como a Ideal e o Capitão Barley, por exemplo), sem muitas cores ou artefatos (quadros, esculturas) espalhados pelo local (inclusive muito poucos remetendo à cultura cervejeira). Mas é um espaço amplo e organizado, com destaque para a área de espera logo na entrada, cujos móveis são todos montados à partir de barris.

No fundo do bar ficam as 42 torneiras de onde saem 40 cervejas de produtores artesanais nacionais (as outras duas ficam de reserva para o caso de algum problema) que se conectam aos barris que são estocados na câmara fria. Logo acima da “Tap Wall” ficam 3 TVs que indicam quais cervejas estão disponíveis e em quais das torneiras (numeradas). Ponto positivo para informações “extras” além do nome e do estilo da cerveja, como IBU e Origem. Mas ainda podiam descrever quais são as bases das Saisons. Ponto também por disseminarem a cultura do Growler.

Todas as cervejas são servidas em copo Americano (150mls) ou Americanão (330mls). Fui no copo americano, que me deu a oportunidade de experimentar umas 12 cervejas diferentes. O custo (entre R$ 8 e R$ 12 reais o copo) é um pouco alto. Acho que algo entre R$ 5,00 e R$ 10,00 ficaria mais suave e permitiria um lucro justo em todos os pontos da cadeia. Talvez o fato de oferecerem água (com e sem gás) como cortesia, além de um cafezinho coado ao final, acabe compensando esta “diferença”.

Pelo ambiente “clean” eu esperava que o atendimento fosse um tanto “impessoal”, mas me surpreendi positivamente com garçons bastante atenciosos, educados  e prestativos. O atendimento foi tão bom que, junto com a variedade de cervejas, é um dos motivos que me fará voltar à casa (além dos petiscos, que acabei não provando por que havia jantado).

Onde: São Paulo Tap House (Rua Girassol, 340 – Vila Madalena – SP)
Quando: 11/03/2016
Bom: atendimento e variedade de rótulos
Ruim: nada
Site: http://www.spth.com.br/
Facebook: https://www.facebook.com/sptaphouse

Be happy! 🙂

Update: só porque eu falei que a decoração era clean ontem eles encheram as paredes de pôsteres!

Botecando #82 – Capitão Barley Cervejas Especiais – São Paulo – SP

Capitao Barley 01Como já havia falado no último Botecando, sobre o Cerveja Artesanal São Paulo, a Zona Oeste se tornou a Meca da Cerveja Artesanal / Especial em São Paulo (e do Brasil também, visto que já temos tido turismo cervejeiro nesta região). Desta vez fui conhecer o novo convés do Capitão Barley (curiosidade: Barley significa cevada, em inglês), que saiu de uma pequena garagem na Rua Cayowaá (que ainda funciona como loja diariamente e como bar em dias de jogos no Parque Antarctica) para ocupar um grande imóvel na Rua Cotoxó.

Capitão Barley 05O imóvel é um sobrado, com um pequeno “quintal” na frente, com destaque para o “muro” que separa o quintal da calçada, que é um balcão e onde as pessoas podem apoiar seus copos tanto estando do lado de fora como de dentro. Logo ao entrar, a câmara fria e as 10 torneiras disponíveis, além de alguns expositores com cervejas em garrafa. No “cômodo” seguinte, ficam algumas mesas e a cozinha, que desta vez estava sendo “pilotada” pelos ótimos Carburadores (o lanche de cupim deles é fantástico!). No fundo um Biergarten que infelizmente não foi possível utilizar por conta da chuva.

Com as dez torneiras eles conseguem oferecer uma boa variedade de estilos, a maioria de marcas nacionais. O sistema funciona assim: vai até o caixa, abre uma comanda e depois vai direto até os garçons que tiram a cerveja. Depois é pegar uma mesa e se acomodar. Se preferir, existem várias opções na geladeira.

No geral a casa tem um estilo mais “clean” e “impessoal”(como o Cerveja Artesanal São Paulo e a Ideal) e não aquela cara de boteco (como o Cesinha) que ainda não me cativaram. Mas não é um bar ruim, muito pelo contrário, só não é ainda meu estilo.

Mas ainda quero voltar para tomar umas cervejas no Biergarten para ver se o Brasileiro está aprendendo a se sentar junto em mesas coletivas e, talvez com esta “interação” a casa ganhe um diferencial.

Onde: Capitão Barley Cervejas Especiais (Rua Cotoxó, 516 – Sumaré – SP)
Quando: 03/03/2016
Bom: ambiente, decoração e cervejas on tap!
Ruim: muito lotado em dias de jogos no Parque Antáctica.
Site: http://www.capitaobarley.com.br/
Facebook: https://www.facebook.com/capitaobarley

Be happy! 🙂

 Capitão Barley 03

O Vôo dos Pombos Mancos – Luiz Sales (05/2016)

O Voo dos Pombos MancosOutro dia em um almoço um colega de trabalho comentou que o pai dele havia escrito alguns livros (com um ou dois publicados, não me lembro a quantidade), achei bem legal e perguntei qual era o nome para ver se encontrava. Alguns dias depois o Roque (meu colega de trabalho) me trouxe “O Vôo dos Pombos Mancos”, a primeira publicação de seu pai, com direito a dedicatória e tudo!

O primeiro fato interessante é que o Seu Luiz Sales criou uma forma diferente de apresentar seus textos. Primeiramente ele criou um personagem/pseudônimo que é o “autor” dos textos, Lancelot Guimarães, que além de escritor “…também era fotógrafo, pintor, escultor e um excelente chefe de cozinha”. Mesmo dentro da literatura, Lance (como é carinhosamente chamado pelos amigos)  é bastante versátil, sendo dramaturgo, romancista, poeta, cantador e rapper. Acontece que Lance desaparece durante uma reportagem fotográfica no Afeganistão e seu amigo, Luiz Antonio D’Oliveira foi o incumbido, através do testamento, de cuidar da biografia e ser o curador da obra de Lancelot Guimarães.

D’Oliveira é o outro personagem/pseudônimo do autor, e a parte interessante é que o autor acaba sendo o biógrafo e o curador de sí mesmo, e mesmo assim com uma certa “distância”, uma certa isenção, provida pelos personagens/pseudônimos.

O livro é basicamente dividido em quatro partes. Na primeira, os dois Luizes (o Antônio d’Oliveira e o Sales) dão uma introdução de como Lancelot nasceu (cada um sob seu ponto de vista: o do personagem fictício e o do autor), cresceu e viveu.

A segunda parte é uma coleção de contos e crônicas. Até por ser muito prolixo, eu admiro os autores que conseguem sintetizar uma estória, com personagens, ambientes e roteiro em poucas páginas, então contos em particular me atraem bastante. Aqui não foi diferente, foi a parte que eu mais gostei do livro. Destaques para o conto-desabafo que dá nome ao livro e ao singelo “A Mocinha Morreu no Fim”.

Eu costumo dizer que não é que eu não goste de vinho, eu não tenho paladar para poder apreciá-lo. Eu não consigo perceber as diferenças de safra, de estilo. Para mim um vinho francês e um Sangue de Boi parecem exatamente iguais. O mesmo posso dizer dos poemas: eu não tenho “paladar” para poemas. Não que eu ache ruim ou chato. Simplesmente não entendo. Não consigo captar a subjetividade por trás dos versos. Até com música acontece isto e muitas vezes me pego entendendo o que o autor quis dizer em um determinado trecho 20 anos depois de ter escutado uma música pela primeira vez (e após ter escutado umas mil vezes). Então assim como fiz com Morte e Vida Severina, eu vou dizer que eu não tenho capacidade para dizer se a terceira parte do livro, uma coleção de poemas, é boa ou ruim.

Na quarta parte, Lancelot se vale do artifício dele mesmo ter um pseudônimo (já estamos no “quarto nível” de inception?….rs) e através de Inocêncio Baluarte nos presenteia com duas pequenas obras de Cordel: a primeira é “A Incrível Saga De Um Garnisé Que Fez Uma Cidade Tremer” que traz toda aquela malícia do duplo sentido tão comum neste tipo de literatura. A segunda obra é “A Revolução Da Robótica Na Constelação Do Serrado”, que além de citar Isaac Asimov, traz uma tirada de sarro com grupos ideológicos que podem ser encontrados hoje em dia em qualquer discussão de internet.

Para fechar com chave de ouro, alguns depoimentos que normalmente vimos nas contracapas de best sellers, com editores e jornalistas elogiando a obra. Claro que todos eles também dados por uma série de personagens fictícios de revistas, jornais e institutos também fictícios.

Be happy 🙂

Negrinha – Monteiro Lobato (04/2016)

NegrinhaFinalmente lí algo de Monteiro Lobato! Sério, apesar de sempre ter lido bastante, este foi o primeiro livro do grande escritor brasileiro que eu li. E nada melhor para ser apresentado a um escritor do que um livro de contos.

Além do conto que dá título ao livro, mais 20 contos, escritos ao longo de mais de 20 anos, compõem esta coletânea. Destaques para o próprio “Negrinha”, “Bugio Moqueado” (que podemos considerar uma estória de terror!), “O Fisco” (um conto que poderia ser transportado para os dias de hoje sem muitas adaptações) e o hilário “O colocador de pronomes” (para mim o melhor do livro).

Por terem sido escritos ao longo de mais de 20 anos, o livro é uma boa fotografia do Brasil das decadas de 20 e 30 e também da evolução de Monteiro Lobato tanto como escritor, como pessoa.

Monteiro Lobato tem sido acusado nos últimos anos de ser racista. Talvez por usar frases como “um preto que valia por dois brancos”, tirada totalmente do contexto, as pessoas chegam à esta conclusão. Mas toda idéia deve ser colocada no seu momento histórico e, há quase 100 anos atrás infelizmente era um pensamento comum achar que negros (ou índios, ou ciganos, etc) eram “humanos inferiores”. Se até hoje tem gente que tem este pensamento, é complicado julgar alguém que nasceu quando ainda havia escravidão no Brasil. Pior é quando este julgamento parte de pessoas que levam à letra um livro escrito há quase dois mil anos (a bíblia).

Mas nota-se, a exemplo de Gorki, um carinho de Monteiro Lobato para com os seus personagens, especialmente os negros (o próprio conto do título é uma crítica ao tratamento dispensado aos filhos de escravos que haviam nascido após a lei do ventre livre), muito presentes nos contos desta coleção.

Be happy 🙂