Arquivo mensal: junho 2015

Duna – Frank Herbert (14/2015)

DunaNunca fui muito fã de livros de estórias fantásticas ou de ficção científica. Não lí e nem ví o Senhor dos Anéis, não me ligo muito em Star Wars ou Jornada nas Estrelas e ainda não senti nenhuma vontade de tentar Game of Thrones. Assisti Matrix mais pelo thriller do que pela ficção (tanto que nem vi o terceiro) e sou fãzaço do “Guia do Mochileiro das Galáxias” porque acho que a obra vai além da ficção ou fantasia e porque o Douglas Adams era um gênio.

Mas outro dia estava assistindo um desses vlogs que fazem listas, que no caso era de best sellers que viraram filmes merdas, e me interessei pelo mote de Duna, a obra prima de Frank Herbert, lançada em 1965. Muito premiado, é considerado o livro de ficção científica mais vendido de todos os tempos e gerou todo um universo de publicações ligadas à ele.

Para se ter uma idéia da importância e influência, o Iron Maiden compôs uma música usando a história do livro. To Tame a Land faz parte do álbum Piece of Mind, de 1983. O Blind Guardian também utilizou a temática do livro em Traveler in Time.

O livro conta a transformação do jovem Paul Atreides, o herdeiro da casa Artreides, no lider máximo de Arakis, o planeta deserto conhecido como Duna. O planeta praticamente inóspito é a única fonte no universo da especiaria melange, que apesar de viciar seus consumidores, estimula neles um aumento da capacidade dos sentidos e das percepções a ponto de, dependendo da quantidade e da forma consumidas, permitir às pessoas a capacidade de enxergar as várias possibilidades de futuro possíveis, de acordo com as ações tomadas no presente. Ou seja, um expansor das capacidades da mente.

Não existe uma referência exata de data, já que além de criar todo um universo, uma história para este universo e diversas culturas e religiões, o autor criou um calendário próprio, mas levando-se em conta as “pistas” dadas no livro, podemos calcular que ela se passaria em cerca 12500 D.C. considerando nosso calendário.

No universo criado por Frank Herbert, após uma revolta dos seres humanos contra as máquinas que haviam controlado o planeta terra, a humanidade, já com tecnologia avançada, coloniza os cantos mais distantes do universo. Como uma das leis após a revolta é nunca construir uma máquina que seja melhor que o ser humano, diferentemente de outras ficções, em Duna as máquinas são meros coadjuvantes ou acessórios de cena e o texto foca mais nas relações humanas e orgânicas.

Outro ponto interessante é que à exceção de alterações genéticas e fenótipas ocorridas por conta do planeta em que cada “tribo” humana se instalou (já que mais de 10 mil anos se passaram desde o início da ocupação humana do espaço), não existem seres com aparência muito diferente da dos humanos. As diferenças ocorreram apenas por conta de adaptações ao ambiente e devido às dietas alimentares.

Não existem vários idiomas nativos, já que provavelmente a colonização ocorreu à partir de apenas um povo da terra, porém, com o intuito de se comunicar sem os outros entenderem, os povos desenvolveram linguagens próprias, num processo inverso do que ocorre hoje em dia.

O mais interessante do livro é como as estruturas de poder são organizadas. Elas são uma mistura, em partes muito proporcionais, de política, religião e negócios. O objetivo maior do Império (que reune todas as casas reais), da Guilda (megacorporação que detém o monopólio do transporte espacial) e das Bene Gesserit (uma espécie de ordem religiosa formada apenas por mulheres) é apenas o lucro e tudo pelo lucro.

Neste processo não importam as pessoas, não importam os planetas. Um planeta pode ser explorado até a exaustão, mesmo que isto signifique a extinção do povo que habita aquele planeta. Guerras, conspirações e assassinatos são aceitos e até “regulados” pelo tripé dominante (Imperio com as casa reais, Guilda e Bene Gesserit). Quando não incentivados.

É um baita de um livro e que te faz pensar como a filosofia, as religiões, as estruturas de poder e as corporações se desenvolvem. O ruim foi apenas chegar ao final do livro e achar que este universo tão pouco “humano”, apesar de habitado por seres humanos, não deve demorar os 10500 anos da estória para chegar. Basta ver como as religiões e as grandes corporações se relacionam com as estruturas de poder, especialmente no Brasil.

Be happy! 🙂

Botecando #61 – BH Lanches – São Paulo – SP

BH Lanches 02O BH Lanches é a salvação de muita gente que resolve fazer uma refeição com sustância na madrugada, depois de uma balada. Ou mesmo para tomar a saideira, já que funciona 24 horas.

Situado ali nas esquinas da Augusta com a Luis Coelho, é uma lanchonete pequena e simples, mas que oferece um dos melhores sanduíches de pernil da cidade, além de outras opções que se podem chamar de verdade de “comida de boteco”: coxinhas e outros salgados, petiscos diversos e legítimos e volumosos PFs.

Do que eu já provei, a coxinha é boa, mas não chega a ser uma das melhores que comi e os pedaços de “pizza de estufa” também são bons. O destaque mesmo fica por conta do generoso sanduíche de pernil, que na minha opnião não perde em nada para o do Estadão. E ainda ganha no quesito “tamanho”: você precisa estar realmente com muita fome para conseguir devorá-lo todo.

No quesito bebes, além das cervejas tradicionais (Skol, Original, Brahma), eles oferecem long necks de Heineken e Stella e ultimamente também têm oferecido Paulistânia e Erdinger, para quem gosta de algumas cervejas diferentes.

O atendimento é o típico de boteco, com garçons bastante simpáticos e prestativos. Como nas vezes em que eu fui a intenção foi comer e tomar umas 2 antes das baladas, não fiz o teste da saideira, que diz muito sobre o boteco.

Talvez o único problema para algumas pessoas seja o fato de, por parte das mesas estarem na rua, você ser abordado por vendedores ambulantes e pedintes quando ficar nestas mesas (eu prefiro porque fica mais fácil para fumar). Mas como acho que as pessoas do local também fazem parte do pacote, eu não me incomodo e muitas vezes até me divirto.

Onde: Bh Lanches (Rua Augusta, 1533 – São Paulo – SP)
Quando:26/06/2015
Bom: lanches e salgados.
Ruim: nada.
Site: http://bhlanches.com.br/

Be happy! 🙂

BH Lanches 01

Botecando #60 – Bar de Cima – São Paulo – SP

Bar de Cima 01Não adianta! Por mais que a gente tente fazer diferente nós acabamos usando conceitos que temos para julgar as coisas. É o famoso “pré-conceito”. Quando um amigo convidou para a comemoração do aniversário dele em um bar na Oscar Freire eu já pensei: “PQP!! Deve ser daqueles bares enjoados, caros e cheio de mauricinhos e patricinhas!”.

Quando eu vi no site que o bar fazia parte de um grupo “Chez” ai eu quase desisti de ir mesmo. Chez, Bistrô e Gourmet são palavras com as quais eu tenho preconceito realmente, um do qual não me ervengonho, já que de uns cinco anos para cá alguma destas palavras no nome de uma casa significa “vou pagar caro por algo que talvez nem goste, mas que está na moda e eu preciso compartilhar no Instagram e falar para os meus amigos que frequento”.

Resolvi ir de qualquer forma por causa da amizade. E não é que gostei! E não foi nem por conta da baixa expectativa criada, o que faria que qualquer coisa que viesse fosse lucro.

O Bar de Cima fica localizado no 3º e 4º andares de um imóvel que também é ocupado pelo restaurante Chez Oscar. Externamente o imóvel já se destaca por parecer um “container” de aço inox e vidro. Internamente a decoração sem muitas frescuras também agrada.

Bar de Cima 02O serviço é de boa qualidade, com garçons que, apesar de impessoais (não adianta, eu prefiro um boteco como o BDL, o Cesinha ou a Dona Diva, com garçons “amigos”), são bastante educados e solícitos. A rapidez no atendimento também é destaque.

Não cheguei a comer nada, mas no quesito bebida, apesar da pouca variedade de opções, ao menos elas não são concentradas em american lagers e o bar oferece ao menos mais duas opções (belgas) para quem quer tomar alguma coisa diferente. E a preços normais para uma balada, já que R$ 11,00 por uma Stella, ou R$ 19,00 para uma Leffe não está muito fora do que os bares estão cobrando ultimamente.

Mesmo o público, que eu achei que seria composto de mauricinhos e patricinhas afim de “desfilar” não era exatamente o que eu esperava e, apesar da casa atrair sim um público mais elitizado, me pareceram mais “nerds, geeks e hispsters” do que a “galera ostentação”.

O único ponto “negativo”, se bem que na verdade achei foi engraçado, foi o DJ fazendo “micagens” nas pick-ups, apesar de aparentemente a programação das músicas já ter sido feita previamente no seu Mac. Mas nem isto foi ruim, já que mesmo o eletrônico não sendo meu estilo preferido, as músicas eram agradáveis. Só foi engraçado mesmo.

[Update] Uma outra coisa que eu achei legal no bar é que só entra com o nome na lista, o que pode ser feito pelo site deles. Parece que é elitização, mas na verdade acaba sendo um conforto, porque assim não se forma fila na porta e eles conseguem estimar e limitar a quantidade de pessoas que irão comparecer, evitando superlotação e filas.

Não é o bar em que eu “bateria cartão” ou iria ir espontâneamente, simplesmente porque não faz meu estilo, mas não hesitaria em ir novamente caso fosse convidado.

Onde: Bar de Cima (Rua Oscar Freire, 1128 – São Paulo – SP)
Quando:19/06/2015
Bom: arquitetura.
Ruim: não tem nada que se destaque negativamente.
Site: http://bardecima.com.br/

Be happy! 🙂

Mussum Forevis – Samba, mé e Trapalhões – Juliano Barreto (13/2015)

Mussum ForevisPara quem até pouco tempo atrás não tinha lido uma biografia sequer, até que estou tirando o atraso nos últimos meses. Estou criando o hábito de ler alguma logo depois de uma leitura mais densa. Biografias geralmente são mais fluidas e com um ar mais leve e serve para dar uma “descansada”. Então resolvi ler a do Mussum logo após ter lido O Capital no Século XXI, do Thomas Piketty.

Como o próprio autor cita na contracapa do livro, praticamente todo brasileiro conhece e se divertiu com o Mussum, mesmo os mais novos que acabaram tendo acesso aos vídeos antigos dos Trapalhões através do Youtube. Porém, pouca gente conhece a história do Antônio Carlos Bernardes Gomes, o artista por trás do personagem. Se bem que o personagem tinha muito do artista.

Eu já conhecia um pouco da história do sambista Antônio Carlos, ou Carlinhos do reco-reco, por gostar de samba e pelo fato de “Os Originais do Samba” terem sido no final da década de 60 e durante a década de 70 um dos principais conjuntos atuantes no país e no exterior, conhecendo inclusive algumas de suas aventuras por terras estrangeiras (mais precisamente durante uma temporada no México), porém o autor, Juliano Barreto, conseguiu ir a fundo na história do grupo, pesquisando muitas outras obras que cobriram os artistas contemporâneos d’Os Originais, além de entrevistas com familiares, amigos e com Bigode, o único integrante ainda vivo da formação original do grupo.

Mas além disto, o livro entra em detalhes da vida pessoal de Mussum, inclusive em detalhes que talvez alguns familiares de artistas ficariam receosos em liberar numa biografia, como os casos de infidelidade. Ponto para o autor que não hesitou em entrar neste tema e o fez sem querer criar “polêmicas”, apenas retratando fatos ocorridos, e ponto para a família que inclusive colaborou com os relatos.

Talvez a parte que seja mais interessante para quem é fã dos Trapalhões (eu sempre fui dos filmes, mas tive pouco acesso aos programas de TV quando eles estavam no ar) são as histórias por trás da produção do programa de TV e dos filmes, que não eram tão “engraçadas” quanto o resultado das produções em sí.

Além de tudo isto, como toda biografia, este livro também é interessante para mostrar um pouco do Zeitgeist, isto é, do espírito do tempo das décadas de 60, 70 e 80 no Brasil.

Be happy! 🙂

Wanderlust #24 – Belém, Pará, Brasil

01 Belém - Brasil - Ver-o-pesoPara a segunda parte das minhas férias deste ano já havia decidido conhecer um pouco mais do Brasil e também havia resolvido conhecer locais que não vêm logo à cabeça quando se pensa em viajar pelo nosso imenso país. E a primeira parada desta trip foi Belém, a capital do Pará. Vale dizer que assim como Salvador, a cidade me despertou sentimentos dúbios.

Eu achei legal conhecer um lugar dentro do meu próprio país que é muito diferente de tudo o que eu já conhecia. Mas por outro lado, fiquei um pouco triste ao ver como muitos lugares do nosso país são mal cuidados e principalmente como o potencial (turístico, por exemplo) e os recursos (naturais, humanos, etc) são mal explorados.

Praça Batista Campos

Praça Batista Campos

Cheguei na cidade já tarde da noite e fui dormir cedo para aproveitar o outro dia, que era feriado de Corpus Christi. Sai caminhando pela cidade afim de conhecer um pouco. Passei pela Praça da República, que apesar de ser o local onde fica o Teatro da Paz, não apresenta muitos atrativos turísticos. Resolvi andar até Praça Batista Campos, esta sim uma bela praça, e cruzei com uma sorveteria Cairu. Aproveitei então para experimentar um dos vários sorvetes feitos com frutas da região. A Cairu é parada obrigatória em Belém. Sugiro parar mais de uma vez, tanto para aplacar o calor da cidade, quanto para ter a oportunidade de experimentar mais dos diferentes sabores oferecidos.

Depois caminhei por uma região não muito turística até o Portal da Amazônia, que é um calçadão construído em uma das margens do Rio Guamá. Este calçadão conta com infraestrutura para prática esportiva (bike, patins, caminhada, etc) e algumas praças. Depois segui até o Mangal das Garças que, junto com a Estação das Docas, é a principal atração da cidade.

Mangal das Garças

Mangal das Garças vista da torre

O parque é muito bem cuidado e montado e lá pode-se ter contato com um pouco da fauna e da flora da região. A entrada no parque é gratuita, mas algumas atrações são cobradas. Vale comprar o “passaporte” (R$ 15,00) que dá acesso às 4 atrações pagas do parque: a torre, o museu náutico, o viveiro de pássaros e o santuário de borboletas.

Após o Mangal, dei uma passada na Casa das Onze Janelas, mas preferi não entrar, e na sequência fui ao Forte do Castelo, que não tem lá muita coisa. Mas estando em Belém não custa perder uns 10 minutos e visitar, já que é de graça. Depois passei em frente à Catedral Metropolitana para tirar algumas fotos da bela praça em frente (não sou fã de ficar entrando em igrejas).

Catedral Metropolitana

Catedral Metropolitana

Dei uma rápida passada no ver-o-peso (tinha me programado para explorar o local apenas no outro dia) e fui até a Estação das Docas, onde resolvi almoçar em um dos restaurantes que ofereciam buffet com opções da região. Dos pratos que eu experimentei, achei interessante o tal do “filhote”, uma posta de um peixe da região (e olha que não sou chegado em peixe) feito com tucupi. Mas achei muito bom mesmo a maniçoba! Durante o almoço, um cara do outro lado do restaurante acenou e veio em minha direção. Quando ele chegou perto, pediu desculpas e disse que tinha me confundido com outra pessoa, no caso Felix Robatto, um artista local.

Como sobremesa, outro sorvete na unidade da Cairu da Estação das Docas. Como já tinha feito a programação do dia, fiquei morgando por ali até a abertura da Amazon Beer, que além de oferecer ótimas cervejas (a preços mais do que justos!), proporciona um belo visual do por do sol. Aproveitei para procurar algo para fazer à noite e acabei caindo no site do Templários Pub, que teria como atração naquela quinta-feira justamente o tal do Félix Robatto.

Chuva de 20 minutos com tanta água que daria para encher a Cantareira

E dá-lhe chuva!

Como não podia faltar, quando estava saindo da Estação das Docas caiu aquela baita tempestade que cessou depois de 20 minutos mas trouxe água suficiente para encher a Cantareira.

À noite fui ao tal pub para conhecer um pouco da noite Paraense. Achei interessante a mistura de ritmos dos estilos locais (tecno brega, guitarrada, carimbó). Creio que pelo fato do Pará estar bem próximo à linha do Equador, além das influências da música afro brasileira (axé, samba), os estilos locais também têm muita influência das músicas afro caribenhas, especialmente do mambo, da salsa e do reggae.

No outro dia, como já tinha me programado, fui conhecer o ver-o-peso. É interessante pelos cheiros e cores das diferentes frutas da região, e para observar alguns costumes dos locais, como por exemplo, de comer açaí com farinha como acompanhamento de peixe. Mas acabei achando que os relatos que eu havia lido e ouvido sobre o local eram sempre superestimados. Talvez para pessoas que sejam fascinadas por culinária seja uma atração mais interessante.

Ver-o-peso

Ver-o-peso

Como já tinha feito tudo o que eu tinha programado, fui andar por lugares não tão turísticos e acabei caindo na Belém da elite, que fica fora da cidade velha é formada por vários prédios de luxos e um grande shopping. Particularmente eu não gosto muito de cidades onde existe este tipo de segregação entre elite e o resto.

Depois voltei novamente para mais um happy hour na Amazon Beer, mas de leve, pois tive que pegar meu vôo na madrugada para o próximo destino, São Luís, no Maranhão, do qual falarei no próximo Wanderlust.

Observações, dicas e considerações:

  • Os motoristas em Belém são xaropes. Raramente respeitam farol, faixa de pedestre, mão de direção. E à noite ainda andam à 100 km/h.
  • Tem um negócio que me incomoda muito e acontece na maioria das cidades brasileiras, que é abandonarem uma área quando ela dá uma deteriorada, ao invés de tentarem recuperar. Isto acontece com a região do ver-o-peso. Apesar da criação da Estação das Docas numa tentativa de revitalizar a região portuária, o entorno está abandonado, o que abre espaço para a criminalidade. Quando a sociedade e o poder público não ocupam devidamente os espaços públicos, invariavelmente a criminalidade vai ocupar.
  • A variedade que se encontra na culinária local falta ao artesanato. Mesmo nas tendinhas do ver-o-peso foi difícil encontrar alguma coisa realmente “local” para trazer de souvenir.

Be happy! 🙂

Estação das Docas

Estação das Docas

Amazon Beer

Amazon Beer

O Capital no Século XXI – Thomas Piketty (12/2015)

O Capital no Seculo XXIAssim como aconteceu com O Capital, do Karl Marx, também demorei dois meses para ler este livro. Apesar de ser tão complexo quanto o do Marx, O Capital do Piketty tem uma leitura mais fluída e mais “amigável”, muito mais com um ar de tese de doutorado (que na verdade foi o ponto de partida do livro) do que de “bíblia”, como o Capital do Marx.

Neste livro Piketty analisa a evolução do capital ao longo dos últimos três séculos para a Inglaterra e a França, e para alguns outros países (EUA, Alemanha, Japão e os países nórdicos) para os períodos onde existem informações disponíveis. Ele faz um alerta aos leitores que desejarem comparar com trabalhos prévios de outros autores (como o próprio Marx) de que ele teve, além de um histórico maior de dados com os quais trabalhar, a ajuda de computadores para compilar as informações, coisa que seus predecessores não tiveram, portanto as falhas em trabalhos anteriores seriam mais passíveis de acontecer. Mesmo assim ele não deixa de “espetar” Marx, que tendeu a selecionar casos que reafirmassem sua “crença”.

Uma das primeiras conclusões a que ele chega é que o fator que mais motiva a geração de riqueza de uma sociedade, a divisão desta riqueza de forma mais igualitária entre os membros desta sociedade e mesmo a redução das diferenças entre os países é “…a difusão do conhecimento e a disseminação de educação de qualidade”.

Porém, ao analisar a evolução e concentração do capital ao longo do tempo, nota-se que invariavelmente a tendência é de que poucas pessoas sejam detentores deste capital, ou seja, a tendência é sempre a de concentração e aumento das diferenças. A tendência foi quebrada na primeira metade do século XX por conta das duas grandes guerras e do esforço de organização pós guerra, mas os dados indicam que nas duas últimas décadas do século passado a tendência de concentração voltou a aparecer.

Para reduzir as diferenças, Piketty alega serem necessários impostos progressivos sobre a riqueza e a herança que sejam mais pesados do que atualmente e que a cobrança destes impostos fosse mais efetiva. O ideal seria um imposto mundial, que ele mesmo admite ser uma utopia, mas que trocas de informações fiscais entre os países, para evitar evasão, poderia ser um ponto de partida para que estes impostos fossem cobrados, independente de onde os recursos estivessem.

Uma crítica importante que ele faz no livro é sobre a lógica dos Estados de, ao invés de cobrarem maiores impostos quando há a necessidade de mais recursos, simplesmente tomarem emprestado (através de títulos de dívida pública com pagamento de juros) destas mesmas pessoas que seriam as que provavelmente deveriam pagar mais impostos, por terem mais recursos. E são estas pessoas que geralmente influenciam na política dos países para que seja feito desta forma, ou seja, é o capital gerando mais capital e aumentando as diferenças. Além disto, esta elite geralmente consegue manipular a opnião pública para ser contra qualquer imposto que venha a lhes “prejudicar”, mesmo que a sociedade como um todo saia ganhando.

Mas talvez a principal dica que o livro dê é que todas as pessoas deveriam procurar entender os mecanismos de acumulação de capital, de renda, etc, pois as pessoas que estão no topo da pirâmide certamente conhecem e utilizam justamente o desconhecimento dos demais em seu favor (como no caso impostos X empréstimos tomados por Estados). E neste ponto, o próprio livro do Piketty deveria ser de leitura e discussão obrigatórios nos bancos escolares.

Botecando #59 – Empório Sagarana – São Paulo – SP

Sagarana 03Eu já havia ido ao Sagarana umas duas ou três vezes antes de iniciar este blog e as primeiras impressões que eu tive sempre foram muito boas.

O bar fica localizado num imóvel de esquina bem no meio da Vila Romana, com fácil acesso à estação Vila Madalena do metrô (dá menos de 30 minutos andando, ou 5 de táxi). O local é dividido em 2 ambientes com paredes forradas de prateleiras exibindo garrafas de cervejas de todas as origens e tipos, garrafas de cachaça e vidros de compotas e doces.

Como a temática do bar é mineira, os petiscos baseados na culinária desta região dominam o cardápio, com destaque para o lanche de pernil no pão de queijo, que na minha opnião, junto com porção de torresmo e coxinhas (não as porções, aquelas em tamanho padrão, e sem catupiry, por favor), deviam ser presenças obrigatórias em qualquer boteco.

Entre as cervejas oferecidas, várias brasileiras, o que sempre me agrada muito. Os garçons são bem educados e conhecem bem sobre o assunto (cervejas especiais), podendo ser consultados quando o cliente ou não tem conhecimento ou está em dúvida sobre o que pedir.

No Sagarana é tudo certinho: carta de bebidas, porções, atendimento, localização, decoração, etc. E talvez este seja o único problema do Sagarana: é tudo muito certinho, tudo muito “pasteurizado”, a ponto de não ter personalidade. Até os clientes são do tipo “nem fede nem cheira”. Falta uma atendimento diferenciado (como no BDL ou no Cesinha). Ou uma carta fenomenal (como no Frangó). Ou garçons “amigos” (como no Ó e na Diva).

Como o local é relativamente novo, creio que com o tempo esta “personalidade” irá se desenvolver. E com certeza acompanharei este desenvolvimento…hehehe

Onde: Empório Sagarana (Rua Marco Aurélio, 883 – São Paulo – SP)
Quando:29/05/2015
Bom: carta de cervejas e lanche de pernil no pão de queijo.
Ruim: falta personalidade.
Site: http://www.emporiosagarana.com.br/
Facebook: https://www.facebook.com/emporiosagarana

Be happy! 🙂

Devia ter uma lei obrigando todos os botecos a oferecerem este petisco, além de porções de torresmo.

Devia ter uma lei obrigando todos os botecos a oferecerem este petisco, além de porções de torresmo.

Wanderlust #23 – Cidade do Panamá, Panamá (Ah! Vá!)

Panamá 001Por ter voado bastante de Copa Airlines, cujo hub fica na cidade do Panamá, eu já tenho umas boas horas de estada esperando conexão na cidade, mas nunca tinha pensado em conhecê-la. Resolvi aproveitar a viagem para Cuba e mais uma conexão no país centroamericano para pelo menos passar dois dias na cidade.

Confesso que a primeira impressão que tive não foi boa: a cidade era uma mini Miami (e eu não gostei de Miami), sem a organização norte americana, substituida pela bagunça latino americana. Mas bastou meio dia na cidade para eu mudar meu ponto de vista a ponto de considerar este pequeno, mas aconchegante país, uma ótima opção para viver. Mas antes de contar um pouco do que eu fiz por lá, vou falar um pouco da história.

Panamá 002A História
O istmo do Panamá foi uma das primeiras terras americanas descobertas e exploradas pelos espanhóis. Também foi através do Panamá que a Espanha conseguiu alcançar pela primeira vez o Oceano Pacífico. Além de explorarem o ouro no país, todo o resultado da exploração da parte oeste do continente sulamericano também passava pelo Panamá, já que a parte leste pertencia à Portugal. Talvez venha já daí a expressão “hub das Américas”, título pelo qual o aeroporto de Tocumén, na Cidade do Panamá, é conhecido.

No início do século XIX os movimentos de independência que ecoavam por todo o continente americano chegaram ao país e em 1821 a independência foi proclamada. Alguns meses mais tarde o Panamá integrou-se à Grande Colômbia de Simón Bolivar, se juntando à Venezula, Colômbia e Equador. Em 1840 houve uma independência de apenas 13 meses e em seguida o país foi incorporado à Colômbia.

Panamá 003Em 1846 o governo Colombiano costurou um acordo com os Estados Unidos para a construção da ferrovia interoceânica, que foi inaugurada em 1855, se tornando uma das maiores fontes de divisas do governo colombiano (e até hoje, junto com o Canal, do governo panamenho).  Os colombianos cresceram os olhos e iniciaram diversas e intermináveis frentes de negociação para a construção de um canal ligando os oceanos Atlântico e Pacífico. Após décadas de negociação, uma empresa francesa dirigida por Ferdinand de Lesseps, responsável pela construção do Canal de Suez, conseguiu autorização do governo colombiano para o início da construção.

Panamá 005

Casco Antíguo

Os franceses foram meio arrogantes (Ah! Vá!2) pelo fato de terem feito o Canal de Suez e resolveram aplicar basicamente o mesmo projeto para o Canal do Panamá sem terem feito muitos estudos sobre os terrenos, o clima e o relevo e após quase dez anos de chuvas torrenciais, enchentes, desmoronamentos e muitos operários mortos (cerca de 20 mil por causa de malária e febre amarela) a empresa veio a falir.

O presidente americano Roosevelt estava convencido de que os americanos seriam capazes de terminar a construção e também estava muito interessado no controle do canal por motivos militares, políticos e econômicos. Em 1903 EUA e Colômbia assinaram um tratado, porém o senado colombiano não ratificou o acordo. Como já havia um movimento pela independência do Panamá, os americanos deram a entender que, se os panamenhos declarassem a independência, os EUA garantiriam apoio militar caso a Colômbia resolvesse contra atacar. Em 3 de Novembro de 1903, os panamenhos declararam sua independência, garantidos por um “exercício naval da marinha americana” na região e os colombianos “deixaram pra lá, nem queria mesmo”. Quize dias após, o tratado que havia sido costurado com os Colombianos é assinado com os americanos e a construção do canal é reiniciada.

Ventiladores na parte externa de um bar. Depois eu entendi porque.

Ventiladores na parte externa de um bar. Depois eu entendi porque.

Não vou me alongar na história do canal pois o intuito é falar sobre o país e a wikipedia tem um artigo bem completo em português sobre esta história. Mas vale frisar que o acordo previa um pagamento de 10 milhões de dólares iniciais e de 250 mil dólares anuais à partir do término da construção, que duraria dez anos, a título de royalties, para o Panamá. Um outro ponto importante também é que, com a desculpa de proteger os investimentos dos EUA, criou-se uma área ao redor da eclusa de Miraflores, na cidade do Panamá, que era na prática um território americano dentro do país (o acesso aos panamenhos à esta grande parte da cidade era bloqueado) e que influenciou muito a cidade e o país inteiro.

Os panamenhos viram durante anos o Canal render vultuosas divisas que ficavam com os americanos, o que gerou ao longo deste tempo vários incidentes e uma instabilidade política enorme no país. Mas em 1977, finalmente foi assinado um acordo com o então presidente dos EUA, Jimmy Carter, para uma cessão gradual dos direitos sobre o Canal ao Panamá, cessão esta que foi concluída em 2000.

Desde então, com a entrada destas divisas e com a instalação de várias empresas no país, os panamenhos têm experimentado um salto em qualidade de vida.

Um dos famosos arranha céus do centro da cidade.

Um dos famosos arranha céus do centro da cidade.

O que fazer
Estando na cidade do Panamá é imprescindível ir conhecer a eclusa de Miraflores. Eu fiz este passeio através de uma agência, e também incluia um City Tour, fazia uma parada em um centro de artesanato ótimo para comprar lembranças e terminava em um grande mall. Acho que comprar o pacote através da agência é a melhor escolha a se fazer, só é interessante ir em um dia de final de semana para não perder valiosos minutos parado no trânsito infernal da cidade (eu fiz em um domingo).

Depois do City Tour, seguindo recomendação do guia (que falava português!), fomos até Casco Antiguo (ou Casco Viejo), um pedaço da cidade onde foi realizada a primeira reconstrução, no final do século 17, já que a cidade original (Panamá Vieja) havia sido destruida por saques de piratas e por incêndios. O belo e charmoso bairro conta com bastante edifícios históricos que vêm sendo restaurados e com boa variedade de restaurantes, bares e lojas de artesanato. Destaque para a Cerveceria La Rana Dorada, uma cervejaria artesanal panamenha que além de suas ótimas cervejas, também tem um cardápio interessante, tudo a preços justos.

Na segunda feira resolvemos alugar uma bike e pedalar os 5kms da Amador Causeway, uma via construida pelos americanos para isolar a entrada do Canal e para interligar o continente a três belas ilhas (Naos, Perico e Flamenco), porém os locais que alugam bicicletas estavam fechadas e resolvemos caminhar pela via mesmo assim. A caminhada valeu a pena e aproveitamos para almoçar na ilha Flamenco.

Amador Causeway: lembra os keys da Flórida

Amador Causeway: lembra os keys da Flórida

Depois de descansar um pouco, fomos até a Calle Uruguay, que conta com algumas opções de bares, pubs e restaurantes. Infelizmente tinhamos que voltar no outro dia e não pudemos conhecer Panamá Vieja, que pelo que eu soube são as ruínas da primeira cidade do Panamá, mas fiquei com vontade de conhecer mais o país, especialmente algumas praias e ilhas que ficam um pouco distantes da capital e parecem ser bem interessantes.

Como disse no início, de cara eu não gostei da cidade, mas aos poucos comecei a entender que a cidade é uma uma mistura de várias cidades do continente americano, de Miami (arquitetura, lojas) a São Paulo (correria, trânsito) e que o país ofere um conforto e qualidade de vida do nível do norte americano, mas sem deixar de ser calorosa como os latinos. Me fez até pensar que é uma boa opção para viver. Desde que arrumasse um trabalho onde não tivesse que usar gravata, que deve ser uma tortura com o calor do país.

É tanto trânsito e tanto carro que não dá nem pra saber o que é estacionamento e o que é rua

É tanto trânsito e tanto carro que não dá nem pra saber o que é estacionamento e o que é rua

Observações, dicas e considerações:

  • Achei estranho quando cheguei ao La Rana Dorada ver ventiladores na parte externa do bar. Eu já vi aquecedores, mas ventiladores nunca. No final da tarde e início da noite deu para perceber porque: mesmo sentado e tomando cerveja gelada, o calor era de fazer suar mais que tampa de cuscuz e os ventiladores davam uma aliviada.
  • No Panamá, por conta de sua posição geográfica, existem apenas duas estações no ano: a seca e a chuvosa. Mas ambas são quentes, muito quentes.
  • A dica para os táxis de Cuba também funciona para o Panamá: negocie antes de entrar, pechiche e tome o táxi fora do hotel. O Panamá não chega a ser tão seguro quanto Cuba, mas é bem mais seguro que o Brasil e tomar táxi nas ruas não é problema.
  • Os preços de bens (carros, roupas, perfumes e mesmo alimentação e bebidas) no Panamá é muito próximo dos preços praticados nos EUA. Mas atenção: não adianta comparar preços em outlet dos EUA com preços nos shoppings do Panamá. No Panamá é preço de shopping dos EUA, não preço de outlet. Ou seja, para compras é melhor ir até Miami mesmo.
  • Infelizmente a parte da cultura americana de obedecer regras não pegou no país e os motoristas desrespeitam totalmente as leis de trânsito. Precisa ter muito cuidado ao atravessar um farol de pedestres, por exemplo, mesmo que ele esteja aberto.
  • O trânsito na cidade do Panamá é infernal. Comparado aos piores dias em São Paulo. É transito o dia todo e com as ruas e avenidas praticamente paradas das 16:00 às 20:00 horas.
  • Dizem que existem mais carros na cidade do Panamá do que existem pessoas.
  • Apesar do trânsito, os ônibus passava vazios pelas faixas exclusivas enquanto os carros ficavam literalmente estacionados nas demais faixas. Mais um sinal da influência americana no país: todo mundo prefere andar de carro, mesmo que isto signifique mais tempo no trânsito.
  • Diablo rojo (preste atenção na foto do parabrisas)

    Diablo rojo (preste atenção na foto do parabrisas)

    Muitos ônibus escolares (naquele padrão dos americanos) foram transformados em transporte coletivo “extraoficial”, conhecidos como diablos rojos. O mais interessante é que eles são todos grafitados e/ou adesivados de acordo com a vontade do dono. O governo panamenho está aos poucos aposentando estes ônibus, substituindo-os por linhas oficiais. Mas tomara que mantenham alguns como atração turística.

  • Apesar da moeda oficial ser o Balboa, ela só existe na forma de moedas (de 1 balboa para baixo) e como o governo consegue manter uma paridade de 1 para 1 com o dólar, na prática a moeda americana é a oficial no país.
  • Por conta dos baixos impostos o país é considerado uma espécie de paraíso fiscal e muitas empresas têm instalado suas sedes para fugir de altas taxas de impostos nos seus países de origem (e também aproveitar a logística).
  • Este boom de empresas se instalando fez com que a pouca mão de obra qualificada desaparecesse do mercado, recebendo salários bem altos. Então fica a dica para quem tem interesse em mudar de país e conta com qualificação profissional.

Be happy! 🙂

Panamá 011