Arquivo mensal: novembro 2015

A Fúria de Maigret – Georges Simenon (23/2015)

AFuriaDeMagretAinda este ano lí pela primeira vez uma das estórias de Sherlock Holmes e agora li pela primeira um dos vários livros de Simenon com o Comissário Maigret como personagem principal e não dá para não fazer relações entre um personagem e outro.

Maigret é um comissário da Polícia Judiciária de Paris e é responsável por investigar casos de assassinato. Ou seja, ambas as séries são sobre crimes e as pessoas que buscam desvendar estes crimes, mas apesar do estilo ser o mesmo (estórias policiais / de detetive) os personagens são bem diferentes. Enquanto Holmes, afim de desvendar um mistério, se concentra nas evidências físicas e em ciências exatas para encontrar o criminoso, Maigret se preocupa mais em entender o comportamento e psique dos envolvidos (vítima e suspeitos) e a motivação do crime, a ponto dele se irritar ou se sentir angustiado quando se encontra em um beco sem saída.

Em “A Fúria de Maigret”, o comissário se vê envolvido em um caso de assassinato de um proprietário de vários cabarés de Paris. Apesar do negócio da vítima estar em uma área onde existe muita criminalidade, a vítima em sí mantinha uma conduta pessoal e profissional ilibada.

E é neste beco sem saída que Maigret se encontra: sem suspeitos, sem motivo, com o corpo da vítima aparecendo apenas depois de dois dias do sumiço e ainda com a vítima sendo morta de uma maneira incomum (por estrangulamento). E neste cenário além de ter que contar com sua intuição, ainda tem uma ajuda da sorte.

O estilo de escrita de Simenon é bem dinâmico e daqueles que preendem o leitor (li as 132 páginas em 3 dias!). Gostei. Tanto o Sir Arthur Conan Doyle quanto Georges Simenon têm despertado em mim a vontade de ler mais livros de um estilo que até agora não tinha me atraído (desconsiderando os livros de mistério/crime do Marcos Rey na coleção Vagalume).

Be happy 🙂

Ateu, graças a Deus!

HomerXDarwinEu devolvo troco errado, não furo fila, pago meus impostos corretamente, não estaciono em vaga de deficiente/idoso, obedeço as leis do meu país, inclusive aquelas com as quais eu não concordo e até multa de trânsito eu tomo pouquíssimas (a maioria por desatenção), portanto me considero uma pessoa honesta. Eu trato a todos, independente de etnia, credo, nacionalidade, orientação sexual, idade, etc com dignidade e respeito, portanto me considero uma pessoa de bem. Na medida do possível eu contribuo com causas sociais, seja financeiramente, seja com tempo (trabalho voluntário), então me considero uma pessoa caridosa e altruísta. Eu vivo o que eu chamo de “vida plena”: fazer a maioria das coisas que me dão prazer sem prejudicar outras pessoas; então dentro do meu conceito eu sou uma pessoa feliz. E sou ateu!

Com o crescimento da internet e principalmente das redes sociais, com seus grupos, comunidades, vlogs, blogs e espaço para exposição e discussão de idéias e conceitos, aparentemente existe um crescimento anormal no número de ateus, o que leva alguns teístas a apelidar isto de “modinha do ateísmo” e designar os descrentes pejorativamente como “neo ateus”.

Primeiro é importante lembrar que sim, a tendência mundial é de cada vez mais existirem ateus, especialmente nos países onde há liberdade religiosa e de expressão, um estado realmente laico e um bom nível educacional e científico. Aqui vai o primeiro parêntese: existe sim uma relação muito forte entre nível educacional e nível de ateísmo quando países são comparados, porém não existe uma causalidade direta, ou seja, não quer dizer que os mais inteligentes/educados sejam ateus ou que os ateus sejam mais inteligentes. O que existe é que em países com nível educacional alto e liberdade de expressão as pessoas tendem a questionar mais qualquer ideologia, valor ou dogma, e isto acaba invariavelmente por levar a um número maior de descrentes.

Mas não se trata de moda. Simplesmente hoje existe uma “rede de segurança virtual” que permite que mais pessoas se declarem ateus, sendo que em um passado recente estas pessoas temeriam se posicionar como um não crente sob pena de julgamento e isolamento por parte dos seus convíveres e  preferiam não se manifestar ou até mesmo se declararem agnósticos (era o meu caso). O mesmo acontece com outras “minorias” que fogem de padrões definidos pela sociedade.

Acontece que isto tem irritado os teístas em geral, que acham que moral e ética está relacionada e é totalmente dependente da fé e ai surgem perguntas como “Você é ateu? Mas você é uma boa pessoa!” ou “Como você pode ser caridoso sem acreditar num prêmio/punição divina?”.  Sinto informar que até o altruísmo é uma ferramenta biológica de preservação da espécie. Este artigo sobre um cientista americano chamado George Price explica um pouco como acontece (e a história pessoal de Price é muito interessante também).

A irritação dos “mercadores da fé” com os ateus é até compreensível: você consegue fazer com que um usuário de um produto adote um similar de outra marca, mas dificilmente vai convencer alguém a utilizar um produto que não é de sua necessidade ou desejo. Então, do ponto de vista mercadológico (que é o que importa aos Malafaias, R.R. Soares, Felicianos e Macedos da vida) realmente o crescimento do ateísmo é uma ameaça, pois fazer alguém que já é crente trocar uma denominação e até mesmo uma religião por outra é bem mais simples do que fazer alguém que não cre passe a ter fé em algo.

O que eu não entendo é a ira dos simples praticantes das religiões (e mesmo dos não praticantes) para com os ateus. Salvo raras exceções, para nós ateus, desde que a crença dos outros não venha interferir na vida privada de cada um (imposição de dogmas de determinada religião para toda uma sociedade) pouco importa no que as outras pessoas acreditam. Eu particularmente volto ao meu conceito de vida plena: se faz bem para você e não faz mal a ninguém, ótimo! Fico feliz por você!

Ao contrário de boa parte dos religiosos, um ateu dificilmente vai tentar “desconverter” alguém, até porque entendemos que é questão de foro intimo crer ou não em algo. E aqui vem meu segundo parêntese: neste ponto eu admiro os Batistas, que ao contrário de outras denominações protestantes, não ficam batendo de porta em porta, ou então abordando pessoas na rua, afim de convertê-las. Eles apenas dão bom testemunho através de suas ações e ao mostrar que sua fé faz bem para eles. E para mim é assim que deveria ser.

Talvez o que boa parte dos teístas não conseguem admitir/entender é que alguém pode ser honesto, ético, de bem, ter moral e ser feliz, sem a necessidade de crer em uma entidade divina e/ou num paraíso ou danação eterna. Mas de certa forma eu até entendo esta frustração. Imagino que seja uma mistura de inveja (por eles não conseguirem o mesmo sem ter esta “muleta”), misturada com algumas doses de “será que me enganaram durante todo este tempo?” e algumas pitadas de “será que eu gastei tempo demais da minha vida seguindo algo que não é necessário para atingir um objetivo?”.

Be happy! 🙂

RunJack

Barba Ensopada de Sangue – Daniel Galera (22/2015)

BarbaEnsopadaDeSangueApós o suicídio do pai, um professor de educação física e ex-atleta semi profissional gaúcho resolve se mudar para Garopaba, no litoral catarinense, com o intuito de se isolar dos acontecimentos recentes (o suicídio do pai e a recente separação da sua mulher, que o “trocou” pelo irmão) e também para tentar descobrir o que houve com seu avô que, de acordo com o que o pai havia lhe revelado um pouco antes da morte, foi assassinado na cidade na década de 60.

Além de enfrentar a resistência dos moradores locais a um “estranho” (e que ainda por cima resolve fazer perguntas que a cidade quer esquecer) ele ainda enfrenta um rara condição neurológica que o impede de memorizar rostos, inclusive o próprio, o que o torna ainda mais um “estranho no ninho”. Munido apenas de um video game, um álbum de fotografias (que o ajuda a recontar sua história), algumas roupas e na companhia da cachorra Beta, “herdada” do pai, ele se instala na cidade para buscar a verdade à respeito da morte do avô, mas acima de tudo, para buscar a sí mesmo.

O livro foi presente de aniversário de uma amiga e confesso que não conhecia o autor, que pelo que andei lendo, é uma “jovem promessa” dentro da literatura  brasileira (este é o quarto livro dele). O que eu mais gostei no livro é a qualidade da narrativa, especialmente quando o autor se propõe a descrever fisicamente os personagens, já que como o protagonista não memoriza rostos, ele precisa se atentar a outros detalhes para reconhecer as pessoas, como o tipo e tamanho de cabelo, as proporções do corpo, alguma marca ou mesmo o modo de falar. A narração das sensações do protagonista (como por exemplo quando nada no mar) também são impressionantes e, para quem como eu, monta aquele filme na cabeça enquanto lê o livro, é um prato cheio.

Um outro ponto que me chamou a atenção no livro é a personalidade do protagonista: ele é um cara não muito afeito a seguir um “padrão” de vida considerado normal pela sociedade (consumo, casamento, carreira, etc) e, apesar de ser cético, entende que o que aconteceu tinha que acontecer, melhor não se lamentar e tocar a vida adiante, guardando na memória o que foi bom (sem ficar buscando ou forçando uma situação de repetição) e apenas ignorando o que foi ruim.

É uma leitura simples e um ótimo entretenimento, sem grandes pretensões “literárias” (ou arrogância literária!), o que é ótimo, pois o intuito maior de um livro é este: entreter. E nisto o livro cumpre bem seu papel.

Be happy 🙂

Este Barco Também É Seu – D. Michael Abrashoff (21/2015)

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Eu não sou muito fã de livros de auto ajuda, tanto comportamental quanto empresarial. Acho muita pretensão de alguém querer sugerir algo para outra pessoa ou empresa. Como diria o Raul Seixas, “cada um de nós é um universo”, e o que funciona para um dificilmente funcionará para outro (pessoa, negócio, entidade, etc). Quando se fala em negócios então, acho ainda mais complexo. Por isto inicialmente torci o nariz quando fui convidado para um treinamento sobre “liderança servidora” baseado em um livro do estilo.

Felizmente depois de ler o capítulo que me era designado para o treinamento acabei criando o interesse de ler o livro todo, justamente porque raramente o autor, o Capitão da Marinha Americana D. Michael Abrashoff, diz o que se deve ou não fazer.

O livro é na verdade um compilado das experiências de implementação de uma gestão moderna em um ambiente altamente dominado por conceitos e tradições antigas, promovidas pelo Capitão Abrashoff quando este foi responsável, durante 20 meses, pelo comando do USS Benfold, um dos navios de guerra da frota americana no Pacífico.

É claro que ele destaca as experiências positivas, deixando os erros em segundo plano (ou eventualmente omitindo estes erros), mas a leitura vale a pena, tanto pelas experiências quanto por entender o propósito e o funcionamento de um navio de guerra.

A maioria dos capítulos do livro resumem os conselhos de Abrashoff, que são sempre repletos de exemplos. Estes capítulos são:

  • Assuma o Comando
  • Lidere pelo Exemplo
  • Ouça com o Máximo de Atenção
  • Comunique o Objetivo e o Sentido
  • Crie um Clima de Confiança
  • Busque Resultados, Não Elogios
  • Assuma Riscos Calculados
  • Vá Além do Procedimento Padrão
  • Estimule a União
  • Melhore a Qualidade de Vida do Seu Pessoal

Nos demais capítulos ele faz uma introdução contando sua história de vida e profissional e ao final um pouco do que ocorreu com ele após deixar o USS Benfold. Leitura bem interessante.

Be happy 🙂