Arquivo mensal: novembro 2014

E Tem Outra Coisa… – Eoin Colfer (20/2014)

E tem Outra Coisa“E tem outra coisa…” é o sexto livro da trilogia de cinco livros do Guia do Mochileiro das Galáxias. Para quem não conhece, o Guia do Mochileiro das Galáxias foi uma serie ficção científica cômica criada para o radio e transmitida pela BBC no final da decada de 70. O responsável pela criação foi o gênio Douglas Adams.

A série de rádio deu origem a uma série de livros, uma série de TV britânica na década de 80, um filme em 2005, web sites, gibis, jogos de computador e gerou todo um universo (na verdade vários universos, ou seja, um multiverso) em torno de Arthur Dent, Ford Prefect, Tricia McMillan, Zaphod Beeblebrox e todos os insólitos e estranhos personagens e suas aventuras.

Para quem esteve nas ultimas décadas na Nebulosa Cabeça de Cavalo ou em um fiorde de algum planeta construído pelos Magrateanos nos confins deste universo (ou de algum outro) e não sabe nada sobre o Guia, sugiro que corra ate livraria (eletrônica ou física) mais próxima e adquira a série. Prometo que não vai se arrepender. É o tipo de livro que você não consegue parar de ler. Eu li os 5 livros originais da série em cerca de 20 dias, numa toada de 50 páginas por dia.

Mas voltando à este sexto livro em específico, ele foi lançado em 2009, portanto 8 anos após o falecimento de Douglas Adams. A missao foi confiada a Eoin Colfer, um autor irlandês de obras infanto-juvenis.

Acho que a escolha nao poderia ter sido melhor. Colfer soube usar a própria improbabilidade tipica de Adams para trazer de volta os personagens e conseguiu manter a “pegada” do humor britânico que ele tinha, além de inserir um toque próprio, o que não faz com que o estilo seja uma simples cópia do estilo de Adams..

Colfer também inseriu algumas novidades tecnológicas, especialmente ligadas à Internet, que não existiam quando Adams escreveu os cinco livros originais (apesar de ele ter “criado” a subeta.net, uma Internet do universo, nos seus livros, ainda na década de 80). Um exemplo são vídeos virais de celebridades, coisa tão comum nos dias de hoje.

O livro abusa das “notas do guia” para refrescar a memória dos leitores e introduzir novos conceitos, porém não é algo chato ou enfadonho. E mesmo com muita coisa explicada nas notas é interessante que os outros livros sejam lidos previamente para uma melhor compreensão do texto.

Assim como toda a obra de Adams e como o Belas Maldições (será que a escolha de Adam como nome do personagem principal de Belas Maldições não seria uma homenagem à Douglas?), este é um livro que dá vontade de ler novamente tão logo você o termine.

Certo Dia De Outono e Outros Contos – Maximo Gorki (19/2014)

CertoDiaDeOutonoO tradutor José Herculano Pires, que escreve o prefácio desta coletânea de contos de Gorki, foi muito feliz ao comparar a literatura Brasileira com a Russa. Primeiramente pela situação de “periferia”, tanto geográfica, quanto de idioma, em que as duas escolas literárias se encontram em relação à literatura mundial. E em segundo lugar, e talvez mais importante, pela semelhança entre o desenvolvimento das duas nações, que está sempre um passo atrás em relação à Europa e América do Norte, o que faz com que os respectivos povos sofram das mesmas agruras e angústias.

Ao ler os contos, nota-se mais ainda a semelhança. As estórias (ou histórias?) contadas por Gorki, com algumas pequenas adaptações, poderiam ter ocorrido em uma vila de pescadores do litoral do Brasil, ou na periferia de uma das capitais brasileiras, mais ou menos na mesma época em que se passam em seus contos. Da mesma forma que Jorge Amado poderia ter escrito Certo Dia De Outono ou Caim e Artem, dois dos sete contos presente neste livro, Capitães da Areia ou Morte e Vida Severina poderia ter sido escrito por Gorki.

A diferença básica entre Gorki e os autores que retrataram as desventuras do povo brasileiro, em especial dos menos afortunados, é que os brasileiros, até por conta da nossa “síndrome de cachorro vira latas”, tratam seus personagens com um certo “coitadismo”, Gorki trata os seus com uma ternura ímpar.

Talvez isto se dê até pela diferença de origens: enquanto os autores clássicos brasileiros normalmente eram originários das camadas mais altas e instruídas da sociedade, Gorki era de origem tão pobre quanto aqueles que ele retratava.

Só sei que é impossível não sentir compaixão e empatia por praticamente todos os personagens, mesmo os mais abjetos e mesmo quando eles demonstram os mais reprimíveis desvios de caráter. E Gorki consegue retratá-los com uma singeleza impressionante!

Felizmente, fiquei conhecendo esta obra através da resenha “A Ternura de Maximo Gorki” feita pelo Henrique Fendrich, colega de Feedback Magazine. Eu nem vou entrar em detalhes dos contos pois o Henrique soube, bem melhor do que eu saberia, dar uma amostra de cada um deles e traduzir o que se sente ao ler o livro, então sugiro apenas clicar no link (e claro, ler o livro). Só sei que a sensação que eu tive já ao final do primeiro conto foi: “porque eu não conheci este autor antes?”.

Be happy 🙂

 

Top Top #16 – Músicas Românticas – Românticos Irados

Ira (1)Apesar da música ser minha paixão, eu tenho um sério “problema” ao ouvir música. Eu consigo prestar atenção nos detalhes da música, tais como se em determinado trecho foi usado um Moog ou um Hammond (órgãos), um Fender ou um Rhodes (pianos elétricos), se o guitarrista usou um overdrive ou um fuzz no efeito da guitarra (combinado com delay, flanger, etc), às vezes consigo identificar até qual o modelo/marca da guitarra ou baixo utilizados. Porém, eu raramente presto atenção nas letras. Eu até decoro as letras mas é meio automático, sem prestar atenção no significado.

Porém, quando estava montando a lista de love songs eu tinha que colocar pelo menos umado Ira!, que é minha banda nacional favorita, e ai fui “obrigado” a prestar atenção nas letras. Acabei descobrindo, depois de 20 anos como fã da banda, que na verdade os caras não são uma banda de rock, mas sim uma banda de músicas românticas, que usa o rock como estilo musical.

Como tinham muitas músicas deles eu resolvi, à exemplo da lista do Paul, criar um “spin off”.

Então seguem as maravilhas compostas pelo Scandurra, Nasi, Gaspa e André ao longo de 3 décadas:

20 – Te Odeio (Isso é o amor)
Aquela linha tênue que separa o ódio da paixão….hahaha

19 – Na Minha Mente
O homem sempre tentando brigar com seus sentimentos!

18 – Prisão das Ruas
Momento nostalgia total.

17 – Poço de Sensibilidade
São revoltadinhos só por fora.

16 – Entre Seus Rins
Bela metáfora! (o clip também é legal)

15 – Quinze Anos
“Seu amor hoje / Me alimentará amanhã”. O Ira! como sempre direto e reto.

13 – Por Amor
To falando que de revoltado eles não têm nada.

12 – Mesmo Distante
Encontos e desencontros. Idas e vindas.

11 – Amor Impossível
https://botecoterapiadotcom.files.wordpress.com/2014/11/ira-03-amor-impossivel.mp3
Possível ou impossível?!?!?

11 – Logo de Cara
Tá vendo porque eles mereciam uma lista exclusiva?

10 – Balada Triste
Até releitura de bolero os caras fazem.

9 – O Girassol
“O sorriso se foi / Minha canção também / Eu jurei por Deus / Não morrer por amor / E continuar a viver”. Vale breguice? Vale também.

8 – Boneca de Cera
Como dói a indiferença.

7 – Campos, Praias e Paixões
Esta não fala de alguma paixão em específico, mas de paixões em geral.

6 – Mudança de Comportamento
“Eu morreria por você”, isto é que é uma frase forte!

5 – Culto de Amor
Ira2Com o decorrer da carreira eles foram focando mais ainda em temas românticos, a ponto de lançarem um disco chamado “Isto é amor!”, fazendo somente versões de músicas de outros artistas com o tema. Obs.:a Negra Li fez uma versão desta música que ficou muito boa também, veja/ouça aqui.

4 – Tolices
Esta é uma das minhas favoritas. Amor platônico total.

3 – Tarde Vazia
É bom de vez em quando ter alguém que faça valer o dia apenas com uma ligação telefônica.

2 – Tudo de Mim
Acho que todo mundo já passou pela cena descrita na música.

1 – Eu Vou Tentar
Esta é uma das músicas mais bonitas que eu já ouvi, e em conjunto com o maravilhoso clip dirigido pelo Selton Mello, para mim é o melhor clip nacional já feito. A atuação e a emoção dos atores durante o vídeo (especialmente na hora do reencontro) é de arrepiar. Sem contar a TL que é para deixar qualquer um apaixonado também!

Be happy 🙂

O Capital – Volume 1 – Karl Marx (18/2014)

O Capital

Uma das várias teorias que eu tenho é a de que o Marxismo, assim como todas as suas vertentes, é uma religião. Outro dia até assiti à uma entrevista do Eduardo Jorge onde ele mesmo afirmava isto. Por isto sempre tive a curiosidade de entender o porque dos adeptos da ideologia terem tanta fé nela, mesmo com todos os males que a aplicação prática da doutrina de Marx causou ao longo da história.

Este foi o principal motivo para eu ler este livro, e garanto que o fiz com a cabeça o mais aberta possível.

Bem, o primeiro ponto a se considerar é que é um livro chato para caramba! É cansativo de ler, por ser muito repetitivo e conter muitas notas de rodapé.

É importante considerar que o livro foi lançado em 1867, contando ainda com mais 2 edições revisadas pelo próprio autor e uma versão final, de 1893, revisada pelo seu amigo Friedrich Engels e por sua filha, Eleanor Marx. Como todo livro, é importante ressaltar que ele reflete a sociedade do seu tempo, então é errado dizer que “Marx estava errado!”, já que, além de ser uma obra teórica, ela está relacionada ao tempo em que foi escrita, então muita coisa que ele escreveu fazia muito sentido para aquele momento histórico.

Uma característica importante do livro é a “arrogância” de Marx: ele simplesmente escarnece tudo o que vai contra o seu pensamento. Existem pontos em que só falta, tal qual Dante, criar um “inferno” para colocar aqueles que discordam dele ou dos quais ele discorda. Ele não considera, em nenhum momento, a possibilidade de de sua teorias não serem as mais corretas quando comparadas com outras.

Eu sempre achei que o capitalismo, como modelo econômico e de produção, é o que mais se adapta à natureza do homem de diferenciação perante os seus pares. Em determinado ponto do livro, ele mesmo admite que a acumulação de riquezas é da natureza humana.

Um outro ponto interessante é quando ele avalia que o ser humano tem como “missão” trabalhar em prol da sociedade e criar outros seres humanos que venham a trabalhar em prol da sociedade. Ou seja, uma pessoa que trabalha, deve trabalhar para manter o funcionamento da sociedade e para se procriar, afim de que sua prole seja a sua reposição, quando este já não puder oferecer sua força de trabalho. Sei lá, me pareceu meio que tratar o ser humano como “gado”.

Ele bate muito na tecla de que o que traz valor às mercadorias produzidas é a energia física do trabalhador, o que me faz pensar se ele, como filósofo, imaginava se produzia ou não algum valor, já que não aplicava sua força física e sim seu intelecto.

Engraçado notar também que ele usa várias vezes as sociedades indianas e chinesas, que se organizam em pequenas comunidades autosuficientes, como modelo ideal de sociedades, e analisar o nível de desenvolvimento atual destas sociedades em relação às sociedades capitalistas.

Em determinado ponto ele afirma que foram os avanços tecnológicos que aceleraram o processo de industrialização e não o contrário, o que me leva também a pensar se ele acharia melhor que não existissem estes avanços afim evitar a industrialização da sociedade.

Já na parte final do livro, onde ele discorre sobre algumas leis promulgadas na Inglaterra afim de garantir direitos básicos dos trabalhadores, como jornada de trabalho menor, proibição do emprego de menores, etc ele crítica as mesmas leis que estavam reduzindo o que ele havia criticado durante todo o livro, com o argumento de que os empresários com mais capital conseguiriam assimilar mais a redução da margem de lucro, o que iria prejudicar os empresários com menos posses.

Como disse, o livro é temporal e reflete aquela sociedade, mas uma presuposição errônea que eu creio que ele tenha cometido foi decretar que o capitalismo já havia atingido a maturidade. O capitalismo mudou muito desde então e, se comparado com a teoria dele, já nem seria classificado hoje como capitalismo.

Mas não dá para negar que, muito provávelmente algumas de suas teorias tenham sido responsáveis justamente por moldar a forma atual do capitalismo.

Devido à complexidade do livro, provavelmente não lerei os outros dois volumes, mas fiquei com a curiosidade de ler “O Manifesto Comunista”, já que “O Capital” é um livro mais “técnico”, por assim dizer, onde ele apenas explana teorias e casos, sem dizer como ele imaginaria uma sociedade ideal.

Mas vai ficar só para o ano que vem, já que este me tomou muito tempo e eu tenho, pelo menos, mais uns 10 livros me esperando na estante, ávidos para serem lidos.

Be happy 🙂

Músicas e histórias de vida e morte

legiaoComo a maioria dos trintões e quarentões brasileiros, eu fui introduzido ao Rock através das bandas nacionais dos anos 80, especialmente Legião Urbana e Ira!. Lembro que com um dos meus primeiros salários, lá em 1991, eu comprei um walkman (os newbies nem vão saber o que é….hehehe) e as fitas do primeiro e do segundo disco da Legião Urbana, que eu ouvia praticamente o dia todo.

Passados alguns anos, especialmente com o advento da Internet, eu acabei tomando contato com todo tipo de música, do mundo todo, e acabei deixando a Legião Urbana meio de lado, ouvindo esporadicamente, muito mais por memória afetiva do que pela qualidade das músicas e letras. O Ira! sempre continuou sendo minha banda de cabeceira.

Eu sempre estranhei que estas duas bandas (uma que acabou no final dos anos 90 e a outra que teve uma longa pausa, voltando recentemente) sempre renovou seu público e achava estranho que a molecada de 15, 20, 25 anos, que não teve as mesmas referências que a minha geração teve, curtissem estas bandas. Até porque elas não tocam muito em rádio e existem várias bandas da mesma geração que sempre permaneceram na ativa (Titãs, Paralamas do Sucesso e Capital Inicial) que não têm tido o seu público renovado. É só dar uma volta na Galeria do Rock, em São Paulo, para ver inúmeros adolescentes vestindo camisas da Legião Urbana. Ou ir em algum show do “reativado” Ira! para ver que mais da metade do público é de pessoas com menos de 30 anos.

Porém, há algumas semanas, por coincidência às vésperas do meu aniversário, eu estava ouvindo meus MP3s de Rock Nacional e, por sempre ouvir as músicas na sequencia, “a ficha caiu”.

Apesar de algumas composições terem mais de 30 anos e fazerem muitas referências à períodos que os mais jovens desconhecem, na verdade, ouvindo na sequência é como se fosse um livro, que conta a história de vida das bandas e seus respectivos artistas, suas histórias, suas fases de bonança, suas tragédias, e no caso da Legião, temos até um requiém, já que os dois últimos discos da banda foram feitos com o Renato Russo bem debilitado pela doença.

Ouvindo na sequência conseguimos identificar o período de rebeldia adolescente (Geração Coca Cola, Eu Era Um Lobisomem Juvenil e Ninguém Entende Um Mod!), a descoberta e perda do primeiro amor (Ainda É Cedo e Efeito Bumerangue), as incertezas da “fase do exército” (Soldados e Núcleo Base).

Depois a difícil tarefa de “virar gente grande” (Meninos Da Rua Paulo e Eduardo E Mônica), a realidade de ter que trabalhar para ganhar o pão de cada dia e a indecisão sobre o que fazer para isto (Fábrica,  Cabeças Quentes e Farto Do Rock’n’Roll), o envolvimento com drogas (Há Tempos e É Assim Que Me Querem) e até a vontade de deixar o mundo (Difícil É Viver).

A perda de um jovem amigo também é retratada (Feedback Song For A Dying Friend, Love In The Afternoon e Vida Passageira), bem como as incertezas acerca dos sentimentos (Te Odeio (Isto É o Amor), Na Minha Mente, Acrilic On Canvas e Andrea Doria)

Sem contar todas as músicas ligadas à política como Metrópole, Que País É Este, Receita Para Se Fazer um Herói, Pegue Essa Arma, Arrastão e tantas outras.

Um trecho que sempre me chama a atenção é a versão do Acústico da MTV da canção Mais do Mesmo, que tem um trecho que diz “enquanto isto / na enfermaria / todos os doentes / estão cantando / sucessos populares”, quando ao final da canção o Renato Russo, que a esta altura já sabia que havia contraido o vírus do HIV, solta: “…na hora da enfermaria ficou uma coisa assim…me lembrei de uma porção de coisas que estão acontecendo. Não se esqueçam sempre crianças: safe sex or no sex at all! Entendeu? Sexo seguro! Pode fazer tudo, contanto que seja com camisinha! Isto é importante de lembrar!”. Mas o requiém dele foi em A Via Lactea, do disco “A Tempestade”.

Creio que os mais jovens conseguem contar suas próprias histórias através das músicas destas duas grandes bandas. A história da Legião, que teve começo, meio e um fim precoce. E a história do Ira! que me resta torcer para que o fim esteja bem distante.

P.S. – Creio que com o Rush aconteça a mesma coisa.

Be happy 🙂

Ira