Arquivo mensal: março 2015

Botecando #51 – Samba do Bule / Teatro Popular União e Olho Vivo – São Paulo – SP

20150328_002520O “Samba do Bule”, roda de samba que ocorre sempre na última sexta feira de cada mês no Teatro Popular União e Olho Vivo acontece desde 2007, porém ainda não havia ouvido falar nela.

O Teatro Popular União e Olho Vivo, que abriga o evento, se encontra em um terreno ali no final do Bom Retiro, quase na Marginal Tietê (perto das quadras da Tom Maior e da Gaviões). O terreno é grande, porém a parte construida, onde ocorreu o samba é pequena e, com a lotação do samba (que me surpreendeu positivamente!), chegou uma hora que você não conseguia entrar. Ainda bem que o tempo estava agradável, pois se estivesse chovendo ia ser um problema.

20150328_030257Para se ter idéia de como encheu, quando saí as 2:30 da manhã, ainda tinha fila de gente querendo entrar, já que estava naquele esquema de “só entra alguém quando sair alguém”.

Não existe “ingresso” e eles pedem uma contribuição não obrigatória com valor sugerido de R$ 5,00 (e avisam que pode ser mais ou menos, ou se a pessoa não quiser, nem precisa dar) para ajudar nos custos, que também são bancados com a venda de bebidas.

No caso do samba em sí eu senti um pouco de falta de mais sambas paulistas, já que eles acabaram se concentrando mais nos sambas do Rio (Cartola, Nelson Cavaquinho, Ze Keti, Candeia). Mas ao menos rolou um Geraldo Filme.

Como já havia falado, eu gosto destas rodas e festas que andam ocorrendo em São Paulo, especialmente porque geralmente a qualidade da música é melhor do que as das casas badaladas e o público também é diferente, com uma galera mais preocupada em aproveitar do que desfilar.

Este evento precisa de alguns “ajustes”, especialmente no que se refere a estimar a quantidade de pessoas certas para que não fique lotado e não rolem muitas filas, para que todos possam ver e ouvir o samba, etc. Mas só erra quem faz e só evolui quem tenta e eu fico muito feliz quando eu vejo uma galera botando a mão na massa, especialmente no intuito de manter viva uma tradição popular brasileira.

Onde: Teatro Popular União e Olho Vivo (Rua Nilton Prado, 766 – São Paulo – SP)
Quando:27/03/2015
Bom: samba e preços.
Ruim: lotou demais, então fez muita fila no banheiro e no caixa.
Site: http://www.sambadobule.com.br/http://tuov2010.blogspot.com.br/
Facebook: Samba do Bule e Teatro Popular União e Olho Vivo

 

Wanderlust #17 – Salvador, Bahia, Brasil

Elevardor Lacerda e Mercado Modelo, com a Baia de Todos os Santos ao fundo!

Elevardor Lacerda e Mercado Modelo, com a Baia de Todos os Santos ao fundo

Há tempos vinha querendo conhecer a Bahia e resolvi aproveitar o feriado do padroeiro de São José dos Campos para iniciar meu contato com a Bahia por Salvador. Mas a cidade me despertou sentimentos dúbios, dos quais falarei mais tarde. Primeiro vamos à um “giro” durante estes quatro dias.

Basílica do Senhor do Bonfim

Basílica do Senhor do Bonfim

A revista da Avianca que havia no avião trazia justamente uma reportagem sobre Salvador e foi interessante já ter umas primeiras impressões sobre a cidade, algumas dicas de pontos turísticos, etc. Durante a aproximação do avião à Salvador o que mais me chamou a atenção, ao olhar a cidade de cima, é a quantidade de favelas. Não aquelas favelas antigas feitas de barracos de madeira com teto de zinco, mas uma quantidade enorme de casas sem acabamento, especialmente nos morros.

Após chegar no hostel, que ficava no Largo do Pelourinho, e fazer o check in, aproveitei a tarde da quinta feira para conhecer a região do Pelourinho, passando pela Praça Terreiro de Jesus, Praça da Sé e me dirigi ao elevador Lacerda para seguir para a cidade baixa. Somente neste caminho pude realmente comprovar a quantidade enorme de igrejas existentes em Salvador (dizem que mais de 300!). Quanto ao elevador Lacerda, apesar de ser considerada uma atração turística, não tem nada demais: é apenas um elevador para que as pessoas evitem subir e descer as ladeiras e becos entre a cidade alta e a baixa.

Lagoa do Abaeté

Lagoa do Abaeté

Depois do elevador fui conhecer o Mercado Modelo, que é basicamente uma feira de artesanato e é uma boa opção para comprar souvenirs, tendo inclusive preços melhores do que as lojas do Pelourinho. Após uma passada rápida pelo mercado havia planejado andar até a Igreja do Nosso Senhor do Bonfim pela orla. Só não sabia que a praia neste pedaço da cidade é inacessível, já que existem portos, construções, etc. A ida à pé não vale a pena como passeio turístico. Vale para ver a Salvador que não é feita para turista (e que é pobre) e mais algumas igrejas distribuidas pelo caminho. Além de notar que, depois de igrejas, o que mais existe em Salvador são escolas. Após uma hora de caminhada debaixo de um sol de mais de 30 graus, cheguei à Ladeira do Bonfim, que dá acesso ao Largo e à Igreja, que é simples, mas bonita, tanto externamente quanto internamente. Para quem acredita, vale amarrar uma fitinha nos portões e fazer os três pedidos (um para cada nó). O visual do Largo e da Igreja deve ser interessante à noite também.

Praia de Piatã

Praia de Piatã

Depois da visita tomei um táxi para voltar ao Mercado Modelo e almoçar por lá. Após o almoço, mais uma caminhada pela orla, agora no sentido norte, passando pela Baia Marina e o Museu de Arte Moderna da Bahia. Como já tinha realizado a programação do dia, peguei o Beco do Sodré (uma bela escadaria) para voltar à cidade alta, passando pela Ladeira da Preguiça (vizinha ao beco). Ambos desembocam na famosa Praça Castro Alves, que também tem mais uma Igreja (Nossa Senhora da Barroquinha) e fica próxima ao Mosteiro de São Bento (só ai já tinha passado ou visitado pelo menos umas 20 igrejas). Resolvi parar num bar (em frente à Igreja e Convento de São Francisco) para tomar algumas cervejas.

Para tomar umas cervejas à noite, seguindo recomendação de uma das atendentes do hostel, fui até a Cantina da Lua, que fica na Praça Terreiro de Jesus e oferece música ao vivo todos os dias. Como era uma quinta, estava rolando ritmos latinos com uma boa banda. Infelizmente a comida lá não é boa e só tinham cerveja Schin mas quebrou o galho num dia de semana.

Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos

Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos

No outro dia levantei cedo para continuar a conhecer a cidade. Caminhei no sentido contrário do Circuito Campo Grande dos trios elétricos da Praça Castro Alves até a Barra, que é o ponto de partida do circuito Barra-Ondina. O Farol da Barra e as duas praias que o cercam são bem bonitas. O visual da entrada da Baia de Todos os Santos   também impressiona pela beleza e imponência. Preferi não pagar os R$ 12,00 reais de entrada para o farol, que hoje abriga o Museu Náutico da Bahia e rumei para a Lagoa do Abaeté.

A Lagoa é bonita, mas pelo que eu tinha visto por fotos imaginava uma lagoa bem maior, cercada por barraquinhas, como se fosse uma praia de água doce. Até existe uma infraestrutura e estavam testando um sistema de som, provavelmente para alguma apresentação ao vivo à noite, mas durante o dia estava vazia. De qualquer forma, o visual da água azul esverdeada da lagoa, com a areia branca que o cerca e mais a vegetação é belo. Pena que havia um bando de Urubus ali para estragar a paisagem.

Ilha dos Frades

Ilha dos Frades

Da Lagoa até a famosa praia de Itapuã a distância é de apenas 15 minutos de caminhada e me dirigi até a famosa praia afim de “passar uma tarde em Itapuã”, como diria Vinicius, mas infelizmente desta vez não deu pois a orla estava toda em reforma. Então acabei andando mais uns 2 kilômetros atá a praia de PIatã, que já havia achado interessante no caminho de ida, principalmente por ser cercada de coqueiros e ser mais distante da avenida beira mar. Ali parei para tomar umas cervejas e algumas caipirinhas. Esta é uma praia que eu aconselho a passar algumas horas, apesar do mar ser um pouco sujo. Também é ótima pedida para surfistas, especialmente no final da tarde.

De volta ao hostel para uma descansada para depois ir até o bairro Rio Vermelho, a região boêmia de Salvador, para ver o movimento. Infelizmente acabei descansando demais, chegando no Rio Vermelho quase meia noite, horário em que os bares começam a ficar menos movimentados. Como não estava afim de pegar balada (nem levei roupa para isto), só comi uma pizza (muito boa!) e voltei para o hostel, pois tinha agendado um passeio de barco para o outro dia de manhã.

Ilha de Itaparica

Ilha de Itaparica

No sábado levantei cedo para fazer o passeio pelas Ilhas do Frade e de Itaparica. Felizmente não consegui vaga no Catamarã, que faria uma viagem mais rápida até as ilhas, e fui de escuna. Mas justamente a viagem em sí foi uma das melhores partes, pois o staff do navio (garçons, marinheiros e guias) era ótimo e a viagem toda aconteceu ao som de um grupo de samba.

A Ilha dos Frades é uma grande ilha dentro da Baia de Todos os Santos onde se encontram três pequenos vilarejos. A praia principal, que fica na Vila de Nossa Senhora de Guadalupe, é muito bonita e é onde está localizada a Igreja erguida em homenagem à santa. Vale a pena subir os mais de 100 degraus até a igreja para ter uma visão completa da praia. Diferentemente das praias de Salvador, na Ilha a água é limpa e com uma temperatura bem agradável. Após uma hora e meia na Ilha, voltamos à escuna para rumar à Ilha de Itaparica.

Lagoa do Abaeté

Lagoa do Abaeté

A Ilha de Itaparica já é praticamente uma cidade, porém ficamos em uma praia afastada, em um restaurante “pé na areia”. Existia a possibilidade de fazer um city tour pela ilha, mas preferi ficar por lá mesmo. Ali também o mar era bem limpo e calmo e a temperatura da água era até quente demais.

Após uma descansada rápida, desta vez resolvi ir mais cedo para a região do Rio Vermelho, para pegar algum bar. Seguindo recomendação de um amigo, resolvi ir no Red River Café. É um barzinho no estilo Vila Madalena, bem no local onde o rio que dá nome ao bairro se encontra com o mar. Tem uma área externa, onde paga-se somente o que consumir e uma parte fechada, onde estava ocorrendo o show Brasilady, da cantora Amanda Santiago, que é apadrinhada de Carlinhos Brown e já foi vocalista da Timbalada.

Igreja Nossa Senhora de Guadalupe

Igreja Nossa Senhora de Guadalupe

Gostei bastante do show, que é baseado em versões “abaianadas” de clássicos da música popular brasileira e também em composições próprias da artista. E claro que terminou em axé! Se estiver na Bahia e estiver rolando o show Brasilady, ou se “topar” com o show em algum outro local, eu recomendo.

No domingo, depois de comprar alguns souvenirs, aproveitei para conhecer a Fonte Nova em um jogo do Bahia pelo campeonato Baiano. O estádio é bonito, confortável e limpo, realmente padrão internacional (nem poderia ser diferente, pois foi usado na Copa do Mundo). É muito bom você ter bandeiras e baterias nos estádios e poder tomar uma cerveja, coisa que em São Paulo não existe mais. O jogo em sí também foi bom, mas é triste ver como o Brasileiro deixou de curtir futebol e aquele belo estádio estava com pouco mais de 8 mil pessoas em um jogo das oitavas de final do Baianão.

Bem, havia falado no início do texto que a cidade havia me despertado sentimentos dúbios e agora explico: realmente a cidade tem muita história (que particularmente me interessa) e alguns pontos de belezas naturais bem interessantes, porém o lado que eu não gostei muito foi a enorme quantidade de pedintes e vendedores de bugigangas, muitos destes mal intencionados e querendo levar vantagem. Muita gente se incomoda pelo fato de ser abordado em sí, mas o meu incômodo foi causado por existir tanta gente na cidade em situação de rua e na dependência de subempregos para sobreviver, quando não de atos ilícitos. Acho que não tinha visto tanta gente nesta situação antes, em nenhum dos lugares para onde já viajei, dentro ou fora do Brasil.

Igreja e Convento de Sao Francisco

Igreja e Convento de Sao Francisco

Outra coisa que me incomodou também foi que, apesar de ser a “cidade mais negra do Brasil” (estima-se que pelo menos 60% da população de Salvador seja composta por negros), existe um abismo enorme na situação dos negros em comparação com as demais etnias. Você nota claramente que os donos dos negócios, em sua grande maioria, são brancos (ou gringos) e os funcionários negros. Dentre este pessoal em situação de rua, a totalidade é composta por negros. No bar em que eu fui e nos outros lugares (restaurantes, bares, passeios, etc) que eu reparei, raramente existia um negro como cliente e quando existia eram turistas. Existe uma situação de “apartheid” muito grande lá, mais do que no restante do pais.

Tem gente que tira férias e consegue “abstrair” e focar somente na diversão, mas como para mim uma das principais experiências de viagem é justamente conhecer o povo do local, não consigo não me incomodar com algumas situações como esta. Tomara que da próxima vez que for à Bahia a situação tenha melhorado ao menos um pouco.

Fonte Nova

Fonte Nova

Observações, dicas e considerações:

  • A não ser que a grana esteja bem curta, não aconselho ficar hospedado no Pelourinho. Ficar na Barra, que fica mais próximo a algumas praias ou no Rio Vermelho, que é onde fica a vida noturna, é mais vantajoso.
  • Mas se a grana estiver curta e a hospedagem tiver que ser barata, sugiro o Hostel e Pousada País Tropical. O Staff é muito bom, os quartos são limpos e o café da manhã é até acima da média para um hostel. A única coisa ruim era o chuveiro, que tem apenas duas temperaturas: gelado Alaska ou quente inferno.
  • O Pelourinho é um tanto quanto perigoso (mais do que o Centro de São Paulo ou do Rio), especialmente à noite. Apesar de muito policiamento, ocorrem alguns furtos, especialmente de correntes e gargantilhas, portanto, evite usá-las (ou relógio), além de ficar dando mole com celular e máquina fotográfica (depois das 22:00 nem pense em levar máquina fotográfica).
  • Quando alguém te oferecer uma “fitinha do Bonfim” de graça, pode se preparar para dar uns 5 reais à pessoa….hahaha
  • Não sei se todos os passeios de barco são parecidos, mas aconselho a fazer o passeio às ilhas através da Apolônio Turismo (o quiosque deles fica no terminal de embarque em frente ao Mercado Modelo) e preferencialmente de escuna.
  • Achei o táxi um tanto caro lá. 120 reais do aeroporto até o Pelourinho (ok! É longe, mas não mais que Guarulhos do Centro de SP), 40, 50 reais do Pelourinho até o Rio Vermelho. Se for possível, tente pegar uma “coletividade” com um taxista e negociar preços prévios.
  • Se estiver sozinho e a grana estiver curta, a melhor opção durante o dia é o ônibus mesmo.
  • Para quem gosta de futebol, conhecer a Fonte Nova e assistir um jogo do Baêa é bem interessante.
  • Aliás, acho que o Vitória foi algo inventado pelo Bahia para que eles possam um adversário. Não vi um torcedor do Vitória, não vi bandeiras em bares, carros, pessoas com camisa, nada. Para não falar que não vi nada sobre o Vitória, quando chega na cidade o avião passa sobre o Barradão e é possível vê-lo quando se está do lado esquerdo da aeronave.

Be happy 🙂

Baia de Todos os Santos

Baia de Todos os Santos

Duas Narrativas Fantásticas – Fiódor Dostoiévski (10/2015)

Duas Narrativas FantásticasAs duas novelas constantes de “Duas Narrativas Fantásticas”, denominação dada pelo próprio Dostoiévski, foram publicadas inicialmente pelo autor no Diário de um Escritor, publicação mensal redigida pelo próprio autor entre 1876 e 1879.

Nas duas estórias, os respectivos personagens principais, que não têm nome, é quem são os narradores.

A Dócil

Em A Dócil, um usurário, já na casa dos 40 anos, refaz, ao lado do corpo da jovem mulher que havia acabado de cometer suicídio, todos os passos do relacionamento dos dois. Este homem, que já fora maltratado pela vida e de certa forma se vingava da sociedade através de sua profissão, ao tentar entender as razões que levaram a esposa a cometer o suicídio, percebe que ela também havia sido vítima de sua vingança.

Ao propor o casamento para a moça, ele está apenas pensando na sua “utilidade”, afinal de contas, ele planejava em três anos juntar dinheiro suficiente para comprar uma propriedade, se aposentar e constituir uma família e ela era uma peça neste seu plano. Para isto, ele estabelecer com ela uma relação de dominância e tenta fazer com que ela lhe seja subserviente. Quando esta moça resolve atentar contra este plano, ele começa a se dar conta que sente verdadeiro amor por ela.

Talvez como represália, ela comete o suicídio justamente no momento em que ele começa a tomar consciência deste amor e inclusive começa a abrir mão de suas posses e seus planos.

O Sonho de um Homem Ridículo

Nesta novela, o narrador é um homem melancólico, que se autodenomina “ridículo” e que age com indiferença à ele mesmo e à tudo aquilo que o cerca. Ao tentar cometer suicídio (simplesmente “deixar de ser/existir”), adormece em frente ao revolver e tem um sonho com o planeta terra em uma outra realidade, onde os habitantes ainda não perderam a inocência e vivem usufruindo da vida em comunhão uns com os outros e com todos os seres que os cercam.

É uma ótima reflexão sobre a velha pergunta de “qual é o sentido da vida?” e conta também com algumas críticas à sociedade da época, mas que caberiam muito bem na nossa sociedade atual. Pincei dois trechos que eu achei particularmente interessante:

“Mas a sua sabedoria era mais profunda e mais elevada que a da nossa ciência; uma vez que a nossa ciência busca explicar o que é a vida, ela mesma anseia por tomar consciência da vida para ensinar os outros a viver; ao passo que eles (os habitantes desta outra “terra”), mesmo sem ciência, sabiam como viver, e isso eu entendi, mas não conseguia entender a sua sabedoria.”

“…os ‘sábios’ esforçavam-se o mais depressa possível por exterminar todos os ‘não sábios’ que não entendiam a sua ideia, para que não interferissem no triunfo dela.”

Be happy 🙂

A Morte de Ivan Ilitch – Lev Tolstói (09/2015)

A Morte de Ivan IlitchIvan Ilitch é um respeitado Juiz de Direito, morador de São Petesburgo, casado e com um casal de filhos, que vive uma digna, feliz e adequada, segundo tudo o que a sociedade lhe ensinou.

Porém ao se deparar com uma doença incurável, ele começa a enfrentar a dor de descobrir que sua vida não foi assim tão feliz como ele imaginava. O livro toca (e faz pensar) em três assuntos distintos mas relacionados entre si.

O primeiro é a relação que a maioria dos seres humanos tem com a morte e o fato de querer evitá-la à todo custo. Ivan, assim como todos que o cercam (inclusive os médicos que tentam tratá-lo), evitam a “entrega”, ou seja, a simplesmente aceitar que a morte vai chegar para ele, assim como vai chegar para todos.

O segundo assunto refere-se à compaixão (e empatia). Excetuando-se um empregado e seu filho adolescente, todos à sua volta parecem fazer parte de um grande teatro, mesmo quando vão visitá-lo e mesmo durante os funerais, sem se importarem ou se compadecerem dele com franqueza e do fundo da alma.

O terceiro assunto, acontece quando ele tem uma conversa com um “espírito” (acredito que não seja uma figura “divina”, mas sim com sua própria consciência) e ele pergunta o porque da morte e o espírito responde “para que viver?” (a vida que ele vivia). À partir daí ele começa a se questionar se aquela vida feliz era realmente feliz e adequada e fazendo um retrospecto ele chega à conclusão que os momentos realmente felizes, em que ele fez algo que reamente lhe dava prazer, e não porque alguém falou que dava prazer ou porque era daquele jeito que tinha que ser, eram os da infância e um pouco durante a faculdade.

Ele descobre que, durante toda a sua vida ele apenas seguiu o que as convenções sociais ditaram para ele: fez uma faculdade, galgou postos na vida profissional, casou com a mulher mais “adequada”, teve filhos, etc.

Como disse Milton Ratoun, que escreve a resenha das orelhas da capa deste livro, mais do que morte, o conto fala sobre vida e sobre como viver.

P.S. Impossível não pensar, ao ler o livro, em Canto Para Minha Morte e Quando Você Crescer, do gênio Raul Seixas!

Be happy 🙂

O Escaravelho do Diabo – Lúcia Machado de Almeida (08/2015)

O Escaravelho do DiaboEste é outro livro da literatura infanto-juvenil brasileira que todo mundo leu e eu ainda não tinha lido. E olha que posso contar nos dedos os poucos livros da famosa Coleção Vagalume que eu não lí.

Publicado pela primeira vez em 1956 na revista O Cruzeiro, em forma de folhetim (a cada semana um capítulo era publicado), o romance polícial, no estilo Agatha Christie, conta a história de Alberto, um estudante de medicina, cujo irmão foi brutalmente assassinado em um crime sem aparente razão e em que a polícia não conseguiu obter nenhuma pista sobre os motivos ou sobre o assassíno.

Porém, quando um outro assassinato ocorre na cidade, Alberto liga o caso ao do seu irmão por um detalhe: tanto seu irmão quanto a segunda vítima tinham os cabelos vermelhos. Além disto, durante a investigação da cena do novo crime, uma caixa com um besouro é descoberta, o que liga o crime ao de Hugo, irmão de Alberto, pois um besouro também havia sido encontrado no quarto deste.

À partir dai, Alberto se junta ao polícial encarregado do caso para auxiliar na busca deste “assassino em série” (acho que quando o livro foi escrito, o termo nem existia).

Apesar de usar uma linguagem mais antiga e coloquial, o livro é de fácil leitura e imagino até que a autora tenha usado alguns termos “modernos” para a época, pois o público alvo dela eram os jovens e adolescentes. O mistério em sí tem um bom desenvolvimento, apesar de eu achar que o fim poderia ter sido um pouco melhor.

Mas o mais interessante do livro é o fato de mostrar alguns costumes e comportamentos de quase 6 décadas atrás. Achei muito legal também as inserções em língua estrangeira, já que a autora também tinha estudado línguas e conseguiu colocar, com as devidas notas de rodapé, algumas expressões em inglês que são usadas até hoje. Ela só poderia ter colocado uma nota traduzindo a única expressão em alemão do livro.

Be happy 🙂

O Meu Pé de Laranja Lima – José Mauro de Vasconcelos (07/2015)

O Meu Pé de Laranja LimaApesar de ter lido muitos livros na minha infância e adolescência, não sei o por quê de eu não ter lido este clássico da literatura brasileira até agora. Ainda acompanhei alguns capítulos da novela baseada no livro que passava na Bandeirantes no começo da década de 80. Não sei se pela adaptação ou por causa da minha idade na época, não consegui perceber a beleza desta obra.

Na estória, que tem ares autobiográficos por se passar onde o autor nasceu e ter personagens que fizeram parte da infância dele, Zezé, um menino de quase 6 anos que faz parte de uma família muito pobre e com muitos filhos, cria um mundo de fantasias para fugir da dura realidade da fome, das agressões dos pais e dos irmãos e das privações de coisas que outras crianças de sua idade podem usufruir.

Neste mundo de fantasia, ele cria amizade com Minguinho, um pé de laranja lima, com quem ele conversa e com quem ele brinca e vive parte deste mundo de fantasia. O livro conta várias de suas aventuras até que ele conhece o Portuga, um senhor mais velho, que tem uma afeição por Zezé e se torna uma espécie de substituto do seu pai.

Com características como a inocência e imaginação de Saint-Exupery e a ternura de Gorki, o autor coloca uma certa pitada do “coitadismo” típico do brasileiro (que eu já havia citado no artigo do Gorki), mas ele o faz de uma forma que não fica uma coisa carregada, muito pelo contrário, traz algo a mais de emoção para a história que, junto com a inocência e a ternura faz com que seja inevitável que em algumas passagens os olhos fiquem marejados.

Vou dar o livro para minha sobrinha de 10 anos para ver se ela é mordida pelo bichinho da paixão pela leitura.

Be happy 🙂

Botecando #50 – Samba no Bixiga / Mundo Pensante – São Paulo – SP

20150307_234955Ultimamente eu estou curtindo bastantes festas e eventos em centros culturais, como o Espaço Rio Verde, a própria Casa de Cultura da Freguesia do Ó, entre outros. Normalmente os valores são mais convidativos do que baladas normais, a qualidade das atrações e do público também é bem melhor e normalmente elas ocorrem em espaços físicos diferentes de uma balada normal, o que por si só traz um “diferencial”.

Mundo PensanteNão seria diferente no evento Samba no Bixiga, que acontece todo primeiro sábado do mês no espaço Mundo Pensante, um espaço milticultural onde se desenvolve atividades artísticas e culturais diversas, localizado ali na 13 de Maio, quase com a Rui Barbosa, no coração do Bixiga em um simples, mas belo e funcional imóvel.

O evento também foi muito bom e a roda de samba “Samba do Favela” fez um passeio pelo samba de raiz paulista (rolou até Paulo Vanzolini!) e carioca, bem como alguns sambas de roda da Bahia.

Legal também a idéia de abrir o espaço para que o pessoal que trabalha com artesanato exponha e venda seus produtos.

To vendo que é mais um evento que eu vou começar a bater cartão!!!

Onde: Mundo Pensante (Rua 13 de Maio, 825 – São Paulo – SP)
Quando:07/03/2015
Bom: samba e preços.
Ruim: nada de ruim.
Site: http://www.mundopensante.com.br/

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Botecando #49 – Tatu Bola Itaim – São Paulo – SP

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A decoração com fitas do Senhor do Bonfim

Atualmente eu não sou um frequentador muito assíduo do circuito Itaim/Vila Olímpia, apesar de já ter tido minhas épocas de Monte Cristo, Rey Castro e Dublin, mas faz tempo. Nos últimos anos tenho preferido a Vila Madalena, tanto por conta da distância quanto pelo tipo de público. Mas como os dois “bairros boêmios” de São Paulo estão se tornando bem parecidos nos últimos anos, normal que o público e casas tipo “Vila Madalena” também esteja se “infiltrando” no Itaim. E o Tatu Bola é uma casa que caberia bem na Vila, até aquela antiga e mais “roots”.

TatuBola2Situado em um belo imóvel, que tem ares de uma mercearia antiga, nas esquinas da Clodomiro Amazonas com a Joaquim Floriano, o que mais chama a atenção ao entrar na casa é a decoração com o teto repleto de fitinhas do Senhor do Bonfim que, apesar de deixar o ambiente um tanto escuro, dá um charme à casa. O local não é dos maiores, contando com algumas mesas e uma pequena pista, mas isto torna o ambiente mais aconchegante do que se fosse imenso e parecesse uma balada.

Os petiscos estavam muito bons (fritas e tábua de carne mista), apesar de eu achar as porções pequenas pelo valor cobrado. Apesar disto, dá para perceber que a casa se preocupa em utilizar produtos de qualidade nos alimentos que serve.

TatuBola 3A cerveja estava sempre bem gelada e a casa oferece algumas opções de cervejas importadas (todas do portfólio da Ambev, como Quilmes, Norteña e Franziskaner), mas o que me atraiu mesmo foram as caipirinhas. Além de terem algumas misturas interessantes (como a de cachaça com rapadura e dois tipos de limão, a minha predileta), elas são servidas em um “potinho”, como aqueles de maionese ou palmito. E também são muito bem feitas, equilibrando bem o spirit, as frutas e açucar.

O atendimento também é acima da média, com seguranças, caixas e garçons bastante simpáticos e prestativos.

Para não dizer que tudo estava muito bom, o grupo de samba não era dos melhores (dentro do samba, que fique bem claro). Eles até são bons músicos e tem um repertório interessante, misturando pagodinhos românticos recentes com alguns clássicos de samba, porém eles não tem aquela “pegada” de sambão mesmo, que a gente encontra em outras casas (como o Traço ou o Sem Saída). Mas novamente, não que sejam ruins e ai no caso é uma questão de gosto pessoal.

Mas é um lugar em que pretendo voltar para passar outra tarde de sábado agradável, comendo, bebendo e me divertindo com os amigos.

Onde: Tatu Bola Itaim (Rua Clodomiro Amazonas, 202 – São Paulo – SP)
Quando: 28/02/2015
Bom: decoração, petiscos e as caipirinhas
Ruim: a grupo de samba não é dos melhores (mas também não são ruins)
Site: www.tatubolabar.com.br

Wanderlust #16 – Edimburgo (e Glasgow), Escócia

Região central de Edimburgo com suas ruas altas e baixas

Região central de Edimburgo com suas ruas altas e baixas

Depois de anos fui aprender uma fórmulazinha bem simples e que faz toda a diferença em nossas vidas. É o seguinte: se a expectativa criada em relação à um acontecimento (ou pessoa) é maior que a realidade o resultado é frustração. Consequentemente, se a expectativa criada é menor ou igual a realidade o resultado é no mínimo satisfação. Do mesmo jeito que fiquei de certa forma decepcionado com Londres e Dublin pela alta expectativa que eu tinha criado sobre elas, Edimburgo foi a cidade que eu menos criei expectativa e foi a que mais me surpreendeu positivamente.

Edimburgo 1

Princess Garden com o Castelo ao fundo

Quando estava planejando esta minha primeira viagem à Europa eu tinha certeza de que iria conhecer Londres, Liverpool e Dublin. Programei 3 noites em cada cidade (poderia ter programado mais em Londres) e ainda me sobravam 3 dias das férias que eu tinha tirado. Depois de pensar um pouco (fiquei tentado em ir à Holanda) decidi que conheceria a Escócia e assim já “riscaria” o Reino Unido da minha lista de lugares a conhecer. Como conhecia pouco da Escócia, inicialmente pensei em ficar em Glasgow, mas ao ver que o aeroporto ficava em Edimburgo e verificar os hostels, acabei por decidir ficar hospedado em Edimburgo mesmo. Acho que Edimburgo era o último lugar da Europa que eu pensava visitar. Mas em apenas poucas horas a cidade conseguiu me “ganhar”, a ponto de se tornar, junto com Berlin, a cidade mais incrível que eu conheci (sim, até mais que Nova Iorque!).

Edimburgo 2Aterrisei no pequeno aeroporto de Edimburgo na tarde de um domingo chuvoso, peguei o bus que levava ao centro da cidade e me registrei no Hostel. Como de praxe, banho para tirar inhaca de vôo e volta de reconhecimento na cidade.

Por ser uma cidade em uma região montanhosa, Edimburgo é uma cidade com bastante variação de altitude, do tipo você estar em uma rua e a rua paralela a ela ficar há uns 10, 15 metros de altura (dava pra ter idéia pelos andares dos prédios). As ruas todas são bem inclinadas (tipo morros do Rio). Em alguns casos existem escadarias que te levam de uma rua à outra e te poupam de andar um bom pedaço até encontrar uma rua que te permita acesso à esta paralela. Dando esta volta inicial me deparei com uma escadaria, resolvi subir e sai ao lado de uma ponte que passava por cima da rua em que eu estava (esta ponte da foto inicial). Resolvi seguir o fluxo e entrei na Rua do Castelo, que como o nome diz, é uma rua que dá acesso ao Castelo de Edimburgo, e foi ai que eu soltei, em alto e bom som: “Caralho! Que louco!!!!!”.

Edimburgo 3

Topo da Carlton Hill

A Rua do Castelo é uma subida de pedra, estreita, ladeada por pequenos edifícios (não mais que dois andares) também de pedra, com pelo menos 500 anos cada um deles. E lá em cima, no alto da colina, você enxerga o imponente Castelo de Edimburgo. A primeira coisa que me veio à cabeça foi que parecia um cenário de filme de Robin Hood.

Para o cenário ficar melhor, estava acontecendo o Fringe, um festival de arte de rua que acontece todo mês de Agosto em Edimburgo. Então as várias rodinhas com palhaços, malabaristas, contadores de piadas, músicos e dançarinos que se formavam, faziam mais ainda com que a rua parecesse o centro de uma vila medieval durante alguma festividade. Na verdade era exatamente isto que estava acontecendo: uma vila medieval com uma festividade, só que em pleno século XXI!!!!

Edimburgo 4Subi até o castelo parando para ver os diversos artistas, ou para entrar em um dos pequenos edifícios (a maioria hoje abriga restaurantes, cafés, bares e lojas de souvenirs), porém como já estava no final da tarde e a chuva parecia que não ia ceder, eu resolvi voltar para o Hostel para bater um rango e tomar algumas cervejas no Belushi’s (o pub do hostel), já que a intenção era acordar cedo para andar pela cidade. E ai sim! Fomos surpreendidos novamente!

Creio que por causa da chuva, o pub do hostel, que é aberto ao público em geral, estava bem cheio. Como depois de umas 3 cervejas as pessoas começam a falar em “drunkish” e a interagir, ali não seria diferente: acabei por conhecer austriacos, espanhóis, portugueses, italianos e muitos escoceses.

A Rua do Castelo e os vários artistas e o público "respirando" arte

A Rua do Castelo e os vários artistas e o público “respirando” arte

Só sei que o bar virou um furdúncio (dos bons) e lá pelas 22:00 hrs já não exstiam mais mesas individuais ou “panelinhas” e todo mundo já tinha virado amigo. Para quem tinha planos de dormir cedo, fui expulso do pub (literalmente! Eu e todos que estavam lá!) quase à 1 hora da manhã. Fumei mais um cigarro, subi pro quarto e ai descubro que 3 espanhóis com os quais eu fiquei um bom tempo conversando (um deles era fanático por futebol e acabou ficando com uma das minhas camisas do Santos de presente) estavam no mesmo quarto que eu.

Eles tinham outros planos para a segunda, então combinamos de fazer algum passeio na terça. Na segunda eu fui fazer um “city tour” e acabei andando mais de 20 kilômetros. Dei uma volta pelo Princess Garden, pela região central (e antiga de Edimburgo), subi a Carlton Hill (vale pela vista!) e depois fui fazer a visita guiada no Castelo (é um pouco caro e dura quase quatro horas, mas vale muito à pena).

À noite fui tomar umas no pub do hostel e já aproveitei para combinar o passeio do outro dia com os espanhóis. Eles sugeriram ir para Glasgow, que fica a cerca de uma hora de ônibus de Edimburgo. Passeio combinado fui dar uma volta para aproveitar a efervescência que o Fringe trazia à cidade, mesmo em uma segunda feira.

No segundo andar desta torre se encontram as jóias da coroa da Inglaterra.

No segundo andar desta torre se encontram as jóias da coroa da Inglaterra.

Na terça cedinho então pegamos o bus para Glasgow. Sobre a cidade não tem muito o que dizer. A cidade é bem organizada e, tirando a Catedral, não parece ter muitos atrativos turísticos e é mais voltada para o turismo de negócios. Sei lá, deve ser como São Paulo, que para um visitante esporádico, que vem passar poucos dias, pode não ter muitos atrativos, porém quem vive a cidade acaba descobrindo lugares e programas fantásticos. Taí, acho que Glasgow seria uma boa cidade para se morar alguns meses. Mas com poucos dias de viagem deveria ter ficado somente em Edimburgo mesmo.

Como pegaria o vôo de volta para Londres e depois para o Brasil no outro dia somente as 11:00, aproveitei para pegar uma balada na última noite.

Na volta à Londres, cheguei bem cedo (umas 13:00hrs) e o vôo de volta para o Brasil era só as 22:00hrs da noite. A intenção era deixar a mochila em um locker e ir até Abbey Road, que eu havia “perdido” por ter achado que ficava em Lïverpool (que burro! Dá zero pra ele!), mas infelizmente estavam ocorrendo aqueles tumultos que existiram no verão de 2011 e achei melhor não arriscar me deparar com algum problema e perder o vôo. Então preferi ler um bom livro (terceiro nesta viagem!) para encerrar esta minha primeira vez na Europa!

Observações, dicas e considerações:

    • O local para ficar em Edimburgo é o St Christopher. Os quartos não são dos melhores (mas também não são dos piores), mas a localização (em frente à estação de trem, próximo à rodoviária, ao Castelo, shoppings, etc), o restaurante (tem uma BBQ Back Ribs fantástica!) e o pub compensam as pequenas falhas dos quartos.
    • Gaita de fole não é um instrumento legal de ouvir por muito tempo. Como disse o guia da visita do castelo: “para mim soa como se estivessem matando um gato!”.
    • Acho que, fora do Brasil, Edimburgo foi o único lugar em que as pessoas se oferecem para tirar foto.
    • Agosto! Não tem outro mês para ir à Edimburgo. O clima é ameno (meio do Verão) e a cidade ferve por causa do Fringe. Sugiro até passar mais tempo (1 semana), especialmente para quem é fã de artes.
    • O escocês é totalmente diferente do Inglês e do Irlandês. Ele é bonachão, piadista, simpático, receptivo. É mais ou menos como se você pegasse um brasileiro ou um colombiano e deixasse ele por anos curtindo no whisky!

Edimburgo 8

Shada – Douglas Adams & Gareth Roberts (05/2015)

ShadaImpressionante como tudo que tem a marca do Douglas Adams é simplesmente fantástico. E viciante! Shada era um roteiro para a premiada série inglesa de TV Doctor Who, da qual Douglas era produtor e roteirista, mas que nunca chegou a ser levado ao ar (apesar de ter alguns episódios produzidos e gravados).

Shada conta a aventura do Doutor, que desta vez tem que salvar o universo de Skagra, um lunático (como muitos que o Doutor enfrentou ao longo de séculos) que pretende criar a “Mente Universal”. A descrição de Skagra que consta na contracapa do livro já dá uma amostra do que está por vir durante o texto: “Aos 5 anos, Skagra conclui sem sombra de dúvidas que Deus não existia. A maioria das pessoas que chegam a tal constatação reage de uma das seguintes formas: com alívio ou com desespero. Somente Skagra reagiu pensando: ‘Peraí. Isso significa que existe uma vaga disponível.'”

Claro que Adams teve que adptar os textos a uma série de personagens e situações já criadas, o que acabou por limitar um pouco a criatividade, especialmente relativo a algumas tiradas sobre o comportamento humano, tão presente em seus livros.

Como Douglas tinha feito um roteiro para uma série de TV, que é bem diferente de um livro, a missão da adaptação coube a Gareth Roberts, que fez um trabalho fenomenal e conseguiu colocar dentro de um texto fluido, sem nenhuma nota de rodapé, detalhes que em um roteiro são mais explícitos.

Doctor Who talvez seja uma das principais influências do próprio Guia do Mochileiro das Galáxias e é impossível não notar semelhanças entre o Doutor, Romana, Chris e K-9 com Ford Prefect, Trillian, Arthur Dent e Marvin, respectivamente. Aquele típico humor britânico do Guia também é muito presente em Shada e provavelmente deve ser nas demais aventuras do Doutor.

O pior do livro foi que agora eu fiquei com vontade de assistir à série Doctor Who. O problema é que ela está no ar desde 1963 com poucas interrupções. É tanta coisa para ler e para assistir que eu teria que ser um Gallyfreyano para poder ler e ver tudo.

Be happy 🙂