Arquivo mensal: agosto 2014

Botecando #30 – Gillan’s Inn – São Paulo – SP

Rush Project mandando um set concentrado na fase progressiva do Rush

Rush Project mandando um set concentrado na fase progressiva do Rush

O Gillan’s é um pub bem novo na cena paulistana e apesar disto, já está em seu segundo endereço. Ficava originalmente na Caio Prado, ali bem próximo à região do Baixo Augusta, mas recentemente mudou de endereço e agora ocupa um imóvel bem maior (com capacidade para até 700 pessoas), entre a Praça da República e a Amaral Gurgel. Apesar de agora estar em uma região que não é conhecida por ser uma região boêmia (quer dizer, existem por ali os “estabelecimentos de entretenimento para adultos”), o que faz com que ele quase passe desapercebido, o imóvel escolhido atende bem ao propósito da casa.

Como indica o nome, o pub tem várias referências a bandas inglesas, especialmente ao Deep Purple e ao seu vocalista mais conhecido, Ian Gillan. Um dos quadros, dos vários existentes, é um desenho do vocalista onde o artista não foi feliz e ficou parecendo um quadro da Samara, do filme “O Chamado”.

GillianO espaço é bem aproveitado, por ser um imóvel comprido e relativamente estreito (a proporção de comprimento X largura deve ser, no mínimo, de 3×1), sendo que em um dos lados existe o bar em sí e no outro um “minicamarote”, em um nível um pouco acima do piso principal. Dependendo da configuração, este piso principal pode estar com mesas ou totalmente vazio, criando uma pista para as pessoas acompanharem os shows em pé. Existe também um mezanino que não cheguei a conhecer (estava fechado).

Estive lá para a comemoração do aniversário da minha amiga Giu, a maior fã do Rush que eu conheço, e claro, a banda que estava se apresentando era o Rush Project, uma banda especializada no repertório do power trio canadense, que conta com músicos competentíssimos. Como um bom pub inglês, a casa foca suas atrações em Rock, Hard Rock e Blues.

Gillian 2Do preço eu nem vou falar mais nada porque parece que já virou padrão long necks de cervejas comuns por mais de R$ 10,00. A copa passou mas os preços para gringo, que ganham em Euro ou Dólar, vieram para ficar.

O atendimento, desde os seguranças, passando pela hostess, pelos os garçons e terminando pela caixa, foi simplesmente excepcional, com pessoas muito bem educadas e com prazer em atender. Talvez precisem ensinar o pessoal tirar a Guinness da torneira, já que eles não esperavam os dois minutos de decantação para depois completar e servir, o que deixa a cerveja gasosa, mas só o fato de encontrar Guinness on tap e curtir um bom rock and roll já vale a pena.

Onde: Gillan’s Inn (Rua Marquês de Itu, 284 – Centro – SP)
Quando: 22/08/2014
Bom: decoração, atendimento e Guinness on Tap!
Ruim: os garçons precisam aprender a tirar Guinness
Site: http://www.gillansinn.com.br

Wanderlust #12 – Viel Danke Berlin!

Viel Danke 1Antes de tudo queria te agradecer por você reforçar meus princípios de aceitar e tratar a todos com dignidade e respeito, independente de credo, etnia, gênero, classe social, idade ou qualquer outra coisa. Talvez esta seja a melhor lição que você dê para o mundo.

Você poderia ser cinza, mas deixa seus prédios e trens serem coloridos por grafites e “lambe lambes” que te deixam mais charmosa. E deixa que suas colunas e pilastras nos apresente sua poesia. Eu não entendo muitas delas, mas ao entender algumas palavras, eu consigo “senti-las”.

Viel Danke 2Você poderia ser barulhenta, mas permite que a música flua por suas vias e trilhos, através de centenas de artistas, muitos deles que tocam só pelo prazer de tocar.

Obrigado por tudo isto!

Obrigado pelos vários sorrisos que seus cães preguiçosos, esparramados no chão dos vagões do seu metrô e trem, “arrancaram” de mim.

Obrigado por suas crianças não terem medo de “estranhos” e sorrirem para eles.

Viel Danke 3Obrigado por seus adultos que falam com estranhos, e quando descobrem que eles vêm do Brasil fazem questão de pagar cerveja para estes estranhos. Aliás, obrigado por gostar tanto da minha terra!

Obrigado por seus velhinhos estarem ansiosos para ajudar alguém que eles imaginam estar perdido, só por estarem segurando um mapa na mão. E obrigado por eles se esforçarem para te entender e se fazerem entender, mesmo que eles não falem uma única palavra de uma língua da qual você têm mais conhecimento.

Viel Danke 4Obrigado por estes mesmos velhinhos estarem dispostos a conversarem com você no metrô, nos parques, nas cervejarias e, vendo que você está tentado aprender o seu idioma, se esforçarem para te ajudar e te corrigir, com toda a gentileza do mundo.

Obrigado por suas centenas (milhares?!?) de padarias. Eu não fiquei chateado por elas não terem coxinha. Mas você até conseguiu me arranjar coxinhas!!!!!

Viel Danke 5Obrigado pelo seu sistema de transporte, que apesar de antigo e às vezes mal cuidado, é eficiente, como tudo que você faz, e te leva para qualquer lugar que se deseje ir. E obrigado por ele funcionar 24 horas aos finais de semana e vésperas de feriado.

Obrigado pelo pão com Nutella no café da manhã. Você me acostumou mal e acho que isto será um hábito para mim daqui por diante.

Obrigado por me ensinar a pegar comida para viagem no almoço, só para me sentar num banco de um parque, ou mesmo na grama, debaixo de uma árvore, e fazer deste momento mais do que simplesmente “se alimentar”.

Obrigado por suas mesas coletivas nos restaurantes, bares e Biergartens, que além de nos ensinarem a conviver mais fora da nossa “concha”, faz com que conheçamos pessoas fantásticas.

Viel Danke 6Obrigado por suas mulheres despojadas, que em outros lugares seriam taxadas de deselegantes, só por se vestirem confortávelmente e abdicarem de maquiagem, roupas apertadas e salto alto em nome da praticidade, mas que nos fazem perceber que a beleza natural é a melhor de todas. E obrigado por elas passarem por nós em suas bicicletas, geralmente com um buquê de flores no cesto.

Talvez você não goste muito dela, pois ela te traz lembranças de um passado ruim que talvez você queira esquecer, mas obrigado pela Fernsehnturm, que é como uma bússola quando se está perdido dentro de você. Basta achá-la que você se localiza.

Obrigado também pela Karl-Marx-Alle. Você talvez não goste dela também, pois ela lhe foi imposta por idiotas que queriam mostrar para o mundo o quanto são “poderosos”. Mas mesmo assim, ela é bela e fascinante.

Viel Danke 7Obrigado por me ensinar a andar sempre olhando pro alto, esperando alguma surpresa aparecer.

Obrigado pelas três semanas de muito calor, muitas vezes acima dos 31 graus, o que não é do seu costume, e pelas poucas chuvas.

Obrigado pelo que foi, até agora, o melhor domingo que eu tive, primeiramente fazendo o melhor city tour da minha vida, à bordo de um dos seus mais ilustres filhos, o pequeno e simpático Herr Grün Trabi, seguido por momentos fantásticos em um dos seus parques mais simbólicos.

Para que eu não me estenda muito, simplesmente obrigado por ser a cidade que todas as cidades deveriam ser.

Como diz um cara da minha terra: “eu tenho uma porção de coisas para fazer e não posso ficar aqui parado”.

A gente se vê novamente. Quem sabe da próxima vez não seja “para sempre”.

A Copa de Longe!!!!

20140630 1Nesta minha segunda viagem à Alemanha (com uma passagem de quatro dias pela Holanda) eu tive a oportunidade de acompanhar boa parte da copa de lá. Na verdade não foi uma oportunidade que “surgiu”: desde que o Brasil foi anunciado como o país sede da Copa de 2014 eu já havia planejado sair do país. Eu sempre fui contra a realização de eventos deste tipo aqui, expliquei até o motivo num artigo publicado na Feedback Magazine pouco antes da Copa e havia há muito tempo decidido passar a copa longe.

20140626Durante a minha estada por lá, os meus amigos começaram a perguntar como era, onde eu estava vendo os jogos, como os holandeses e alemães acompanhavam a copa, e mais um monte de coisas por whatsapp, por e-mail, pelo Facebook, etc. Eu resolvi contar um pouco do que via e sentia por lá em alguns post no Facebook, que eu entitulei como “A Copa de Longe”. Como prometido, farei um resumão aqui desta experiência.

20140628 2A primeira coisa que me chamou a atenção, ainda em Amsterdam, foi a quantidade de referências ao Brasil na cidade. A gente aqui nunca teve o costume de decorar a cidade, os bares e até as vitrines (o que invariavelmente se refletia na moda) com cores dos países sede das copas. A gente decora com cores, bandeiras e motivos do nosso país e pronto. Logo no primeiro dia andando por Amsterdam eu me espantei com a quantidade de bandeiras brasileiras em bares, lojas e restaurantes e com os manequins nas lojas com as cores verde e amarela e com estampas como “Brasil – São Paulo – Copacabana” (?!?!) ou com a nossa bandeira estampada com o desenho de uma girafa (?!?!).

20140628 7Porém, quando cheguei em Berlin (e mais tarde constatei em Dresden também) eu fiquei até assustado: em TODOS os lugares onde transmitiam os jogos (falarei sobre estes lugares um pouco mais abaixo) existiam várias bandeiras da Alemanha, eventualmente bandeiras de outras seleções participantes, mas sempre tinha pelo menos uma do Brasil, geralmente junto com uma da Alemanha, em posição de destaque. Das casas, carros e bicicletas que eu vi, posso dizer que ao menos 10% dos que tinham alguma referência à Alemanha também tinham ao Brasil (e o número de imigrantes brasileiros em Berlin está longe de 10% da população).

20140704 5Alem disto, as vitrines e consequentemente a moda na Alemanha também estava dominada pelo verde-amarelo-azul-e-branco (na Holanda era só verde e amarelo, mas na Alemanha eles faziam questão de fazer referência às quatro cores da nossa bandeira). Conversando depois com alguns alemães eles contaram que isto também não é comum lá, mas como a Copa seria no Brasil, um país amistoso e do qual eles gostam muito, aconteceu meio que espontaneamente esta “Brasilmania”. Em conversas com com italianos e espanhóis, estes também falaram que nos seus respectivos países esta moda do Brasil estava acontecendo desde um pouco antes da Copa. Um italiano de Monza disse que a cidade estava toda em verde e amarelo, e disse que a razão é que “o Brasil é um país simpático e amistoso”.

20140707 3Mas a admiração dos alemães pelo Brasil não foi só por causa da Copa. Ao conversar com eles nas “Weltmeisterschaft Public Viewing” (Weltmeisterschaft é “Copa do Mundo” em alemão e public viewing acho que não preciso traduzir), deu para perceber que eles admiram muito o país e são fãs do futebol sulamericano, especialmente o Brasileiro. Alguns chegaram a me dizer que na América do Sul é que se pratica o futebol de verdade (?!?!). Inclusive, para eles “Messi is gut, aber Neymar ist Wunderbar!” (o Messi é bom, mas o Neymar é fantástico).

20140707 5Assim como os brasileiros, eles estavam decepcionados pela maneira como o Brasil estava jogando. Eles esperavam toque de bola, dribles, jogadas sensacionais, e não o futebol burocrático, no esquema BNN (bola no Neymar) que o Brasil praticou durante a Copa. Durante o jogo Brasil e Chile teve um lançamento direto da defesa para o ataque que foi vaiado. O alemão que estava ao meu lado e que eu havia acabado de conhecer ali disse: “este não o tipo de jogo que nós esperamos do Brasil”. “Nem nós, brasileiros também”, foi a minha resposta.

20140707 6Neste jogo, que foi realizado na 11 Freunde Arena (Elf Freunde = onze amigos), um clube de amantes de futebol que edita um fanzine e montou esta arena em forma de arquibancada para as pessoas assistirem os jogos, a torcida dos Alemães estava meio dividida. Eles estavam no fundo querendo que o Brasil ganhasse, estavam crentes que iria dar Brasil X Argentina na final, pelo fator casa, mas estavam torcendo pelo Chile, com medo de pegar o Brasil nas semis (mal sabiam eles…). Mas mesmo com o “coração dividido”, haviam vários alemães torcendo pelo Brasil com camisa, boné, bandeira e tudo o que se tem direito. Outra coisa interessante é que, apesar de eles acharem que a Alemanha cairia contra o Brasil nas semis, eles estavam “aproveitando o caminho”, ou seja, “vamos curtir, até porque já sabemos o que é perder uma semi e ninguém vai morrer por causa disto”.

O Alemão e o Futebol

20140707 7No artigo citado acima, eu falei que gostaria que a Alemanha ou a Inglaterra ganhassem a Copa, por entender que estes sim é que são os países do futebol, ou seja, os países onde o povo realmente ama o futebol como esporte. Mas estando lá durante uma Copa do Mundo eu fiquei ainda mais impressionado com o fanatismo dos alemães pelo futebol. A opnião de que os alemães são realmente fanáticos por futebol foi corroborada por italianos, espanhóis e franceses!

20140707 10Lá, como cá, eles saem mais cedo do trabalho para ver o jogo. No dia do jogo contra a França, que aconteceu numa sexta-feira as 18:00hrs de lá, muita gente nem trabalhou à tarde e, faltando duas horas para o jogo, o transito de Berlin estava um inferno, com tudo travado.

Eles também são muito corneteiros. As únicas unanimidades eram o Schweinsteiger (o “criador de porcos”), o Özil e o Müller, que aliás era o xodó deles. O Joachim Löw era tão ou mais criticado do que o Felipão.

20140707Eu vi muitos comentários nas redes sociais criticando aqueles que vaiaram o hino chileno durante o jogo contra o Brasil e exaltando o hino cantado a capela pelos brasileiros. Os alemães também cantavam o hino juntos, talvez não com o mesmo empenho dos brasileiros, fato muito comentado por eles (eles diziam que era de emocionar), e vaiaram solenemente o hino francês no jogo contra a França.

20140708 4Acho que a coisa que eu mais achei legal foi o fato de eles gostarem de assistir jogos “na geral”, ou seja, junto com outras pessoas. Já falei acima da 11 Freunde Arena, mas esta era apenas uma das várias arenas montadas em Berlin, em média com capacidade entre 1500 e 2000 pessoas cada. Sem contar os bares e biergartens que sempre estavam lotados. A Hyundai montou um “fun park” no Portão de Brandemburgo, que podemos comparar ao nosso Anhagabaú, e a cada jogo pelo menos 500 mil pessoas se reuniam ali. Considerando que a região metropolitana de Berlin (a cidade de Berlin e mais os municípios ao redor) tem 5 milhões de habitantes, 10% da população estava presente. Se for contar todos os outros lugares que existiam para ver jogos, creio que metade da população assistia o jogo fora de casa.

Os animadores destas “fun fests” até tiravam barato de quem ficava em casa no sofá. Por falar em sofá, o FC Union Berlin teve uma idéia genial: antes da copa pediu para os torcedores levarem o sofá para o estádio para assitirem os jogos lá, o resultado foi este: http://epocanegocios.globo.com/Essa-E-Nossa/noticia/2014/06/na-alemanha-torcedores-levam-sofa-para-assistir-copa-no-estadio.html.

A cobertura da imprensa alemã

Eu gostei muito de como a imprensa alemã cobriu a Copa como um todo. Primeiro que eles não quiseram transformar a seleção deles em “heróis” ou coitadinhos (como fazem aqui), até porque é apenas um jogo de futebol.

20140708 5O segundo fato que eu gostei bastante foi como os repórteres que cobriam o “cotidiano” faziam as reportagens: nunca colocavam os brasileiros como coitadinhos, como povo sofrido ou apelavam para o “dramático” em suas reportagens. Eles apenas retratavam uma cultura diferente, e pelo que deu para perceber, muito interessante para eles. Os repórteres alemães não tinham frescura para irem em favela, dormirem numa tapera, comerem dobradinha, pegarem carona no lombo de um jegue. A impressão que eu tive foi que eles aceitam, entendem e até admiram mais a nossa cultura do que nós mesmos, brasileiros.

Talvez isto explique até o comportamento da seleção alemã durante sua estada na Bahia, interagindo com os locais, aproveitando cada experiência. Eles sim deixaram um baita legado: só pela exposição que o local teve na Alemanha, deve ter fila de 2 anos de alemães querendo conhecer a Vila de Santo André da Bahia.

20140708Outra coisa que eu achei muito legal foi eles tentando falar o nome das cidades, dos jogadores, dos estádios, da forma que os brasileiros falam. Eles inclusive chamavam a seleção brasileira de “Seleção”, a argentina de “Albiceleste”, além de utilizarem outras frases em português, como “joga bonito”. (só pra constar: “Feuer in den augen” – fogo nos olhos – é uma expressão bem mais legal que “sangue nos olhos”)

Em um jogo em que o Daniel Alves tomou (mais) uma bola nas costas, eles soltaram “Avenida Daniel Alves” em pleno português e depois explicaram a piada. Da mesma forma, no jogo do Chile, quando o Jô entrou, eles soltaram um “vem ai Jô, the joke”. Das zoeira endet nie!

Agora, a melhor coisa da imprensa alemã foi a Fernanda Brandão, uma brasileira radicada em Munique, escalada para fazer reportagens de rua, geralmente nas praias do Rio de Janeiro, sempre bem à vontade, como se estivesse pegando uma praia, interagindo com o pessoal, torcendo descaradamente pela seleção e sendo “gente como a gente”.

O fatídico 7×1

20140712No dia do jogo Brasil X Alemanha, iria acontecer um show do Ed Motta na Haus der Kulturen der Welt (casa de cultura do mundo), onde estavam ocorrendo eventos relacionados ao Brasil durante toda a Copa. O show foi sensacional. O público estava meio a meio, por conta da temática brasileira, porém a maioria dos alemães estava lá por alguma ligação com o Brasil (muitos alemães / alemãs casados/as com brasileiros/as, alemães que haviam morado no Brasil, etc) então não pode ser utilizado como parâmetro, mas à partir do quarto gol da Alemanha, os próprios alemães começaram a torcer contra o time deles. Mas não creio que só isto foi a razão, visto que o próprio time da Alemanha “tirou o pé”, senão teria sido uns 12!

A pergunta que eu mais respondi (até chegar a um ponto que nem repondia mais) era: “a Copa do Mundo é no Brasil, o que você está fazendo aqui?”.

Foi uma baita experiência. Eu que nunca fui muito ligado em Copa do Mundo fiquei até com vontade de assistir a próxima “in loco”, já aproveitando para conhecer um país que eu tenho muita curiosidade para conhecer, afinal, a Rússia é logo ali!!!!

Só preciso começar a estudar russo desde já e a “treinar” o fígado, desta vez com vodka!

Para quem quiser mais fotos que eu tirei durante os jogos e no dia-a-dia: http://www.4shared.com/folder/wjncMm2Y/ACopaDeLonge.html

Botecando #29 – O Alemão – São Paulo – SP

Alemao 1Quando eu falo para algum “forasteiro” em tomar cerveja na Freguesia do Ó, a pessoa logo pensa no Frangó. Já falei aqui sobre o bar e minha relação de amor e ódio para com ele. O que pouca gente sabe é que a poucos metros do Frangó existe um bar que também vale a pena ser visitado e que, na minha opnião, não deve em nada para o Frangó.

Alemão 2O Bar “O Alemão”, também instalado em um casarão histórico situado no Largo da Matriz de Nossa Senhora do Ó, pode não contar com a mesma variedade da carta de cervejas do Frangó, mas além das populares nacionais (Original,  Brahma, Skol, Heineken, etc), também conta com algumas opções diferenciadas, como Paulaner, Norteña, Erdinger e eventualmente alguma outra.

Um ponto forte da casa são os pratos e petiscos, todos de muito boa qualidade e saborosos. O torresmo é um caso à parte e sou até suspeito para falar. A coxinha deles é bem melhor que as famosas coxinhas do Frangó, não que isto seja difícil (as do Frangó não são ruins, só não tem nada demais e você encontra bem melhores na maioria das padocas de São Paulo, e olha que eu sou um especialista neste quitute). O bolinho de carne deles também é melhor do que o do Bar do Seu Luiz, que praticamente “inventou” o petisco.

Alemão 3Como a própria temática do bar sugere, existem também vários pratos alemães, servidos tanto em forma de petiscos ou como pratos, tais como o Kassler (bisteca de porco defumada), Eisbein (joelho de porco assado), Schnitzel (filé de porco à milanesa) e uma boa variedade de Wursts (salsichões). Já ouvi boas referências a respeito do Filé à Parmegiana servido ali, mas nunca tive a oportunidade de experimentar, já que geralmente vou para beber e acabo ficando só nos petiscos. Como se trata de um bar e restaurante, aceita a maioria dos tickets refeição.

Um outro ponto forte da casa é o bom atendimento (putz, não queria ficar fazendo contraponto com o Frangó, mas não dá para não achar o atendimento do Alemão bem melhor que o deles), com garçons atenciosos e até brincalhões.

A área dos fundos, que é aberta e onde é permitido fumar, também é um atrativo.

Mas, assim como a maioria dos bares da Vila Madalena e de outros redutos da boemia, os preços das cervejas subiu absurdamente no último ano. Pagar R$ 10,00 por uma Original ou Heineken é um pouco caro para uma cerveja popular. Mas no final das contas, os prós acabam compensando os contras nesta casa.

Onde: O Alemão (Largo da Matriz de Nossa Senhora do Ó, 134 – Freguesia do Ó – SP)
Quando: 09/08/2014
Bom: petiscos e aceita ticket!!!
Ruim: preço
Site: http://www.oalemao.com.br/

Wanderlust #11 – Berlin – Teil 5: Observações, Curiosidades e Dicas.

Berlin 1

O eficientíssimo sistema de trens de Berlin

Ufa, estamos chegando ao final. Este é o quinto artigo sobre Berlin (ainda terá um sexto), mas é que existe tanta coisa para falar da cidade, que se eu colocasse tudo em um texto só, iria ficar muito grande. Neste daqui, à exemplo do que eu fiz nos texto sobre os EUA e Amsterdam, vou colocar um pouco as minhas observações sobre a cidade e o povo e também algumas dicas.

Observações e curiosidades:

  • Conforme já havia falado no artigo sobre Phoenix, nos EUA, os Europeus, assim como os norte americanos, são muito diretos quando querem falar alguma coisa. Não ficam com rodeios, não tentam dourar a pílula, não usam muitas “figuras de linguagem”: falam o que precisa ser dito da forma mais clara e objetiva possível. Isto incomoda um pouco os latinos, pois nós somos muito “mimimi”.
  • O alemão então tem esta objetividade elevada ao extremo. Ele simplesmente não quer perder tempo e gastar energia fazendo rodeios.
  • Por falar em gastar tempo e energia, é impressionante como eles aplicam princípios de eficiência em tudo o que fazem. Alguns exemplos:
    • As portas do metrô e trem são dotadas de botões, portanto elas só abrem se alguém realmente for utilizar. Pensando em apenas uma porta, pode até ser um absurdo, mas imagine centenas de portas de trem e metrô se abrindo milhares de vezes ao dia, o que isto gera de desgaste nas peças, gasto de energia, etc.
    • Da mesma forma, as composições de trêm e metro só são formadas pela quantidade máxima de vagões durante os horários de pico. Fora deles, eles simplesmente “desengatam” dois ou três vagões. Isto deve gerar uma baita economia de energia e de peças. Durante as madrugadas de final de semana, quando o transporte público funciona 24 horas, além do intervalo aumentado (em média 15 minutos entre um trem e outro), eles circulam com apenas 2 vagões, o suficiente para atender aquela demanda.
    • Quando fui para Wolfsburg também fiquei impressionado com o trem que se “divide” no meio do percurso. Deixa eu tentar explicar: existem dois trens que fazem boa parte do mesmo caminho, porém em determinado ponto um segue uma linha e o outro outra. Ao invés de cada um circular sozinho, eles “engatam” os dois trens, economizando assim energia, reduzindo o atrito, etc. Quando chega no ponto certo, eles simplesmente se separam (em movimento) e cada um segue o seu caminho.
  • A mulheres alemãs, no dia a dia, também não perdem muito tempo com maquiagem e preferem usar roupas confortáveis, pelo mesmo motivo: praticidade e conforto. Difícil ver uma com roupa muito justa, ou salto alto, por exemplo. Talvez este também seja o motivo para várias adotarem um cabelo bem curto (estilo joãozinho mesmo).
  • Uma das coisas que eu mais acho legal na Alemanha são as mesas coletivas em bares e restaurantes. Isto faz com que você tenha mais oportunidades de conhecer novas pessoas. Aliás, eles gostam muito de atividades coletivas. Neste ponto eles estão muito, mas muito na frente de nós, brasileiros, como sociedade.
  • Indo para um bar para assistir um jogo, passei por uma comunidade hippie em plena Berlin. É simplesmente um terreno que ocuparam e começaram a construir barracos, dividem a comida, roupas, as pessoas vêm e vão, existem festas e é tudo aberto. Para quem estiver na cidade e tiver oportunidade, fica próximo à Cuvry Straße.
  • Uma coisa que eu notei desde a primeira vez que fui à Europa, em 2011, foi o quanto os europeus gostam de aproveitar atividades ao ar livre durante o verão (só fui à Europa três vezes e as três no verão, então não saberia dizer se no inverno acontece o mesmo). Eles evitam até mesmo almoçar, durante o expediente, em restaurantes fechados, preferindo mesas na calçada e muitas vezes pegando a comida para viagem e se sentando num banco, ou mesmo na grama de um parque ou praça para comer.
  • Desde que comecei a andar de Bicicleta, além do Brasil, visitei mais três países: EUA, Holanda e Alemanha. A Alemanha é o único lugar em que o ciclista respeita as leis de trânsito e os pedestres. Nos outros países eles são tão maleducados (até mais, no caso da Holanda), quanto os brasileiros.
  • Durante uma das aulas caímos no assunto do Zivildienst. Lá na Alemanha (e também na Suiça), o serviço militar (Militärdienst) é obrigatório, assim como no Brasil, para todos os homens, e dura oito meses. Porém, quando alguém é dispensado ou não quer fazer o serviço obrigatório, ele tem que prestar 1 ano de Serviço Civil Obrigatório (Zivildienst). O serviço é remunerado (com uma ajuda de custo) e as pessoas são alocadas para realizarem trabalho em órgãos públicos, escolas, creches, asilos, orfanatos, hospitais, etc. Acho que isto cria uma consciência coletiva maior nos jovens. Além de muitas vezes cobrir defasagens de mão de obra nestes locais.
  • A razão pela qual um diretor de empresa ganha 5, 6 vezes mais do que a recepcionista desta mesma empresa (contra dezenas de vezes no Brasil) é uma só: ambos são bem qualificados e a recepcionista tem um background acadêmico que permitiria a ela realizar praticamente as mesmas tarefas do Diretor. Na Alemanha todo mundo é altamente qualificado e as diferenças salariais se dão apenas por conta de experiência e responsabilidades. Vou ver se escrevo um artigo depois sobre o tema (Educação como redutor de diferenças sociais). Infelizmente, com o envelhecimento da população alemã e a necessidade de trazer imigrantes, a situação está mudando um pouco. Tomara que dêem um jeito de arrumar.
  • Aliás, existe muita necessidade de mão de obra, mesmo especializada. Pessoal da área de saúde e de Tecnologia da Informação que pensa em morar fora por um tempo, ou mesmo se mudar definitivamente de país, deve ficar atento à Alemanha pois eles estão facilitando o Blue Card (o visto de trabalho Europeu).
  • Berlin 2

    Os Berlinenses aproveitando o verão

    Os cidadãos de outros países da União Européia, mesmo com a oportunidade de trabalhar na Alemanha sem necessidade de algum visto especial, tendem a procurar outros lugares, por causa da barreira do idioma (mesmo nos caso das economias em crise, como em Portugal, Espanha, Itália, etc). O pessoal de países como a Polônia, Croácia e República Checa, por ter uma estrutura de idiomas um pouco mais próxima do Alemão é que tem procurado aprender o idioma e migrar para a Alemanha.

  • Apesar de uma grande parte da população alemã ser superqualificada, o sistema educacional alemão sofre bastante críticas. Na Alemanha você tem 3 caminhos a seguir: um técnico (mecanicos, eletricistas, técnicos em geral), um de nível superior (advogados, médicos, engenheiros, etc) e um acadêmico (voltado para pesquisa). O problema é que este caminho é decidido entre a 5ª e 6ª séries (10 e 11 anos) e à partir da 9ª e 10ª (14 e 15 anos) não é mais possível mudar. Se por um lado isto permite que o país faça planejamento de longo prazo, sabendo por exemplo, quantos acadêmicos ele terá em 10 ou 15 anos, por outro, acaba criando carreiras “hereditárias”: os pais mais pobres, que muito provavelmente cursaram o caminho técnico, acabam escolhendo a mesma carreira para seus filhos, pois assim estes filhos estarão no mercado de trabalho mais cedo. Como cada unidade da federação (estados e cidade-estados) são livres para decidir o modelo educacional (a única obrigação nacional é que a criança deve entrar na escola com, no máximo, 6 anos), eles têm uma bucha na mão para resolver.
  • A primeira vez que fui à Berlin, em 2012, para quatro semanas de imersão no idioma, eu fiquei surpreendido com a cidade em todos os sentidos (pessoas, arquitetura, história, lazer, vida noturna, etc). Voltei agora em 2014 para mais três semanas e achei que não iria me surpreender mais. Ledo engano: a cidade me surpreendeu mais ainda do que a primeira vez. E tenho a impressão de que se eu voltar daqui 2 anos, ficarei mais surpreendido ainda.

Dicas:

  • O sistema de transporte público de Berlin foi o melhor que eu vi dos países que visitei. Mesmo sendo antigo e às vezes mal conservado, você consegue chegar a praticamente qualquer ponto da cidade usando trem, ônibus e/ou bonde.
  • Mesmo de e para o aeroport Tegel, que não tem conexão com estações de metrô, é fácil pegar um bus (com espaço para malas) até a Alexanderplatz ou a Hauptbahnhof e de lá seguir de trêm ou metro para qualquer ponto da cidade.
  • Existem opções de tickets diários, para 3 dias, para uma semana e para um mês, com preços por passagens decrescentes.
  • O metrô de Berlin fica aberto 24 horas às sextas, sábados e vésperas de feriados. Engraçado que a maioria das linhas deles têm mais de 100 anos, os trens, em sua maioria são antigos, e eles não precisam de 5 horas diárias de interrupção como o Metro de São Paulo, que é bem mais novo e mais moderno.
  • A DB (Deutsche Bahn), administradora das ferrovias Alemãs tem um ticket especial, para ser usado nos finais de semana, chamado Schönes-Wochenende-Ticket (algo como “ticket de final de semana legal!”). Por um custo de 44 euros, até 5 pessoas podem tomar qualquer trem (exceto os expressos), das 0:00 horas do dia da data do ticket até as 3:00 da manha do dia seguinte. O ticket tem que ser comprado para o Sábado ou para o Domingo. Eu fiz um bate e volta até Dresden num sábado por este valor, que é metade do que custaria um ticket normal de ida e volta, mesmo eu estando sozinho. Crianças de até 15 anos, acompanhados por alguém portador de um ticket destes, também não pagam. Ou seja, dá para uma família inteira (das grandes) ir passar um final de semana em outro ponto do país com 88 euros (um ticket para o sábado e outro para o domingo).
  • Berlin é uma das capitais mais pobres da Europa, apesar de estar num dos países mais ricos. Tudo isto é devido ao período em que a Alemanha ficou dividida e Berlin ficava na parte oriental. Por isto, o custo de vida em Berlin é muito baixo, comparado as outras capitais, como Amsterdam, Londres, Dublin (falando das que eu conheço). Como termos de comparação, usando o “Beer index”: um pint de Heineken em Amsterdam, em um bar, custa 6 euros, enquanto um pint de Berliner Kindl em um bar ou biergarten em Berlin dificilmente passa de 3 euros. O mesmo vale para comida (12 contra 6 euros em um “PF”) e para hotéis (paguei 80 euros na diária em Amsterdam e em Berlin 24).
  • Por conta deste baixo custo, muitos jovens artistas ou emprendedores têm se mudado para Berlin para tocar seus projetos. A cidade é uma efervescência só de artistas e também de start ups.

Bem, acho que destrinchei bastante Berlin nos meus demais textos e os tópicos acima foi o que eu lembrei de não ter comentado antes. Mas se tiver alguma outra pergunta e eu puder responder (afinal, 7 semanas em Berlin não é pouca coisa), é só deixar um comentário que eu vejo se posso ajudar.

Top Top #12 – Trem bão sô: artistas mineiros

MGMinas Gerais é um estado curioso. Tem a maior malha ferroviária do país, o terceiro maior PIB por estado, a segunda maior população e o segundo maior colégio eleitoral do país. Apesar disto, ainda é um lugar “misterioso” para a maioria dos brasileiros.

Talvez seja o tal “jeitinho mineiro”, que faz com que o povo de lá seja mais discreto, por vezes meio arredio, mas o fato é que ninguém nunca programa férias para ir à Minas e, particularmente, eu conheço pouca gente que conhece o estado. Os paulistas ainda conhecem o sul de Minas (no inverno), as cidades históricas (no carnaval) e Poços de Caldas, mas nunca vi ninguém se planejando para conhecer BH, o triângulo mineiro, o vale do Jequitinhonha e outros lugares que devem ser muito interessantes.

Como bem notou minha mineiríssima amiga Lívia, até na música que melhor descreve as belezas e diferenças do nosso Brasil, o samba de 1964 da Império Serrano, Aquarela Brasileira, o estado foi deixado de lado. Confesso que também não conheço muito o estado, mas sou fã de algumas coisas que são produzidas por lá, especialmente na música.

Então para mostrar que Minas não produz só mulher bonita, queijo, cachaça e comida boa, um top 10 com os melhores artistas mineiros:

10 – Tavinho Moura – Tres Ranchos
Tavinho Moura é uma das crias de um dos melhores movimentos músicais que aconteceu no Brasil (para mim um dos top 3 do rock brasileiro), o Clube da Esquina, que reuniu muita gente muito boa, que além de conseguir misturar rock, folk e uma pitada de psicodelia com coisas regionais de maneira muito singular, foram (muitos ainda são!) verdadadeiros poetas. Metade desta lista é composta por esta galera.

9 – Clara Nunes – O Mar Serenou
A maioria das pessoas acha que a Clara Nunes era carioca, mas na verdade esta musa do samba é mineiríssima!

8 – 14 Bis – Todo Azul do Mar
Competentíssimos músico que ainda estão ai na ativa. É um show que eu pretendo assistir em breve.

7 – Patu Fu – Por Perto
Umas das mais subestimadas no rock nacional. E a voz da Fernanda Takai é maravilhosa!!!!

6 – Tavito – Rua Ramalhete
“Muito prazer, vamos dançar
Que eu vou falar no seu ouvido
Coisas que vão fazer você tremer dentro do vestido,
Vamos deixar tudo rolar;
E o som dos Beatles na vitrola.” – Poesia pura!

5 – Milton Nascimento – Travessia
Não sou muito fã de Milton Nascimento, questão de gosto mesmo, mas acho ele um baita intérprete. E esta música é fantástica!!!

4 – Beto Guedes – Paisagem Na Janela
Talvez o Beto Guedes seja um dos meus artistas nacionais favoritos. Ótimo letrista, consegue botar no mesmo “tacho” Pink Floyd e música sertaneja mineira. Aliás, acho que ele facilmente poderia ser um integrante do Pink Floyd da fase inicial (Syd Barret e primeiros anos do David Gilmour). Pena que ele não faça muitos shows, devido o seu pavor de avião….rs

3 – Skank – Uma Canção É Pra Isso
Acho que já falei isto em outro artigo, mas como não vou sair procurando, talvez torne-se repetitivo: o Skank se tornou uma baita banda de rock quando abandonou aquele pop-ska chatíssimo de início da carreira e resolveu beber descaradamente na fonte de Beatles e do Clube da Esquina (que por sua vez bebeu na fonte da psicodelia dos anos 60). Hoje eles estão no top 10 das minhas bandas nacionais de todos os tempos.

2 – Lo Borges – O Trem Azul
Mais um exemplo da qualidade das letras e das músicas da turma do Clube da Esquina.

1 – Flavio Venturini – Noites Com Sol
Outro da galera do Clube da Esquina. Fundador do 14 BIS, também passou pelo “O Terço”, umas das bandas que fizeram parte da modesta cena de Rock Progressivo no Brasil. Um dos maiores compositores do Brasil. Muita gente já cantarolou Espanhola, Todo Azul do Mar, Nascente, Sol de Primavera, que foram sucessos na voz de outros artistas e sem nunca saber que eram canções do Flávio Venturini. Esta canção então é uma das mais belas que eu já ouvi.

Be happy! 🙂

Botecando #28 – Valadares – São Paulo – SP

Valadares 1Apesar de sempre ouvir falar no Valadares e morar relativamente perto (a Freguesia do Ó, onde moro, é bairro vizinho da Lapa), nunca havia ido à este boteco. E na verdade nunca perdi nada.

Não que seja ruim e creio que, por ser um bar antigo (funcionando desde 1962), o pessoal do bairro tenha até uma memória afetiva do lugar, mas não tem nada demais que me atrairia, como me atrai, por exemplo, o Bar do Luiz (por causa do atendimento), o Frangó (a carta de cervejas) e alguns outros botecos que gosto de frequentar.

Valadares 2O bar é bem simples, com cara de boteco mesmo (ponto para eles por não terem as frescuras dos tais “botecos chiques”). Decoração simples, mesas e cadeiras de madeira, quadrinhos com frases “engraçadas”, mesas na calçada, etc.

A cerveja (Original) sempre gelada e o atendimento é bom, mas nada além disto.

Talvez o que torne o bar relativamente famoso sejam alguns dos seus petiscos exóticos, que dificilmente são encontrados em outros lugares. Mariscos e polvo (normalmente não se encontram em botecos simples, a não ser no litoral), jiló em conserva (muito bom por sinal) e os dois carros chefes da casa: testículos de boi e a rã à milanesa (que conforme observou o amigo Gera, parece uma barbie empanada).

Valadares 3

A barbie empanada

Como não sou muito chegado a estas estravagâncias culinárias, preferi ficar no básico mesmo e, além do jiló, preferi experimentar as batatas na serragem (batatas assadas com farofa) e o torresmo (bom, mas nada além disto).

Vale a pena conhecer? Vale para contar no meu curriculum de botequeiro (palavra complicada, pode gerar interpretação errônea…hehehe), mas se a proposta é apenas tomar umas geladas, jogar conversa fora e beliscar alguma coisa, prefiro ficar no meu bairro mesmo ou ir para a minha querida Vila Madalena.

Pelo menos o preço é bom, na média de um boteco simples: rachando, a conta deu R$ 43,00 para cada, e olha que tomamos bem!

Onde: Valadares (Rua Faustolo, 463 – Lapa – São Paulo – SP)
Quando: 01/08/2014
Bom: preço e petiscos
Ruim: nada
Site: http://www.aperitivosvaladares.com.br/

Wanderlust #10 – Berlin – Teil 4: atrações

Neste quarto “artigo” sobre Berlin, vou falar um pouco das atrções da cidade. Quais eu achei legal, quais não achei e quais talvez valeriam a pena, dependendo do tempo dispendido na cidade.

No caso de atrações próximas, tentarei colocar num item só para já deixar a dica para o caso de alguém se interessar em fazer um deles, saber que dá pra aproveitar e fazer outros passeios juntos.

Tem que fazer:

  • Museus, museus, museus:
    Berlin é a cidade dos museus! No Spree tem até um banco no meio do rio chamado Museumsinsel (ilha dos museus). É museu da Cerveja, da Salsicha, muitos museus de arte, museu da DDR, das motos da DDR, dos carros da DDR, dos Ramones (sim!). Então com certeza você vai achar algum museu que case com algum interesse bem particular seu. Como disse minha amiga Rebeca: em Berlin só falta o Museu dos Museus. Vou sugerir alguns abaixo que eu gostei.
  • Deutches Historisches Museum:
    a dica que eu sempre dou para toda cidade, a primeira coisa a se fazer é ir ao museu local para tentar entender a história daquela cidade e os eventos que a formaram, bem como o seu povo. Como geralmente a gente chega nas cidades entre 12:00 e 15:00 (eu sempre me programo desta forma, pois uso o tempo entre o checkout de um lugar e o checkin em outro para viajar), dá para conhecer logo de cara. E aproveito também para fazer um reconhecimento à pé do local – Tempo: entre 2 e 4 horas.
  • Karaokê no Mauerpark

    Karaokê no Mauerpark

    Gedenkstätte Berliner Mauer / Mauerpark:
    este museu a ceu aberto na Bernauer Straße, uma das ruas que foram separadas pelo muro, conta toda a história deste episódio da história de Berlin. Contém trechos preservados do muro, da death strip e uma das torres de controle. Com cerca de 2 kms de extensão, termina praticamente no Mauerpark, um outro ponto importante na história do muro. Em dias normais, umas 4 horas para fazer os dois passeios são suficientes, porém, se for no verão e puder ser feito num domingo, aconselho reservar o dia todo: umas 2 ou 3 horas para o Museu e o restante do dia para o mercado de pulgas e o karaokê que acontecem no Mauer Park (isto sem contar os biergartens e artistas de rua do parque).

  • Trabi Safari: uma viagem no tempo

    Trabi Safari: uma viagem no tempo

    Trabi Safari:
    sério, talvez as pessoas achem que eu estou exagerando, mas este foi O MELHOR city tour que eu já fiz na minha vida. Primeiro por dirigir um carrinho que, apesar de espartano, é bem simpático e segundo porque você realmente entra dentro da história. Parece que os pequenos trabis são máquinas do tempo que te levam para a Alemanha Oriental da década de 70. Aconselho fazer o maior percurso, que segue todo o desenho do muro e dura duas horas. Mas reserve umas 3 ou 4, para ouvir as explicações e para perder alguns minutos na loja de souvenirs após o passeio.

  • Potsdamer Platz / Denkmal für die ermordeten Juden Europas / Brandemburger Tor / Tiergarten / Siegessäule:
    o portão de Brandemburgo é provavelmente a atração turística mais famosa da cidade. O que pouca gente sabe é que pode-se emendar algumas outras atrações num passeio só de cerca de duas horas (se não quiser gastar muito tempo, mas se quiser aproveitar o Tiergarten e subir no Siegessäule, reserve umas 4 horas). Comece na Potsdamer Platz e siga placas para o Portão, no caminho você passa pelo memorial aos judeus mortos na Europa. O portão fica em frente ao Tiergarten e, de costas para o portão, você já enxerga a coluna da vitória, a cerca de uns 2 kms. Dá pra chegar até lá passeando por dentro do parque ao invés de seguir uma linha reta.
  • Sim, é um avião de verdade!

    Sim, é um avião de verdade!

    Deutches Teknisches Museum:
    talvez por eu ser fascinado por tecnologia este museu tenha sido um dos mais legais que eu já visitei na vida. Ele tem várias seções contando a história de vários adventos tecnológicos, tais como: trens (deve ter uns 20 trens dentro do museu, então imagina o tamanho), carros, aviões, barcos, fotografia, cinema, cerveja, etc. Precisa reservar ao menos umas 5 horas para poder passear por todas as áreas deste museu gigante sem ter que correr.

  • A imponente Karl-Marx-Alle

    A imponente Karl-Marx-Alle

    Karl-Marx-Alle:
    um monumento à imbecilidade humana erguido como uma prova do poder da URSS e do sistema ali implementado à época. Apesar disto a arquitetura é bela, os prédios simétricos são fascinantes e para quem como eu ainda não conheceu a Rússia, é uma pequena amostra de Moscou. Eu fiz 5 kilometros da avenida em 1 hora e meia, parando para tirar fotos.

  • São Jorge alemão em Nikolaiviertel

    São Jorge alemão em Nikolaiviertel

    Alexanderplatz / Fernsehturm / Nikolaiviertel:
    este é um que dá para emendar com a Karl-Marx-Alle, já que a avenida termina (ou começa) na Alexanderplatz, a praça central de Berlin. Não tem nada demais, mas você não foi a Berlin se não comeu um currywurst acompanhado de uma Schofferhöffer no biergarten desta praça. Aqui também fica a famosa Fernsehturm, cujo topo dá vista para toda a cidade de Berlin (nunca fui, não tive vontade) e dá para emendar andando (uns 15 minutos) Nikolaiviertel, o bairro mais antigo de Berlin. Umas 3 horas dá pra fazer tudo isto, se não tiver muita fila na Fernsehturm. Porém, talvez seja interesante reservar mais tempo, para poder também almoçar e tomar uma cerveja na Geogbräu, uma microcervejaria em Nikolaiviertel.

  • Topologie des Terrors:
    para quem gosta de história este é um local bem interessante. Ele foca, através de fotos, reportagens de jornal, filmes, etc, o período da história alemã entre o final da primeira guerra e a consequente ascensão de Hitler até a queda do muro. Leva umas 2 horas (lendo todo o material) e pode ser feito junto com o Trabi Safari, pois fica do lado.
  • Autostadt:
    esta é para os amantes de carro. A Autostadt (cidade do carro) é um “parque” dedicado à história do carro aberto pela Volkswagen em Wolfsburg, cidade a cerca de 200kms de Berlin. Se estiver por Berlin por mais de 6 dias vale a pena fazer um bate e volta que leva 1 hora de trem para ir, 4 horas passeando pelo parque e mais 1 hora para voltar. Total de 6 horas. E nem perca tempo visitando a cidade de Wolfsburg. É uma cidade industrial como Santo André, Camaçari, Betim, etc. Não tem nada legal para ver.

Dispensáveis:

  • Museus, museus, museus:
    como disse anteriormente entre as coisas boas, Berlin tem museu que não acaba mais. Então mesmo se você for um fã de museus, tente equilibrar seus passeios porque senão corre o risco de perder toda sua estadia na cidade dentro de lugares fechados. Abaixo alguns que eu visitei e desaconselho.
  • Museu de História Natural:
    a não ser que você seja muito fã de biologia, paleontologia, astronomia, geologia e afins, não vale a pena. Se você já visitou o Museu de História Natural de Nova York então, e bem capaz de se decepcionar pois a comparação vai ser inevitável.
  • Museumsinsel:
    5 museus em um lugar só e um daily pass que te permite visitar todos. Não caia nesta. São museus interessantes até, mas são muito específicos (arte barroca, arte egípcia, etc), então, a não ser que você seja fã de algum dos temas ou vá passar bastante tempo na cidade não vale a pena.
  • Museu das Motos da DDR:
    mesmo para quem é fã de moto, este museu não tem nada a mais do que se vê em encontros de carros e motos antigas e nada que chame a atenção. Além de ser pequeno (30 minutos seriam o suficiente)
  • Campos de Concentração:
    em Berlin você fica “sobrecarregado” com histórias da primeira e segunda guerras, do nazismo e da Alemanha dividida (e consequentemente da guerra fria). Não creio ser necessário se deslocar até Sachenhaus (na grande Berlin, o campo de concentração mais perto) só para visitar um campo de concentração. Além do mais, o clima é meio pesado.

 Se tiver tempo:

  • Passeio de barco pelo Spree:
    vale a pena para ver a cidade por outra perspectiva e também é um passeio curto (se for fazer, faça o de uma hora, é mais que suficiente). Se der, aproveite aquela hora pós almoço em que se está cansado de andar e precisa dar uma “jiboiada”.
  • Olimpiastadion:
    muito interessante este estádio, que foi palco das olimpíadas de 32 e da final da copa de 2006, e todo o parque olímpico ao redor. Só cuidado pois além de ficar distante do centro da cidade (uns 40 minutos de metrô) é bem grande, então pode-se perder umas 5 ou 6 horas neste passeio.
  • The Story of Berlin:
    o museu em sí é até meio repetitivo (pedaços do muro, um trabi, etc) mas o final é que é interessante, pois ao final da visita, existe uma visita guiada por um bunker construido na época da guerra fria, que fica uns 4 andares abaixo do solo, no mesmo prédio. Se estiver perdido na Kurfürstendamm e quiser aproveitar é interessante pelo bunker. Na região ficam também o Hard Rock Café de Berlin (para quem gosta de comprar souvenirs da marca, como eu) e a KaDeWe, uma loja de departamentos gigantes (também legal para comprar souvenirs).
  • Tempelhof:
    a história desde aeroporto desativado que virou parque vale mais do que o parque em sí. Mas se estiver tentando manter a rotina de exercícios durantes as férias, dá pra ir até lá correr (em uma das duas pistas de pouso) ou dar umas pedaladas.
  • East Side Gallery:
    bem legal para quem curte grafitti. E só!
  • DDR Museum:
    este é outro passeio curto que vale para a “jiboiada” pós almoço (fica bem na região central, perto da Museuminsel, Berliner Dom, etc). O museu é pequeno (cerca de 1 hora de visitação) e mostra como era a vida na DDR.

Noite:

Eu sou um cara mais do dia. Gosto de aproveitar mais enquanto tem luz do sol, de dormir pouco e levantar cedo, mas aqui vão algumas dicas para atrações noturnas na cidade (as poucas que eu visitei em 7 semanas!). Até porque não se pode perder oportunidades em uma cidade onde o transporte público funciona 24 horas aos finais de semana e véspera de feriados (só fique esperto com os horários pois os intervalos são bem maiores)

  • Prenzlauer Berg:
    este distrito próximo ao Mauerpark é repleto de bares, restaurantes e discotecas. Sugiro o Zu Mir Oder Zu Dir (um bar com DJ rolando louge e eletrônicos mais softs, é pra sentar e conversar tomando uma cerveja. Só avisando pra quem se incomoda: no local é permitido fumar, mesmo sendo fechado) e a Kultur Brauerei, uma antiga fábrica de cerveja transformada num centro com restaurantes, bares, galerias de arte, etc.
  • Cuvrystraße:
    um dos vários bairros boêmios de Berlin. A Lido é uma danceteria legal (especialmente se tiver rolando noite de Soul music) e vale a pena dar uma passada antes na comunidade Hippie que existe na esquina com a Schlesische Straße.
  • Mitte:
    tanto na Torstraße quanto a Oranienburger Straße existem vários restaurantes e bares, de tudo quanto é tipo (muitos italianos, mexicanos, indianos, pubs, etc)
  • Competição entre mesas no The Pub

    Competição entre mesas no The Pub

    Alexanderplatz:
    existem alguns barzinhos e restaurantes nas redondezas da praça. Seguindo a linha do trem, sentido Hackescher Markt, existem dois lugares interessantes para apreciadores de cerveja. O primeiro é o BHM Brauhaus Mitte, uma cervejaria local e o segundo é o The Pub, onde existem mesas que vendem cerveja a litro, baseado num “cervejômetro” instalado nas mesas e que permite a separação da conta em até 8 “comandas” diferentes. So tome cuidado pois eles colocam quanto cada mesa consumiu no telão e isto acaba gerando uma competição que pode acabar numa bela ressaca….hahaha

  • Hackescher Markt:
    existem alguns bares, pubs e restaurantes instalados na parte de baixo da estação. Alguns deles funcionam 24 horas.
  • James-Simon-Park: uma das "praias" dos Berlinenses

    James-Simon-Park: uma das “praias” dos Berlinenses

    James-Simon-Park e Monbijou Park:
    os dois parques ficam à beira do Spree e são separados apenas por um túnel. No James-Simon existem vários barzinhos com cadeiras de praia, mas no verão o pessoal pega cerveja e fica na grama mesmo. No Monbijou existe o Strandbar, bem colado ao rio, também com cadeiras de praia e mesas. No Strandbar, quando o clima permite, acontecem aulas de dança (tango, ritmos caribenhos e africanos) no final da tarde / começo da noite.

Bem, é isto. No próximo artigo falarei um pouco sobre impressões que eu tive da cidade e do povo e também darei algumas dicas para os viajantes.

Be happy!!!! 🙂

Adeus, China – O Último Bailarino de Mao – Li Cunxin (13/2014)

~AdeusChina_capa-P1.tifRelato autobiográfico que conta a história de Li Cunxin, um garoto pobre, nascido no nordeste da China comunista de Mao Tsé-tung que, ao ser selecionado, aos 11 anos, para integrar a companhia de balé de Madame Mao, tem a oportunidade de fugir do destino sofrido de milhares de outros chineses (como seu pai, tios e irmãos).

O livro está divido em três partes principais. Após o prefácio que descreve o casamento dos pais de Cunxin, a primeira parte trata basicamente da infância do autor e das condições dos camponeses na China pós Revolução Cultural. Ele entra em detalhes de como as pessoas viviam, se relacionavam. Conta um pouco da formação que recebeu na escola (as primeiras frases que todos os alunos aprendiam eram “Salve o chefe Mao” e “Vida longa ao chefe Mao”). Descreve também, com bastante detalhes, como era a “lavagem cerebral” a que os alunos eram submetidos na escola, fazendo inclusive com que as “individualidades” fossem eliminadas e todos fossem apenas “peças” de uma grande engrenagem (o objetivo final do comunismo).

Eu já li alguns livros que tratam sobre estas implementações das teorias de Marx em diversos países (inclusive de simpatizantes destas teorias, como John Reed e George Orwell) e já tive a oportunidade de conversar com algumas pessoas que viveram nestes países durante estes sistemas e nunca consegui obter relatos favoráveis. Até hoje não entendo como tem gente que ainda defende a implementação destes sistemas, adoram estes líderes (Che Guevara, Fidel, Mao, Lênin, Stálin, etc) e países que ainda os adotam (como Cuba, Coréia do Norte e, até o momento a China).

A primeira parte do livro termina com a seleção de Cunxin para fazer parte da escola de balé. A segunda parte trata dos anos difíceis na escola, da adaptação à uma nova vida para um garoto do campo e do contato e o início  da paixão pela arte. Nesta parte, um pouco mais maduro, apesar de ainda existir muita doutrinação política e ideológica, ele começa a questionar um pouco os ensinamentos políticos que recebia, já que muita coisa se opunha à liberdade que a arte, em teoria, deveria ter e já que a arte, naquele contexto, era utilizada como ferramenta para mais doutrinação ideológica.

Durante uma apresentação de uma companhia de balé americana (a primeira apresentação em anos) na escola onde ele estudava, Cunxin tem seu primeiro contato com o ocidente e recebe o convite para, junto com outro estudante chinês, fazer um curso de três semanas na Companhia de Balé de Houston. Durante estas três semanas nos Estados Unidos, tudo aquilo em que ele acreditava cai por terra e, ao sentir o gosto da liberdade, ele percebe o quanto sua vida, até aquele momento, tinha sido “desperdiçada”.

A terceira parte do livro trata da segunda ida de Cunxin aos EUA, viagem esta que faria com que ele desertasse e se estabelecesse no Ocidente. Interessante também a descrição dos acontecimentos da sua deserção. O final do livro mostra as mudanças ocorridas na China desde a queda de Mao e a subida de Deng Xiaoping ao poder.

A biografia é muito interessante, tanto por contar a vida deste artista quanto para nos mostrar relatos de quem esteve dentro destes sistemas e pode descrever os fatos com mais precisão do que qualquer agente externo (professores, historiadores e jornalistas), que muitas vezes por ideologia acabam por “dourar a pílula”.

Existe um filme, produzido na Austrália (Cunxin vive hoje com sua família na Austrália) e que foi baseado no livro, chamado Mao’s Last Dancer.

Abaixo, algumas passagens interessantes do livro.

  • “…os jovens guardas vermelhos destruíam tudo que lembrasse o Ocidente: livros, pinturas, obras de arte – qualquer coisa. Demoliam templos e santuários: Mao não queria outras religiões competindo com o comunismo, que deveria ser nossa única fé.”
  • “Não foi fácil conseguir permissão para dar a Na-na (avó) um enterro tradicional. Aquela era então considerada uma prática ultrapassada e nociva. O governo começava a pressionar as pessoas a cremar seus mortos.”
  • “Eu esperava que, depois da minha morte, alguém lesse meu diário e concluisse que as minhas boas ações tinham sido mais numerosas que as de Lei Feng. Então, eu também seria herói! Mas só tinha 10 anos. Não percebia que aquela era mais uma campanha de propaganda para conquistar nossa lealdade a Mao e ao Estado comunista.”
  • “…fiquei muito impressionado e extremamente orgulhoso do passado glorioso da China – realmente, a nação mais feliz e mais rica do Planeta. Uma questão, porém, começou a me incomodar: se a China era assim tão rica, por que minha família não tinha comida bastante nem dinheiro para comprar roupas?”
  • “Havia ainda o Jornal de Referência, somente disponível para escalões superiores do Partido Comunista, que trazia um pouco mais de notícias internacionais e um pouco menos de propaganda. Ocasionalmente, porém, alguém conseguia um exemplar e passava adiante.”
  • “Os garotos de Xangai se davam bem entre si. Eles, em geral, tinham a pele mais clara que a nossa, pessoas do campo. Eu era provavelmente um dos mais escuros. Como na China considerava-se bonito ter a pele clara, eu me senti inadequado…”
  • “Depois de assistir à apresentação preparada especialmente para ela, madame Mao disse aos oficiais: ‘A dança me pareceu bela, mas onde estão as armas? E as granadas? Onde está o significado político?’ …A partir de então, nosso programa de treinamento sofreu importantes mudanças… Na verdade, aquilo era ideologia política levada à loucura, mas a universidade seguia rigorosamente as instruções e a orientação política que ela transmitia. Não passávamos de marionetes políticas de Mao.”
  • “…suas aulas tratavam apenas da história do comunismo e das idéias políticas de Mao. Era quase nada o que sabíamos a respeito do que acontecia fora da China. Aprendemos um pouco sobre Marx, Engels, Lênin e Stálin, mas apenas como pano de fundo para as grandes realizações políticas de Mao…retratava o chefe Mao como o maior estrategista político que já existira, o homem capaz de superar todos os inimígos políticos.”
  • “Aquela viagem à cidade natal destruíra de vez a fantasia de uma vida ideal no campo, que eu sempre julgara possível. O que acontecia na mente do meu segundo irmão era muito pior do que falta de comida, a fome. Era a morte da alma.”
  • “Assim como Zhang Shu, outros professores experientes, antes acusados de direitistas, foram reabilitados e chamados de volta. Um deles era um especialista em balé russo, que falava muito bem o inglês e tinha traduzido diversos libretos russos para o chinês. Durante o tempo que passara no campo, fora obrigado a executar as tarefas mais repugnantes, para expiar seu único crime: o conhecimento das artes do Ocidente.”
  • “Algum tempo depois, Yu Fangmei, um bailarino formado pela Academia de Dança de Pequim – amigo íntimo do professor Xiao –, chegou do Japão levando de presente para o departamento de balé uma televisão, um aparelho de vídeo e algumas fitas, novidades de que jamais havíamos sequer ouvido falar. As fitas mostravam balés dançados por Barishnikov, Nureyev, Margot Fonteine e até por bailarinos formados nos Estados Unidos, inclusive Gelsey Kirkland. Somente os oficiais e os professores da academia tinham acesso a este material, como ‘fonte de referência’. Não era permitido expor os estudantes às ‘influências perniciosas’ do Ocidente”.
  • “Jamais ouvira música tão bela e romântica. Seria impossível sob o comando de madame Mao; a valsa teria sido considerada uma influência perniciosa a ser banida junto com outras formas de lixo ocidental.”
  • “…felizmente não precisávamos mais analisar o conteúdo político do espetáculo.”
  • “Eram compreensíveis as preocupações de minha família em relação aos Estados Unidos. Durante anos ouvimos falar do perigo representado pelo Ocidente, em especial pelos Estados Unidos.”
  • “Vimos também quadrados azuis, que Ben, com gestos, nos explicou serem piscinas. Entre risadas, custamos a acreditar que pudesse haver tantas piscinas em uma área tão pequena. O contraste com a pobreza da China era tal que mais uma vez pensei na prosperidade dos Estados Unidos e nas histórias que nos contaram”.
  • “Ben e Richard contaram piadas, fazendo todos rirem. Mas Zhang e eu não esquecíamos estar diante de seis possíveis inimigos da classe. Não sabíamos que atitude tomar. Na China, sob o regime de Mao, eles seriam presos ou mortos somente por sua riqueza.”
  • “Eu me senti honrado em conhecer Barbara (Bush), mas o fato de ser casada com um homem de atitudes pouco discretas me fez suspeitar de suas intenções políticas. Iria ela tentar corromper nossas convicções? Fui mentalmente preparado e me surpreendi com a recepção generosa e cordial que tivemos. Barbara não parecia mulher de político. Elegante e bondosa, referiu-se sempre à China com respeito.”
  • “O que mais me ocupou o pensamento, porém, foram as imagens sombrias e assustadoras da sociedade capitalista, então substituídas por outras completamente diferentes. O inimigo que a China mais odiava e o sistema representado por ele me deram o que eu mais desejava. Estava assustado e confuso. Em que acreditar, afinal? No que o comunismo me ensinara ou no que acabara de ver e viver? Por que o chefe Mao, madame Mao e o governo chinês nos contavam mentiras sobre os Estados Unidos? Por que éramos tão pobres na China? E por que eles eram tão prósperos?”
  • “A liberdade experimentada nos Estados Unidos me vinha à memória constantemente. Na China seria impensável desafiar o chefe Mao e a autoridade absoluta de seu governo. Os direitos individuais não existiam. Tudo nos era imposto: o que fazer, quanto trabalhar, quanto receber, onde viver e quantos filhos ter. Minhas crenças comunistas entravam em choque com as lembranças da América, ainda tão vivas.”
  • “…eu não entendia por que o fato de não viajar aos Estados Unidos me afetava tanto. Ficava com raiva de mim por ser egoísta. Já tinha ido uma vez; devia estar satisfeito e agradecido. Mas uma voz mais forte se impunha sobre todas as outras em minha mente: ‘Eu quero voltar. Quero estudar com Ben. Quero melhorar minha técnica e, o mais importante, experimentar mais uma vez aquela preciosa liberdade’.”
  • “…nós não reconhecemos o seu casamento como legítimo. Quem decide sua vida não é você, é o Partido Comunista!…Você é propriedade da China…Temos o poder de fazer o que quisermos de você…O partido sabe o que é bom para você.”
  • “Antes de irmos embora, Barbara nos levou a um passeio pela Casa Branca, o que me deixou muito honrado. Minha maior surpresa foi a simplicidade da decoração. Ali, ficava o centro do poder da América, o centro do poder do mundo. Onde estaria a grandiosidade? Onde o luxuoso palácio da força política? Comparada ao monumento ao chefe Mao, na praça Tiananmen, a Casa Branca era mesmo muito simples.”
  • “Claro que eu sabia da situação do povo russo vivendo atrás da cortina de ferro, mas ainda assim me surpreendi com seu anseio de liberdade. Era pior do que eu imaginava. O medo da KGB parecia presente em todas as mentes.”

Botecando #27 – Ó do Borogodó – São Paulo – SP

Ó do BorogodoEste é um dos lugares que eu mais gosto de frequentar em SP. É um barzinho simples, montado numa casa pequena e antiga, numa travessa da Cardeal Arcoverde (a primeira depois do cemitério). Não tem muita frescura na decoração (alguns quadros sobre a parede de tijolos), as mesas são de madeira (quando consegue-se alguma mesa), a cerveja é padrão (Original, Brahma, Serramalte, Itaipava, etc) e o cardápio não tem muita variedade.

Porém, o que faz a qualidade deste bar são os grupos que tocam no lugar e os frequentadores. Você quer ouvir música brasileira “de verdade”? Tem algum amigo gringo que está por São Paulo e quer conhecer um legítimo boteco brasileiro? Quer ir num lugar para curtir um som, ver gente de tudo quanto é tipo que está afim somente de ouvir um som, tomar uma cerveja e dançar? Então o Ó do Borogodó é o lugar.

O do Borogodo 2De segunda à segunda se apresentam grupos, compostos de ótimos músicos, que passeiam por vários ritmos da música brasileira: samba, chorinho, mpb, maracatu, forró, entre muitos outros. Tem muita música brasileira que eu fiquei conhecendo porque ouvi nas domingueiras do Ó (para mim o melhor dia, mas os outros também são muito bons).

Como a música é boa e foge do que toca na grande mídia, atrai também um público diferenciado e muito diversificado para a casa: tem senhores, jovens estudantes, casais, gringos, todos afim de aproveitar o som e, se o espaço permitir, dançar um pouco, mesmo que não se saiba dançar.

O melhor dia para mim é aos domingos. O som inicia-se entre 21:00 e 21:30, porém, para conseguir pegar alguma mesa (para pelo menos apoiar as garrafas, já que é impossível não ficar de pé e dançar) precisa chegar na hora que a casa abre, as 20:00 horas. Existem dias em que as 21:00 horas já está lotado e não se consegue entrar. Ai fica fila do lado de fora e o esquema é “só entra se alguém sair”.

O do Borogodo 1Quando lota surgem os poucos problemas da casa: como disse, é um casarão antigo, sem muita infraestrutura, então fica um calor imenso (agora colocaram até um ar condicionado, mas dependendo da temperatura externa, não dá conta), o serviço decai um pouco, pois os garçons têm que atender mais clientes e ainda se locomoverem pelo lugar lotado e na hora de pagar é um sufoco, pois tem apenas um caixa.

Os banheiros também são meio precários, mas estão sempre limpos (na medida do possível, ou seja, em que a clientela também colabora com a manutenção da limpeza).

Mas é um lugar para ir, relaxar, dançar, conhecer pessoas diferentes e interessantes. Só precisa ir com a mente e coração abertos, pois literalmente pessoas de todas as tribos ali se encontram e convivem em harmonia. E não pode ter frescura com lugares apertados e com gente suada, afinal de contas, dançar queima calorias, e mesmo nos dias mais lotados, sempre dá-se um jeito de arrumar um par e espaço para dançar.

Onde: Ó do Borogodó (Rua Horacio Lane 21, Pinheiros – São Paulo – SP)
Quando: 26/07/2014
Bom: grupos ao vivo e público
Ruim: é pequeno e quando lota a qualidade do serviço cai e gera fila na hora de pagar
Página do FB: Ó do Borogodó