Arquivo mensal: outubro 2014

Wanderlust #14 – Liverpool – Inglaterra

Liverpool 1É claro que estando na terra da Rainha não poderia deixar de ir conhecer Liverpool, a meca de todo beatlemaniaco (que eu havia me tornado alguns anos antes). Depois dos 3 dias em Londres, na segunda feira de manhã fiz minha primeira viagem de trem até Liverpool.

Liverpool 2Vale ressaltar que a primeira experiência viajando de trem na minha vida foi muito boa. É uma pena que não tenhamos no Brasil trens ligando as nossas principais cidades. A viagem as vezes se torna mais rápida, já que não se perde tempo chegando duas horas antes no aeroporto, passando por raio X, depois aguardando as bagagens, etc e além disto é muito mais confortável, já que o trem é mais espaçoso, existe geralmente o vagão restaurante e não se sofre com os solavancos (inevitáveis em viagens longas).

Eu fui imaginando que Liverpool seria uma cidade meio interiorana, mas me surpreendi com o tamanho e o desenvolvimento da cidade. Localizada na costa oeste da Inglaterra, Liverpool é uma cidade industrial e portuária. Por ser uma cidade costeira, há algum tempo atrás era “infestada” de um tipo de pássaro parecido com gaivotas conhecido como Leever e a região era conhecida como leever pool (pool pode ser um conjunto ou agrupamento, além de ser piscina, em inglês), ou seja, era um lugar cheio de leevers, que mais tarde acabou sendo chamado de liver. Portanto, o nome da cidade não significa “piscina de fígado” como seria na tradução literal mais fácil. A ave é o símbolo tanto da cidade quanto do mais famoso time da cidade e um dos maiores do mundo.

Liverpool 3Como aprendi a fazer nas viagens, na chegada, debaixo de uma fina garoa, fui dar uma volta na cidade para fazer o reconhecimento e descobrir o que fazer (fora o Magical Mistery Tour e o Museu dos Beatles, que já tinha programado) e comer algo e me surpreendi com uma cidade bem grande e moderna (mais moderna do que Londres). Fiz um reconhecimento no centro e vi que tinha bastante coisas para fazer, então voltei para o hostel para tomar um banho e na sequencia ir tomar umas cask ales no pub que tinha do lado.

No outro dia acordei bem cedo e fui fazer uma visita ao Museu de Liverpool, que fica bem próximo à Albert Dock e ao museu dos Beatles, de onde sairia a Magical Mistery Tour. Nesta visita ao museu eu aprendi que, se possível, a primeira coisa a ser feita em uma cidade que você está conhecendo é ir em um museu que conte a história da cidade e de seu povo.

Casa onde o George Harrison cresceu

Casa onde o George Harrison cresceu

Depois de visitar o museu, fui comprar o ingresso para o Museu dos Beatles e o Magical Mistery, mas como o passeio seria só à tarde, aproveitei para almoçar e dar um passeio na Albert Dock, que é uma construção antiga que abrigava fabricantes de barcos e insumos para pesca (peças de barco, redes, etc) e que hoje funciona como uma galeria de arte.

Depois do almoço, viria a “tarde Beatles”. O museu dos Beatles é bem montado, contando toda a história desde a época do Quarrymen (primeira banda do Lennon) até o final da banda e fazendo uma rápida passagem pelas vidas dos 4 rapazes mais famosos da cidade após o fim dos Beatles. Para quem quer conhecer mais sobre a história da banda vale a pena perder umas 3 horas lendo cada uma das descrições constantes nos objetos expostos. Ao final, como sempre acontece lá fora, existe um gift shop que, sem o devido cuidado, pode significar uma dor de cabeça na hora de pagar a fatura do cartão e de fechar as malas.

Após o museu, veio o Magical Mistery Tour, que é feita num ônibus similar ao existente na capa do disco de mesmo nome. A tour passa por diversos lugares citados em canções (Penny Lane, Strawberry Fields, Sgt Peppers pub, etc) e por alguns pontos importantes na carreira da banda (o igreja onde o Quarry Men se apresentava, as casas onde os membros nasceram e/ou viveram) e termina na Matthew Street, a rua bohêmia da Liverpool da década de 60.

Strawberry fields forever!

Strawberry fields forever!

Na Matthew Street se encontra o Carvern Pub e o Cavern Club. Muita gente sabe da existência do Carvern Club, por ser o bar onde os Beatles despontaram para o sucesso, mas pouca gente sabe que em frente existe um pub irmão, chamado Cavern Pub, que é mais antigo e que antes do início do sucesso era o principal palco dos Beatles. Nos dois bares, à partir das 10:00hrs da manhã até as 3:00hrs da manhã do outro dia é possível assistir diversas bandas tocando, com repertório focado obviamente em Beatles (no Cavern Pub tem um pouco mais de variação, mas no Club basicamente é só Beatles). Em ambos os bares também convém tomar cuidado com os souvenirs.

Como de praxe lá fora, não existe couvert para entrar em nenhum dos bares e você pode, se quiser, ficar alternando entre os bares a noite inteira. O clima também é muito legal e com gente do mundo todo. Só não se empolgue demais para não fazer como eu fiz, que tomei um dos maiores porres da minha vida no Cavern Club (cheguei até a perder o caminho do hostel…hehehe).

Cavern Pub

Cavern Pub

No outro dia, mesmo tendo chegado tarde e acordado de ressaca, acordei cedo e fui dar uma volta na parte central da cidade que eu não havia visitado ainda. Na parte da tarde rolou o passeio em Anfield, o lendário estádio que é casa do Liverpool FC. O estádio é simples, se comparado com as modernas arenas de clubes ao redor do mundo, porém é bem montado considerando-se o espaço do terreno e aparenta oferecer bastante conforto para o expectador. Interessante notar a simplicidade do vestiário: alguns bancos de madeira e ganchos na parede para os jogadores pendurarem seus uniformes. Nada de armários, espelhos, etc. Como disse o guia: “aqui nós temos jogadores de futebol, não estrelas do rock”. O museu também é legal e a loja do clube é outro lugar onde o mais aficcionado pode acabar gastando demais.

Após o passeio, voltei ao centro (Anfield fica num bairro periférico, acessível facilmente de ônibus), dei mais uma volta e fui descansar um pouco, já que a noite iria curtir novamente os Caverns Pub e Club, já que não é sempre que se pode estar em um lugar histórico como este.

Cavern Club

Cavern Club

No outro dia, acordei cedo para me dirigir à Manchester, onde pegaria o vôo para Dublin. Havia programado o trem de Liverpool para Manchester bem cedo (8:00 da manha) e o vôo para a parte da tarde (15:00 hrs), afim de colocar a mochila em um armário e dar uma volta pela cidade, porém além de estar chovendo muito, estavam ocorrendo aqueles protestos e manifestações violentas que ocorreram na Inglaterra em Julho de 2011. Ainda bem que havia comprado alguns livros em uma ótima livraria que havia encontrado em Liverpool e assim pude passar o tempo.

Próxima parada: Dublin, um dos lugares do mundo que eu tinha mais vontade de conhecer!

Observações, dicas e considerações:

  • Em Liverpool chove muito. Um dos seguranças do hostel me disse que dois dias seguidos sem chover é coisa rara de acontecer e que eu dei sorte por pegar dois dias lá sem uma gota de chuva (choveu quando eu estava chegando e quando estava saindo).
  • Anfield

    Anfield

    Um dos recepcionistas do hostel havia morado em Mato Grosso como missionário durante 6 meses, porém falava muito pouco português. Ele perdeu uns 30 minutos tentando lembrar e me explicar sobre uma comida que ele amava, no final descobri que era coxinha , que ele pronunciava algo como “coc-xina”.

  • O Liverpudlian (como são conhecidos os moradores) são considerados caipiras na Inglaterra e o sotaque realmente é bastante complicado, mas eles são muito simpáticos e receptivos. Assim como os Berlinenses faziam, era só você abrir o mapa na rua e alguém parava perguntar se você estava perdido.
  • Em Londres não havia conhecido ninguém no hostel, o que me decepcionou. Já em Liverpool conheci todo mundo que estava no mesmo quarto (um casal italiano e mais 3 espanhois: uma menina e dois caras) e mais um argentino que vivia na espanha. Engraçado que o casal italiano e os 3 espanhóis estavam morando no hostel, pois eles estavam trabalhando na cidade.
  • Liverpool 9Além do Magical Mistery Tour, existem taxistas que fazem basicamente o mesmo percurso (e se combinar, alguns pontos adicionais), com a vantagem que você pode ficar mais tempo nos locais.
  • Para os brasileiros que estão com saudades de casa, existe uma churrascaria chamada Bem Brasil, bem próximo à Albert Dock, que apesar de ser um pouco cara é bem honesta no quesito comida.

Top Top #15 – Músicas Românticas – Paul McCartney

PauloveQuando estava montando a lista original de love songs eu me deparei com um grande problema, que era limitar para não ficar uma lista muito grande e tentando “limar” algumas músicas eu percebi que muitas do Paul McCartney não poderiam ficar de fora. Então resolvi criar um “spin off” somente com músicas românticas escritas ou interpretadas por ele (ou pelo Wings) na sua fase pós Beatles.

Claro que não poderia deixar de frisar a grande musa inspiradora dele, que pra mim é o melhor artista de todos os tempos: Linda McCartney. Um detalhe interessante é que, quando ele formou o Wings ele fez questão de tê-la na banda, pois não queria ficar em turnê sem ela por perto. É o típico nepotismo totalmente justificável e que talvez seja responsável por muitos clássicos. Então sem mais delongas, seguem as 20 melhores canções românticas do Paul:

20 – Winter Rose/Love Awake
Eu acho legal este ar meio barroco que o cravo deu à música

19 – Beware My Love
Clima meio “The Mamas & The Papas” em um clássico do Wings

18 – This Never Happened Before
Esta é uma composição mais recente pra mostrar que o “tiozinho” ainda não perdeu a mão.

17 – Only Love Remains
Ao final só o amor permanece. A letra é muito boa, mas a melodia desta música é fantástica e é uma das minhas preferidas da carreira solo do Paul.

16 – So Bad
Eu acho que uma versão desta música com a Kátia, Jane & Herondi, ou qualquer artista romanticobrega dos anos 80 iria ficar muito boa!!!….hahaha

15 – Letting Go
“ah, ela tem sabor de vinho / tal um ser humano tão divino / oh, ela é como o sol / mãe Natureza, veja o que você fez”!

14 – You Gave Me The Answer
Acho que esta música deve ser sobra do Sgt Peppers ou o Yellow Submarine.

13 – She’s my baby
Ok! Eu detesto casalzinho se tratando como criança, inclusive chamando de “meu bebê”. Mas a música é legal.

12 – Little lamb dragonfly
Meio brega chamar de “carneirinho” e “minha libélula”, mas tá valendo.

11 – Medley: Hold Me Tight / Lazy Dynamite / Hands Of Love / Power Cut
Um belo medley de músicas para apaixonado nenhum botar defeito.

10 – With a Little Luck
As vezes o negócio é contar com a sorte

9 – Tomorrow
Por que se preocupar tanto com o amanhã?

8 – Dear Boy
Esta é a famosa “só dá valor depois que perde”….hahaha

7 – The Lovely Linda
Acho que a Linda McCartney foi a musa que mais inspirou músicas na história (mas a Pattie Boyd inspirou dois compositores: Eric Clapton e George Harrison)

6 – Treat Her Gently/Lonely Old People
A receita para se envelhecer ao lado da pessoa amada

5 – No More Lonely Night
É à noite que os corações solitários mais sofrem…

4 – When The Night
…mas também é à noite que as paixões acontecem!

3 – Silly Love Songs
As canções de amor geralmente são bobas! Mas não deixam de ser importantes e belas.

2 – I am your singer
Pra quem é apaixonado por música você falar para alguém “você é uma música e eu sou o seu cantor” é a maior declaração de amor possível. Imagina para a Linda que ouviu isto do Paul!

1 – My Love
Declaração maior de amor é impossível. Para quem acompanha séries, esta foi a música com a qual a Monica e o Chandler, de Friends, se casaram.

Be happy 🙂

Paulove

Paul e sua musa inspiradora: Linda McCartney.

A democracia, a liberdade de expressão e o direito (ou não) de falar besteira

LevyFudelix

E tenho a teoria (mais uma!) que um dos grandes responsáveis pela incapacidade do brasileiro de analisar fatos e tomar decisões baseadas nos seus próprios conceitos são dos professores de ciências sociais, que na ânsia de promover uma doutrinação de esquerda, ao invés de ensinar os alunos a analisar fatos e tirarem suas próprias conclusões, fazem com que os brasileiros fiquem acostumados a receberem opniões prontas e as adotarem (mas isto é tema para outro artigo). Um grande exemplo é o conceito que a maioria dos brasileiros têm de democracia e um dos seus principais pilares: a liberdade de expressão.

O brasileiro comum faz uma mistura danada sem entender realmente o conceito de democracia. Democracia, segundo o conceito que boa parte dos brasileiros têm, é que a vontade da maioria deve se sobrepor à dos demais. Mas na verdade, a democracia é apenas um meio de gerenciar a discordância em temas que afetam a sociedade ou grupos dentro desta sociedade.

Ou seja, se a pessoa faz algo que afete somente a vida dela, não é o Estado que deve interferir.

Vamos exemplificar: reza a lenda que a palavra “fuck” (opa! Agora vai bombar o post!!!!…hahaha) é o acrônimo para “Fornication Under Consent of King” (fornicação sob consentimento do rei), que seria um aviso grudado na porta dos casais cujo Rei havia permitido que praticasse sexo (para fins de procriação). Na idade média, os Reis eram os donos de tudo o que havia no reino, inclusive das vidas dos seus súditos. Então (e isto não é lenda) eles determinavam até quando as pessoas iriam se procriar e inclusive se davam o direito de serem os primeiros a “experimentarem” cada mulher do reino.

Com o avanço das sociedades, “descoberta” da democracia e a evolução desta, chegou-se à conclusão que o Estado não deveria intervir em questões de foro íntimo dos cidadãos, desde que estas questões não inteferissem na vida de mais ninguém.

Seguindo pelo mesmo caminho, o do sexo, a democracia funciona da seguinte maneira: se duas pessoas praticam o ato sexual, de forma consensual, não é papel do estado intervir, já que isto não afeta a vida da população como um todo. Então se um homem trepa com uma mulher, ou mesmo que seja um homem com homem ou uma mulher com outra mulher, o ato só irá interferir na vida daquelas duas pessoas que, de livre e espontânea vontade, praticaram o ato.

Porém, se o ato sexual ocorreu entre duas pessoas sem o consentimento de uma delas (estupro), ai sim o Estado deve intervir. Ou se o ato aconteceu entre alguém com suas plenas capacidade mentais e intelectuais com alguém que não as tenha (menor de idade, deficientes mentais e mesmo pessoas que estejam incapacitadas momentaneamente, inclusive por álcool e outras drogas), ai o Estado deve interferir para proteger estas pessoas.

Agora vamos à questão da liberdade de expressão. É facultado à todo cidadão, em uma democracia, expressar o seu pensamento livremente. Porém, voltando ao ponto de que, você é livre para fazer o que quer desde que não prejudique alguém, que é um dos pilares da democracia (lembra quando sua mãe falava que “o seu direito termina quando começa o do outro”?), você pode expressar o que desejar sem prévia censura, só que, se alguém ou algum grupo se sentir prejudicado ou ofendido por aquilo que você falou, e se a justiça considerar que realmente aquilo causou algum constrangimento ou prejuízo, você irá pagar por isto.

A Liberdade de expressão quer dizer que ninguém vai cercear seu direto de se expressar, porém, também quer dizer que, se você falar algo que prejudique alguém, você terá que ser responsabilizado por isto.

Então agora vamos ao ponto principal: há algumas semanas atrás, em um dos debates entre os candidatos à presidencia que ocorreram antes do primeiro turno, o então candidado Levy Fidelix fez um discurso onde ele expressou toda a sua homofobia em rede nacional.

Ele ser homofóbico é todo um direito dele. Como é direito de qualquer cidadão não gostar de alguém por conta da etnia, do local de origem, de faixa etária, de gênero, etc. É um problema totalmente individual e o Estado não deve inteferir nisto.

Porém, e voltando ao assunto inicial, é problema do Estado quando isto interfere na vida de outras pessoas. O discurso do Levy Fidelix, que foi digno da caneta de Goebbels e do discurso de Hitler, por mais que fosse a livre expressão das idéias dele, vem a prejudicar outras pessoas, e no caso todo um grupo de pessoas. Quando ele fez aquele discurso dizendo que os homossexuais deveriam ser isolados e tratados (qualquer semelhança com os campos de concentração nazistas não é mera coincidência), desperta uma situação que exalta os animos agressivos (para ser “leve”) de quem não gosta de homossexuais e acaba por colocar os homossexuais em risco. E ai, voltando àquele ponto de que, enquanto você não atinge outro, você pode fazer o que quiser, o candidato Levy Fidelix colocou em risco a integridade física de pessoas.

É engraçado que muitas pessoas gostam de usar os Estados Unidos ou a Europa como parâmetro na área econômica e em questão de desenvolvimento, mas estas mesmas pessoas pregam um discurso totalmente contrário à estes países no que se refere aos direitos humanos, liberdades individuais e a tolerância. E boa parte delas sairam em defesa do Levy Fidelix, alegando a liberdade de expressão para defender o discurso e até para praticarem discurso iguais.

Conheço bem os EUA e conheço um pouco a Europa e se um discurso igual ao dele fosse proferido em rede nacional nos EUA e em boa parte da Europa Ocidental, ele sairia algemado do local do debate e já impugnado para as eleições. Na Alemanha então, uma “democracia cristã”, como gostam de usar como exemplo ideal de país os “cristãos fundamentalistas”, ele simplesmente estaria preso até agora e sua carreira política teria se acabado naquele momento.

Como bem disse a amiga Gisele Berto, naquele momento ele passou da categoria de caricato, a do “candidato do aerotrem”, para a categoria dos canalhas.

Meias verdades e mentiras por inteiro: o auxílio reclusão

Auxilio ReclusaoTrabalho com TI há mais de 20 anos e tive a oportunidade de ver o nascimento da Internet no Brasil. Como um consumidor voraz de todo tipo de informação eu imaginava, época o tanto de oportunidades que seriam criadas com o acesso fácil, amplo e praticamente gratuíto à informação. Não que antes da Internet fosse impossível ter este tipo de acesso (em menor escala, óbvio), já que as bibliotecas, jornais, revistas e livros sempre existiram. Porém eu imaginava que, com a facilidade de não precisar nem se deslocar e conseguir acesso à informação através de um clique, uma sede por conhecimento talvez surgisse nas massas e que, consequentemente, isto se transformasse em infinitas oportunidades de desenvolvimento da nossa sociedade.

Passados alguns anos da disseminação do acesso à internet no Brasil, é triste constatar que as pessoas ainda abrem mão de ter informação e conhecimento. Para piorar, ainda utilizam esta ferramenta para disseminar ódios e preconceitos e para repetir e propagar algumas inverdades sem ao menos “perder” alguns preciosos minutos para verificar a informação, analisá-la e ai sim, tirar suas próprias conclusões. Ao invés disto, as pessoas preferem adotar opniões alheias pela simples preguiça de buscar mais informações. Porém, já diria Nietzche, em Assim Falou Zaratrusta: “Melhor ser um louco segundo os próprios critérios, do que sábio segundo o critério dos outros”.

Pensando nisto, resolvi pegar algumas inverdades que circulam na internet e fazer uma pesquisa sobre cada um dos assuntos, afim de trazer um pouco de embasamento para a formação primeiramente de minha opnião, e que agora pretendo compartilhar (e cada um que tire suas conclusões). Como ficaria um texto muito longo, eu vou dividir em vários artigos com temas específicos. Por enquanto tenho 4 temas já programados. Se tiverem algum e quiserem me sugerir, eu agradeceria, já que minha curiosidade é grande.

Um dos vários boatos, que também é carregado de ódio e preconceito, que circula na internet, especialmente nas redes sociais, é a que se refere ao “bolsa bandido”, “bolsa vagabundo” e outros nomes pejorativos que dão ao benefício do Auxílio Reclusão.

Bem, primeiro vamos contextualizar: o Auxilio Reclusão é um benefício do INSS. INSS signifca Instituto Nacional de Seguridade Social. Como o próprio nome diz, este órgão é um instituto de seguro, semelhante a diversas empresas seguradoras existentes na iniciativa privada. O INSS em específico, visa proporcionar à população brasileira benefícios que as demais seguradoras de mercado, por opção, não proporcionariam, ou mesmo para atender segurados que estas seguradoras não têm interesse em atender. Além disto, alguns benefícios são de exclusividade do INSS e não podem ser oferecidos por nenhuma outra seguradora.

No caso do Auxilio Reclusão, ele é também um benefício do INSS, ou seja, é um seguro que permite que a familia do segurado receba um benefício, caso este esteja impossibilitado de prover-lhes o sustento, pelo fato de estar preso. Este tipo de seguro é muito comum em outros países, sendo oferecido por praticamente todas as operadoras de seguro do mercado e adquirido especialmente por profissionais que correm um risco maior de sofrerem ações penais (cirurgiões por exemplo). Não consegui descobrir o porque de, no Brasil, o INSS ter o monopólio deste tipo de seguro, não permitindo que ele seja oferecido por nenhuma seguradora privada.

Para ter direito a um benefício originado de um seguro, o segurado paga à seguradora um prêmio, ou seja, o segurado “premia” a seguradora por esta assumir um determinado risco. Isto também acontece no Auxílio reclusão. A pessoa, para ter direito ao benefício, precisa pagar este prêmio, que no caso do INSS acontece ou por meio de desconto em folha, para os profissionais que tenham carteira assinada, ou através do pagamento do carnê do INSS, para os demais profissionais. Atualmente, cerca de 40500 famílias utilizam-se do benefício. Dentro de uma população carcerária de aproximadamente 550 mil presos, isto corresponde a aproximadamente 7,4% das famílias dos detentos.

O benefício é concedido aos familiares do segurado e visa proporcionar à estes (esposa, filhos, pais, ou qualquer outro dependente legal) uma fonte de sustento, caso estes sejam dependentes do segurado, no caso da impossibilidade da continuação do trabalho, pelo motivo de condenação e detenção do segurado.

O valor para toda família é calculado com base no valor e tempo de contribuição de INSS por parte do segurado e tem um teto de R$ 971,00, que é corrigido com base no salário mínimo.

Este benefício foi criado há mais de 50 anos e incluido na Lei Orgânica da Previdência Social – LOPS (Lei nº 3.807, de 26 de agosto de 1960) e foi mantida para na Constituição Federal de 1988.

Estes são os fatos objetivos do Auxílio Reclusão, que, como podemos perceber, são omitidos ou distorcidos neste hoax que roda há anos pela internet.

Agora vamos a algumas considerações pessoais.

Levando-se em conta que só tem direito ao benefício quem contribui com o INSS e, pelo que eu saiba, “bandido profissional” ainda não tem carteira assinada (ainda!). O benefício vai chegar à família do trabalhador que, por uma besteira ou infelicidade, cometeu algum crime e deve pagar por isto. Porém, somente ele deve pagar pelos seus atos e não se deve condenar, por tabela, esposa, filhos, pais, ou quaisquer outros que dependam dele.

Infelizmente não encontrei dados sobre o tipo de pena que estes beneficiários cumprem, mas como um palpite eu duvido muito que existam latrocidas, assaltantes de banco e grandes traficantes entre eles. E como palpite, creio que a maioria sofreu condenações por furto, crimes relacionados ao transito ou crimes passionais. Eventualmente pode ter algum usuário que acabou “rodando” por portar uma quantidade maior de drogas do que o delegado achou que ele deveria.

O benefício é concedido à familia do detento. Ou seja, visa proporcionar aos familiares que perderam sua fonte de sustento, um meio de se manter. Entendo que é melhor conceder um benefício (que como já explicado, é um direito, pois já foi pago) a alguem que era sustentado por uma pessoa que cometeu um erro e deve pagar por isto, do que deixar estes dependentes à mercê da sorte, ai sim, correndo o grande risco de jogá-los à marginalidade.

Um dos argumentos dos detratores do Auxilio Reclusão é de que o criminoso recebe um auxílio (novamente, é um seguro!), enquanto a família da vítima (já supondo que todos sejam assassinos) fica à merce da sorte. Na verdade, a família da vítima, caso esta seja beneficiária do INSS, também tem direito a solicitar o auxílio por morte.

O valor não é por filho. O valor é um só, independente de filhos, e é relativo ao valor e tempo com que o beneficiário titular contribuiu com o INSS. Os tais quase mil reais É O VALOR DO TETO. O valor médio pago em 2013 foi de R$ 727,00.

Agora o argumento que eu acho mais estúpido usado pelos detratores é de que compensa mais roubar do que trabalhar, já que o benefício é maior que o salário mínimo. Bem, bandidos de carreira com certeza ganham muito mais do que um salário mínimo e mesmo mais do que o teto do Auxílio Reclusão, então não faria sentido cometerem crimes para serem presos e receberem o benefício (e como disse, não creio que eles tenham carteira assinada ou paguem carne, então não teriam direito). Não creio que exista um único caso deste tipo, de alguém cometer um crime somente para ser preso e obter o benefício, mas supondo que exista algum caso, imaginem o desespero pelo qual está passando uma pessoa que abre mão da sua liberdade para prover míseros R$ 900 reais para a sua familia!

Uma das várias imagens que circulam na internet com pouca informação e muito preconceito.

Uma das várias imagens que circulam na internet com pouca informação e muito preconceito.

 

Botecando #32 – Centro Cultural Rio Verde – São Paulo – SP

20141012_202235Domingo é um dia geralmente chato (para mim mais do que a segunda feira). Normalmente você já acorda tarde (e de ressaca), pois foi dormir tarde no sábado, perdendo metade do dia. Depois fica numa preguiça, resolve almoçar as 3 da tarde e vê que o dia foi praticamente embora. Como na segunda é dia de acordar cedo para trabalhar, você geralmente se contenta a assistir a péssima programação de TV de domingo (impressionante, até na TV à cabo!) e ir dormir cedo para encarar o batente no outro dia. Porém, às vezes aparece um passeio de Trabi + Karaoke no Mauer Park, um show do Gilberto Gil ou o aniversário do filho de um amigo com rock ao vivo para fazer do domingo o melhor dia daquele final de semana. E existem domingos em que aparece um ensaio aberto do Clube no Balanço no Centro Cultural Rio Verde.

20141012_203218Vamos por partes e primeiro falar da casa.

Já tinha passado algumas vezes em frente ao Centro Rio Verde e sempre tive curiosidade para saber o que rolava lá. Ele fica na Belmiro Braga, naquela “região de resistência” da Vila antiga que eu falei neste artigo. É um espaço multicultural que foi aberto para promover shows de música, exposições e ser um espaço para eventos, etc.

A decoração é antiga e bem interessante, lembrando um cabaré. A casa conta com boa iluminação, um ótimo sistema de som e um sistema de ar condicionando bastante eficiente. Já curti a página no Facebook e parece que vários eventos interessantes acontecem no local, especialmente ligados as várias vertentes da música brasileira.

20141012_195208O Clube do Balanço eu já conhecia das domingueiras no Grazie a Dio que ocorriam há uns 6 ou 8 anos atrás e era uma das melhores de SP. A trupe do Marco Mattoli foi responsável pelo revival do Samba rock em SP que ocorreu há uns 10, 12 anos atrás. Impossível não notar a evolução da banda, que já era boa, tanto na qualidade individual dos seus músicos, quanto como conjunto.

Além disto a banda também conta com um público cativo que curte dançar o ritmo, é bonito, simpático. Uma galera “do bem” e que quer apenas ser feliz.

20141012_221619Você coloca dentro de uma casa muito legal, uma banda fantástica e um público muito bom, disposto a se divertir da melhor forma possível, então só pode render um ótimo domingo. Era impossivel não notar o sorriso no rosto das pessoas, dos próprios músicos (que estavam se divertindo muito!) e mesmo dos funcionários da casa. E também era impossível eu não abrir um baita sorriso por aquele momento de felicidade coletiva ao som do melhor do samba rock.

Infelizmente passeios de Trabi e shows do Gilberto Gil não são tão fáceis de acontecer em São Paulo, mas ao menos até o final do ano temos mais dois domingos salvos, pois o Clube volta a fazer ensaios abertos nos dias 09/11 e 14/12!

Onde: Centro Cultural Rio Verde (Rua Belmiro Braga, 119 – Vila Madalena – SP)
Quando: 12/10/2014
Bom: decoração, atendimento, público e Clube do Balanço!
Ruim: nada, foi tudo muito bom!
Site: http://www.centroculturalrioverde.com.br/ e http://clubedobalanco.com.br/

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Post #100!!!

dollarQuando comecei esta bagaça, há menos de um ano atrás, eu disse no meu primeiro post (aqui) que iria tentar escrever a cada 15 dias, pelo menos. E não é que eu peguei gosto pela coisa e cheguei no centésimo post!!!!!

Este espaço está servindo para que eu possa, em primeiro lugar, organizar minhas idéias (e olha que eu tenho muitas) de uma forma mais coerente (não que eu não fale muita besteira, mas estou aberto à criticas e correções). Mas também tem me ensinado a ser menos prolixo, mais direto e tem me ajudado até a melhorar minha capacidade de compreensão de textos que não os meus.

Alguns números deste período:

  • Até agora foram cerca de 4500 views, uma média de 450 por mês. Um número ótimo para quem não está em nenhum portal (ig, uol, etc) e conta basicamente com a audiência do Facebook e dos artigos eventuais da Feedback magazine.
  • Inicialmente eu tinha bastante views, mas depois que o Facebook, que é basicamente onde eu promovo o blog, mudou sua política de exibição de conteudo (isto ocorreu em março deste ano), a audiência aparentemente havia caido pela metade (comecei a receber a metade de “likes” que recebia, em média).
  • Mas olhando as estatísticas do blog para montar este post, eu acabei descobrindo que a audiência vem aumentando mês a mês:Audiencia
  • A categoria mais visualizada ao longo destes dez meses é a Botecando, onde eu faço resenhas sobre os bares que eu frequento.
  • A menos vizualizada, para minha tristeza e decepção, é a Literatura, onde eu faço resenha dos livros que eu li.
  • O post que sem dúvida “bombou” foi o Top Top de Músicas de Motel (é só colocar um “fuck” no título, que atrai), com cerca de 150 visualizações únicas nos dois primeiros dias!
  • Os posts que menos bombaram foram Dekanawidah: My Lessons Learned e Making A Good Place To Work, primeiro porque como eu estava viajando e deixei eles agendados, eles apareceram somente para algumas pessoas dos meus contatos e em segundo, acredito eu, por estarem em inglês.
  • O post das Fucking Songs foram os que mais bombaram no lançamento, mas existem dois posts que têm views quase todos os dias, com um leve aumento aos finais de semana, sendo eles os mais visitados no geral: o da Bella Augusta e do Bar da Dona Diva. A maioria destes “cliques” vêm do google. Como ambos os bares não têm site na internet, creio que a galera procura no google e acaba caindo no blog.
  • Descobri fazendo este blog que as pessoas, infelizmente, não gostam de textos mais longos. 500, 600 palavras é o limite para a galera ler (o equivalente a um page down). Acima disto simplesmente não lêem.
  • Atualmente as pessoas preferem mais assuntos mastigados e organizados em tópicos do que ler um texto “corrido”. Me chateia profundamente, pois eu detesto quando tentam expressar uma idéia apenas em tópicos.

Vamos ver até quando vai o meu pique de manter isto daqui. Pelo tanto de idéias que tem fervilhado pela minha cabeça ultimamente acho que tenho temas para um bom tempo ainda.

Be happy 🙂

 

Brasil do Norte, Brasil do Sul

mapaEu fiquei espantado semana passada com a polêmica sobre a entrevista que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso deu ao UOL, logo após a confirmação do segundo turno entre os candidatos Aécio Neves, do PSDB, e Dilma Roussef, do PT.

Primeiramente, para quem não ouviu a entrevista inteira, o reporter pergunta para o FHC analisar, como sociólogo que é, o eleitorado cativo do PT nos grotões do Brasil, se seria porque estas localidades seriam pobres. O FHC então disse que não é porque seriam pobres, mas porque seriam pessoas menos instruidas e/ou informadas, que a pobreza é consequência desta situação e população mal instruida é culpa do governo e não do próprio cidadão. Ele fez uma análise de que o PT vem perdendo votos nos bancos de faculdade e nas regiões industriais, que eram redutos Petistas, sem levantar críticas. A única crítica que ele fez na entrevista foi ao próprio PSDB, dizendo que o PT sabe falar com os menos instruídos, enquanto o PSDB precisa aprender a falar com pessoas com menor grau de instrução.

Ao contrário do que o título da reportagem e os compartilhamentos fizeram parecer, a crítica foi ao próprio PSDB, que precisa abandonar o “tucanês” para conseguir se comunicar com todas os extratos sociais. Talvez por não terem ouvido a entrevista toda, e talvez por desconhecerem o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, as pessoas entenderam que ele estava dizendo que “só burro vota no PT!”, mas passou longe disto. O FHC, como bom democrata que é, sabe que dentro de uma democracia, a vontade e desejo do anafabeto, expressado através de seu voto, deve ter o mesmo peso dos desejos de um pós Doutorado.

Talvez, até por conta do que ele mesmo disse sobre a dificuldade dos tucanos de falar claramente – além é claro da descontextualização da frase, as pessoas entenderam que o FHC estava pregando contra os pobres/desinformados. Porém, antes mesmo desta entrevista, já existiam nas redes sociais manifestações preconceituosas quanto à origem dos eleitores dos partidos. Era o pessoal pró-PT xingando os paulistanos de burros, por terem reeleito o Governador Geraldo Alckmin, eram os anti-PT xingando (até com ofensas racistas) os nordestinos/nortistas, pelo fato deles votarem no PT, ambos os lados numa clara prova de que o brasileiro ainda não entendeu o que é e não está acostumado a conviver com a democracia.

Para “piorar” o cenário, o ex-presidente Lula, em sua página no Facebook, se disse chocado com a onda de preconceitos contra nordestinos e “alfinetou” o FHC e ai eu pensei: pô, o Lula sempre pregou a luta de classes, depois mirou seus canhões contra a “classe média burguesa”, muitas vezes especificando “classe média burguesa sulista” e mais recentemente contra  a “elite branca paulistana”. Que moral ele tem para criticar a divisão de uma sociedade seja por qual critério for se ele mesmo, na ânsia pelo poder, sempre foi um dos que mais pregaram divisões, usando a tática de “dividir para conquistar”, ao invés de incentivar a união de todos por um bem comum?

Ai comecei a lembrar de alguns fatos históricos, em que os devotos de Marx sempre necessitaram de um “inimigo comum” com o intuito de conquistar e se manter no poder (será que porque o discurso marxista não tem sustentação própria?).  Lembrei de vários fatos, porém não vou perder tempo agora explicando, mas sugerindo alguns livros, que contam um pouco desta necessidade:  Dez Dias que Abalaram o Mundo, do jornalista americano John Reed (tem um breve resumo neste post); Adeus, China! de Li Cunxin e os clássicos obrigatórios “A Revolução dos Bichos” e 1984, de George Orwell.

Mas para exemplificar, basta citar nosso vizinho, a Venezuela, que ao mesmo tempo em que vende petróleo para os EUA, além de ter várias empresas americanas instaladas em seu território, gerando emprego e riquezas para o país, o tem como seu “inimigo comum” para que o governo “bolivariano” possa ter a quem atacar, quando for acusado de algo ou quando precisar simplesmente debater idéias e projetos.

Seria muito melhor para a democracia e a nação brasileira se o Lula, à exemplo de seus ex-companheiros Eduardo Jorge, que recentemente admitiu em uma entrevista ao canal Fluxo do youtube (veja aqui a primeira parte, as demais estão no relacionados) que a intenção da luta armada no Brasil não era derrubar a ditadura, mas sim instalar outra, que o PT sempre fez oposição inconsequente (inclusive dando exemplos) e que as ditaduras de esquerda foram (são) tão ruins como as de direita, e Luciana Genro, em entrevista ao mesmo canal (veja aqui a primeira parte, as demais também estão relacionadas), que admitiu que as ditaduras de Cuba, Russia, Leste Europeu e Coréia do Norte foram/são criminosas, fizesse seu “mea culpa” nesta divisão que recentemente se exacerbou no Brasil e é, em boa parte, culpa do discurso Petista, e tentasse pregar uma união em prol de um objetivo comum, de acordo com os desejos da maioria, como deve ser numa democracia.

Mas sei lá, acho mais fácil, em continuando esta divisão, ele (Lula) pregar a separação do país em Brasil do Sul e Brasil do Norte, para que ele possa sozinho, governar na parte que lhe coubesse. No que seria talvez a primeira concordância histórica entre PT e PSDB, já que o Serra também ficaria todo feliz em governar sozinho o Brasil do Sul.

P.S. Como meu pai é de Sergipe, acho que eu poderia pleitear a dupla cidadania 🙂

Tanto faz, é igual! Felizes são os peixes!

TantofazPrimeiramente gostaria de avisar que o post é desaconselhável para os torcedores de partido A ou B (ou para os que torcem contra A ou B).

Já havia decidido, antes mesmo da eleição começar, que só iria votar no segundo turno se alguém que não fosse do PT ou do PSDB que estivesse lá. Inicialmente havia a possibilidade do Eduardo Campos, e depois do falecimento deste, poderia ser a Marina Silva. Não porque tenha votado nela no primeiro turno, pois resolvi mudar meu voto para o Eduardo Jorge, mas por achar que a diferença entre PT e PSDB é pouca e por me recusar a votar em qualquer um destes dois partidos tão iguais (a não ser que o candidato em si me convença e nem Dilma nem Aécio conseguiram). Isto posto, é claro que surgiriam algumas perguntas dos meus três leitores, que tentarei “imaginar” quais seriam e tentarei responder.

Como são iguais se o PSDB é direita e o PT esquerda?
Para início de conversa, os dois partidos são originalmente de esquerda. O PT tem como origem o sindicalismo, ou seja, um esquerdismo mais “hard”, enquanto o PSDB tem como origem os bancos das faculdades, ou seja, um esquerdismo mais “light”. Figuras históricas de ambos os partidos lutaram juntos contra a ditadura militar e sofreram perseguições desta (o Lula foi preso, o Serra se exilou no Chile, para citar dois exemplos).

Como o PSDB é de esquerda se foram eles que privatizaram as estatais?
Um dos motivos pelo qual o PSDB nunca defendeu veementemente as privatizações que ocorreram (e tinham que ter ocorrido mesmo!), é justamente porque vai contra a ideologia deles. A diferença entre eles e o PT é que os tucanos são mais pragmáticos e estão mais propensos à concessões ideológicas, se enxergarem que é o melhor caminho a se tomar no momento.

Mas o Serra foi contra o aborto e a legalização das drogas, que são posições de direita!
O que ocorreu nos últimos 10 anos foi que o PT se moveu dentro do espectro em direção à centro-esquerda, que era a posição ocupada pelo PSDB (a tal esquerda light), o que fez com que o PSDB (erroneamente, pois deveria ter defendido posição) movesse em direção à direita, para fazer contraponto. Aliás, este é mais um motivo para eu não votar em nenhum dos dois: por causa da busca pelo poder eles mudam de posição ideológica muito facilmente.

Mas o PT quer implementar uma ditadura socialista no Brasil!
Quer nada. Eles já se renderam às maravilhas do capitalismo. A questão é que eles ainda precisam manter o discurso marxista para agradar à parcela mais radical do partido (aquela que não se debandou para o PSOL e PSTU) e aos comunistas de beira de piscina e copo de whisky na mão que são fãs do partido.

Mas o PT é corrupto! / Mas o PSDB é corrupto!
Ambos são corruptos e talvez na mesma medida. Talvez a única diferença entre os dois partidos é que o PT, como “estatista” que é, prefira roubar diretamente na fonte e o PSDB prefere roubar no mercado. E os escândalos do PT vieram mais à tona pois estes são (ou eram) mais amadores, enquanto o PSDB neste quesito sempre foi mais profissional e consegue fazer esquemas que sejam mais difíceis de investigar / provar.

Mas então por que a maioria dos escândalos que saem na imprensa são do PT?
Além do fato anterior (os Ptistas são mais amadores), o povo tem uma tolerância menor à falhas de caráter do PT (por culpa deles mesmos, foram eles que sempre disseram que seriam diferentes, o que gerou a expectativa), então os meios de imprensa “pressionam” o PT com reportagens, para que este libere verbas de propagandas institucionais ou de estatais. É só notar que tanto Folha, quanto Veja, Globo, Época, têm como seus maiores anunciantes o próprio governo. E note também que nas semanas subsequentes à qualquer escândalo divulgado na imprensa, a quantidade de reportagens sobre política diminui, enquanto a quantidade de páginas de propaganda dos Correios, Petrobrás, ministérios, etc aumenta.

Mas e por que o empresariado prefere o Aécio?
Como disse, o PT tem em suas bases o sindicalismo e sofre pressões destas bases. Para o empresariado é melhor um governo sem estas influências.

Então se o PT está com os sindicatos, está com os trabalhadores!
Ledo engano. Os sindicatos hoje são verdadeiras máfias (do nível do PCC, com a diferença é que os sindicatos são bancados por um dia de salário por ano de todo trabalhador registrado) que funcionam em função própria. Aliás, muitas vezes os próprios sindicatos se unem aos empresários para arrancar benesses do governo. Exemplo: as montadoras de carro anunciam demissões, o sindicato pressiona o partido, que concede isenção de IPI (ou aumenta o IPI para importados). Ou então as empresas de ônibus de SP atrasam pagamentos, os sindicalistas organizam greves e pressionam a prefeitura a aumentar o repasse às empresas. Pode até que não seja combinado (cada um acredita na mentira que quiser), mas uma classe (empregadores / sindicatos patronais) usa a outra (sindicatos dos trabalhadores) em benefício próprio e vice-versa.

Mas então tão faz votar em um ou em outro?
Sim. Para não dizer que eles são idênticos. O PSDB tem uma agenda levemente mais liberal no quesito economia, enquanto o PT prega uma maior intervenção do Estado nesta. Mas tirando esta “divergência”, em linhas gerais, as coisas não vão mudar. Da mesma forma que o PT não jogou fora todas as conquistas do governo PSDB na área econômica, este não vai dar um passo atrás desfazendo as conquistas no campo social que o PT conseguiu.

Como bem disse a Luciana Genro em um dos debates, Aécio, Dilma e Marina são irmãos siameses. Eu até tenderia a votar no Aécio pela alternância de poder, que é sempre saudável, e pela agenda econômica mais liberal do PSDB. Mas eu já cansei de escolher o menos pior e, se possível, farei como em 2010 e irei pegar uma praia. Se não rolar, anulo o voto e vou tomar umas cervejas, já que terei quatro anos de ressaca mesmo.

P.S. Para quem ficou curioso com o título, é uma música do disco Titanomaquia, na minha opnião o melhor disco da banda paulistana Titãs. E felizes são os peixes pois a memória deles se limita a alguns segundos, como a memória da grande parte do eleitorado brasileiro.

Devolvam a “minha” Vila Madalena

Vila MadalenaSão Paulo passa por um processo interessante que eu denomino “gourmetização”. O Paulistano, mais do que qualquer outro Brasileiro, gosta de pagar caro nas coisas somente pela pura “ostentação”. Então os bares e restaurantes (até os carrinhos de cachorro quente, agora chamados “food trucks”) começaram a adicionar um “gourmet”, “bistro” ou “chez” nos seus nomes e nos nomes de seus pratos, cobrando assim o dobro do preço e o paulistano vai lá todo pimpão, para tirar foto e colocar no instagram e / ou dar check in para mostrar para os outros que ele pode pagar caro.

Os bares da Vila Olimpia e Itaim já nasceram com esta proposta. Cada região da cidade também tem alguns estabelecimentos deste tipo. O problema é que este processo agora chegou à Vila Madalena, talvez o mais tradicional bairro boêmio de São Paulo.

A Vila, como é conhecida dos paulistanos, sempre foi um lugar onde todas as tribos se encontravam: tinha o pessoal que estudava na USP e que morava em repúblicas na região e, por conta das dificuldades financeiras da vida de estudante, sempre encontrava um boteco pé sujo para tocar seu violão e tomar umas cervejas. Tinha o pessoal bicho grilo que curtia MPB estilo “um banquinho e um violão”, as baladas black, as baladas de surfistas que bombavam durante a semana (afinal de contas, aos finais de semana os surfistas iam pra praia), escola de samba, pubs, redutos de chorinho e samba e mesmo points para mauricinhos e patricinhas.

Lembro a primeira vez que fui na Vila, há quase 20 anos atrás, em um bar chamado Kingston, com temática de reggae. De lá para cá pude curtir muitas casas, como o Bom Motivo (MPB), Barbahalla (balada eletrônica), Radiola São Luiz (forró), Bar do Cidão (choro e samba), Bar Anhanguera (atual Cia da Cerveja), Venice (balada de surfista que bombava às segundas), Blen Blen Club (black music). E só citei aqui lugares que já não existem mais!

O legal da Vila era justamente esta mistura toda. Porém, de uns quatro ou cinco anos para cá, algumas casas novas, com propostas parecidas com a da Vila Olimpia/Itaim começaram a se instalar no local (notadamente na Rua Aspicuelta) e “expulsaram” muitas das casas que compunham a “fauna” local. Algumas outras casas resolveram mudar o foco e também aderiram à gourmetização.

Vários empreendimentos residenciais de alto padrão e comerciais também têm surgido na Vila. Além de muitos destes ocuparem terrenos onde antes ficavam tradicionais empreendimentos, vêm apagando aquela imagem bucólica das casinhas e dos ateliês que a região tinha.

Com isto, o “miolo” mais movimentado da Vila (Aspicuelta , Mourato Coelho, Fradique, Harmonia e Fidalga) se tornou uma passarela de ostentação (e do funk ostentação também!) e já não se vê mais esta mistura toda. Além disto é difícil sentar em um bar atualmente e gastar menos do que cem reais.

Os bares mais “tradicionais” acabaram sendo “empurrados” para a “periferia” (Belmiro Braga e Horácio Lane), mas mesmo estes locais hoje já se encontram em risco e a Vila vai se transformando em um novo Itaim. Acho que os antigos moradores, que brigavam contra aquela Vila antiga devem ter se arrependido imensamente de não terem apoiado a proposta da criação de um boulevard que existiu há alguns anos atrás e que iria manter as características do bairro.

A gota d’água para mim foi na semana retrasada, quando me dirigia até o Grazie a Dio, e o ônibus passou em frente à um bar recém inaugurado no imóvel onde ficava o Zepellin (um dos antigos redutos de mauricinhos) e na área de fumantes havia uma série de pessoas com taças de champanhe em uma mão e celulares na outra fazendo selfies.

Me deu uma dor no coração!

Acho melhor eu ir logo conhecer o Morrison (um dos poucos lugares que eu ainda não fui) antes que ali vire uma balada chique, um prédio de escritórios ou um condomínio com as horrendas varandas gourmet. 😦

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Botecando #31 – Grazie a Dio – São Paulo – SP

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O Grazie a Dio talvez seja uma das baladas que eu mais frequentei na vida. Na segunda metade da década passada eu praticamente batia cartão lá aos sábados. Às vezes ia aos domingos ou quintas também para curtir um samba rock.

Há uns três anos atrás a Jam Suburbana, com o sensacional Bocato, mandando clássicos da soul music, funk e motown, era obrigatória às segundas feiras. Porém fazia uns 2 ou 3 anos que não ia mais lá.

A sempre ótima Black Rio em ação!

A sempre ótima Black Rio em ação!

Quando vi durante o dia que a Banda Black Rio iria se apresentar não pensei duas vezes em matar as saudades da banda e da casa e prometi pra mim mesmo que iria de qualquer jeito, mesmo com chuva (que começou a cair à tarde), mesmo tendo que terminar um trabalho no final de semana e mesmo que a preguiça atacasse.

As mudanças no layout da casa, que tiraram um pouco da sensação de “aconchego” que a casa tinha, eu já tinha visto (ocorreu há uns quatro anos), o som continua com a ótima qualidade de sempre, tanto nas bandas quanto nos DJs, focando na música negra americana e brasileira, e onde se podem ouvir clássicos que dificilmente se ouvem até em programas de rádio do gênero. Foi através do Grazie a Dio que conheci muito som bom, inclusive a própria Black Rio e o Bocato.

Porém me deu um misto de tristeza e um pouco de nostalgia ao ver o pouco público presente. Antes do início do show da Black Rio, que estava agendado para a 1:00 da manhã mas começou apenas à 1:30 não tinham mais do que 70 pessoas no local, a maioria por conta de um aniversário. Só encheu um pouco mais porque o Pub Crawl finalizou lá e chegaram mais umas 40 pessoas. Ou seja, pouco mais de 100 pessoas.

Odoyá!

Odoyá!

E ai me bateu a tristeza: um lugar tão legal e com um som bom e apenas 100 pessoas para aproveitar uma balada legal, bons DJs e curtir uma ótima banda. Que desperdício! E a nostalgia me bateu ao lembrar como a casa ficava lotada, impossibilitando até a locomoção, há uns 6 ou 8 anos atrás, em shows da própria Black Rio.

Acho que aquela galera que lotava o Grazie a Dio aquele tempo deve ter envelhecido, deixou de curtir balada e o público acabou não se renovando. E ai fiquei mais triste ainda por que estou ficando velho….rsrsrs

P.S. Alguém poderia me informar se este painel dos Beatles é novo? Não me lembro de tê-lo visto antes, mas também não lembro o que tinha no lugar.

Onde: Grazie a Dio (Rua Girassol, 67 – Vila Madalena – SP)
Quando: 26/09/2014
Bom: ambiente e som!
Ruim: infelizmente tá meio caidaço de público
Site: http://www.grazieadio.com.br/